
Nas imagens desta coluna, sou eu exatamente 30 anos atrás, em Amsterdã. Num primeiro momento, desfruto das liberdades que a capital holandesa tradicionalmente nos proporciona. No seguinte, estou com os braços abertos caminhando sobre as águas geladas e sob os efeitos da foto anterior numa temperatura de 17 graus abaixo de zero. Dizem que, depois de 10 graus abaixo de zero, o frio é sempre o mesmo. Não sei se é assim, mas o fato é que aquilo era muito mais que de “enregelar cusco” – mataria o pobre cãozinho. Vejo as minhas pernas grossas ali e me lembro das ceroulas, das meias, dos plásticos, dos jornais que usava pra atenuar a friaca sem conseguir, porque era impossível. Nessas condições, a solução adequada era a de simplesmente seguir o Andrés Calamaro em “Loco”: ”Voy a salir a caminar solito / Sentarme en un parque a fumar un porrito / Y mirar a las palomas comer el pan / Que la gente les tira”.
Enfim, pensei no Andrés e me lembrei dessas fotos que tirei de gaiato pra mostrar aos risos pros ainda não tão velhos camaradas em Porto Alegre. As duas fotos são curiosas. Sobre a primeira, prefiro não comentar. Se você não entendeu, deixa pra lá. E se for montagem? Na outra, em que caminho sobre as águas dos canais daquela cidade espetacular, sempre gracejei: depois de Jesus, fui o primeiro judeu a caminhar sobre as águas. Só estando louco pra cogitar uma tontería dessas.
E ando pensando no Andrés, um cara de quem me tornei muitíssimo fã quando morei em Buenos Aires, um ano depois daquela viagem minha e da Dione pela Europa. O Andrés, genialmente louco, compôs músicas absurdas, como “Flaca” e aquela que leva um dos títulos mais inteligentes que já vi, num trocadilho sensacional: “Alta suciedad”, nome também do disco que foi lançado com sucesso estrondoso na primavera argentina de 1997, justo quando eu morava lá.
Os números são reveladores. “Alta suciedad” é o segundo disco mais vendido do rock argentino, atrás apenas de “Amor después del amor”, de Fito Paez. Convenhamos que estar nessa posição, em meio a tantos gênios, é impressionante. E a revista “Rolling stone” o pôs como o décimo melhor disco do rock argentino. Ou seja, é absurdamente bom! Na sua elaboração, Andrés tocou com músicos que deram suporte a John Lennon, Paul McCartney, Keith Richards e Aretha Franklin.
Enfim, ouça essa obra prima e entenda porque há três décadas sou fã do cara (confere os meus vídeos).
Recentemente, postei nas minhas redes uns vídeos em que estou num show dele e, em meio a “Flaca”, eu grito “Puta que pariu, que troço bom!!!” E por que postei esses vídeos? Pelo mesmo motivo que escrevo agora sobre o Andrés. O genial músico argentino, que já vem demonstrando há anos um fastio com a esquerda dogmática deslocada da realidade num mundo paralelo, falou, com a sua notória coragem e linda independência, que os lunáticos defensores de aiatolás e terroristas são uns babacas, uns inocentes úteis, uns fracos de personalidade e caráter, uns idiotas levianos e irresponsáveis.
“Alta suciedad”, em português, é “alta sujeita” e serve de trocadilho crítico à alta sociedade. Andrés é um rebelde, um espírito livre, com linda autonomia de voo.
Andrés Calamaro defende expressamente Israel e o seu sagrado (nos sentidos literal e figurado) direito de existir e se defender. E esta coluna se soma àquela em que homenageei Boy George, outro valente, com seu discernimento, lucidez, bom senso, inteligência e altivez. Um louco maravilhoso como o Andrés sai por aí com o seu porrito vendo as pessoas jogarem pães pras pombas e caga pras migalhas do Mainstream, porque é um gênio, enxerga a vida real e despreza os delírios dogmáticos de um campo progressista que até é o meu, mas está tonto de cara e ainda não sacou nada do que está acontecendo no mundo.
Shabat shalom!