
Pela primeira vez na história, mais da metade da humanidade vive em cidades — e essa fatia só tende a aumentar. Segundo as Nações Unidas, até 2050 outras 2,5 bilhões de pessoas passarão a viver em áreas urbanas. Diante dessa pressão inédita, a pergunta central já não é apenas “onde vamos colocar tanta gente?”, mas algo bem mais relevante: que tipo de cidades estamos construindo?
As cidades do futuro precisam dar conta de três desafios ao mesmo tempo. Devem ser resilientes às mudanças climáticas, sustentáveis no seu funcionamento cotidiano e inteligentes no uso de energia e recursos. As decisões que tomamos agora — no desenho das ruas, na altura dos prédios e nos materiais escolhidos — vão definir se deixaremos como legado espaços agradáveis para viver ou apenas monumentos ao descaso ambiental.
É nesse cenário que os arranha-céus voltam ao centro da discussão — e, junto com eles, ao menos para mim, despertam uma certa nostalgia. Sempre tive fascínio por esses gigantes de concreto e aço. Quando criança, via neles o retrato do futuro: cidades verticais onde seria possível morar, trabalhar, fazer compras, se exercitar e passear por jardins suspensos sem sair do mesmo edifício. Uma utopia prática, eficiente, quase autônoma.
Mais recentemente, passei a acreditar que a construção de edifícios muito altos, desde que articulados com áreas verdes e espaços de lazer, poderia contribuir para cidades mais sustentáveis e para uma melhor qualidade de vida de seus habitantes.
Mas, à medida que a crise climática deixou de ser um alerta distante e virou realidade concreta, essa imagem começou a trincar — como o concreto de um prédio mal calculado. Aquilo que simbolizava progresso passou a ser visto, por muitos, como sinônimo de desperdício e excesso. A pergunta inevitável surgiu: o sonho da cidade vertical está condenado ou ainda pode fazer parte da solução?
A densidade ideal: nem espalhar, nem empilhar
Para responder a isso, é preciso entender o que torna uma cidade realmente eficiente. A densidade populacional é um fator-chave: cidades mais compactas reduzem deslocamentos longos, aproveitam melhor a infraestrutura e emitem menos carbono por pessoa. Mas há um detalhe crucial: compacta não é sinônimo de alta.
O jornalista e especialista em design sustentável Lloyd Alter chama isso de “densidade goldilocks” — termo em inglês utilizado para designar algo em equilíbrio — nem demais, nem de menos. A ideia é uma cidade densa o suficiente para sustentar comércio local e transporte público eficiente, mas não tão vertical a ponto de depender de estruturas gigantescas, garagens profundas e sistemas complexos que consomem energia sem parar.
As cidades que acertam esse equilíbrio são aquelas pensadas na escala humana: onde caminhar e pedalar fazem sentido, onde a vida acontece na rua e não apenas nos elevadores, e onde o convívio social não se perde entre torres disputando o céu.
A ciência reforça essa intuição com números claros. Um estudo do UCL Energy Institute, no Reino Unido, analisou mais de 600 edifícios comerciais e descobriu que escritórios com 20 andares ou mais consomem quase duas vezes e meia mais eletricidade por metro quadrado do que prédios de até seis andares. O uso de gás (para aquecimento) também aumenta significativamente. No final das contas, edifícios muito altos emitem mais que o dobro de carbono que seus equivalentes baixos — e isso considerando apenas a energia usada no dia a dia.
Outro estudo, ainda mais amplo, conduzido por Francesco Pomponi, da Edinburgh Napier University, simulou milhares de cenários urbanos reais. A conclusão foi direta: aumentar a altura dos edifícios pode elevar as emissões ao longo do ciclo de vida em até 154%. O mais surpreendente, porém, é que é possível aumentar a densidade sem aumentar a altura — e, ao fazer isso, as cidades ficam mais eficientes. Nas palavras do próprio pesquisador: “O mundo precisa de mais Parises e menos Manhattans.”
E Paris aqui não é apenas uma referência romântica. É um modelo urbano concreto. Com prédios majoritariamente entre seis e dez andares, bulevares bem distribuídos e espaços públicos vivos, a capital francesa aparece constantemente entre as cidades mais eficientes em termos de emissões por habitante [Nota 1]. Alta densidade, baixa altura: uma combinação simples e poderosa. No extremo oposto estão cidades que transformaram a altura em competição — como Balneário Camboriú, ou mesmo Manhattan, onde o horizonte virou vitrine de vaidade imobiliária.
O problema invisível dos arranha-céus
Mas por que construir muito alto sai tão caro para o planeta? A resposta vai além do que vemos da rua. Quanto mais alto o prédio, mais pesada precisa ser sua base. São toneladas de aço para enfrentar ventos mais fortes, enormes volumes de energia para bombear água dezenas ou centenas de metros acima do solo, áreas inteiras desperdiçadas com elevadores e sistemas técnicos.
Há ainda o chamado “iceberg urbano”: fundações profundas e extensas garagens subterrâneas que quase não aparecem nas imagens promocionais, mas pesam enormemente na conta de carbono. Estimativas mostram que até metade do concreto de uma torre pode estar enterrada abaixo do solo.
É a ironia da verticalização extrema: quanto mais o prédio sobe, mais ele afunda — ambiental e estruturalmente.
Quando a altura tenta se reinventar
Dito isso, seria um erro decretar o fim dos arranha-céus. O problema nunca foi apenas a altura, mas como, por que e para quem se constrói. Há cidades mostrando que é possível fazer diferente.
Singapura é o exemplo mais contundente. Com pouco espaço e nenhuma escolha a não ser crescer para cima, a cidade-estado transformou sua reurbanização em um laboratório de sustentabilidade. Certificações rigorosas e incentivos públicos deram origem a edifícios que integram a natureza de forma surpreendente. Hotéis que parecem florestas suspensas, torres com fazendas urbanas no topo e conjuntos habitacionais públicos com jardins verticais mostram que sustentabilidade não precisa ser luxo.
Essa vegetação não é apenas decorativa. Ela reduz o calor, melhora a qualidade do ar e diminui a necessidade de ar-condicionado. O Bosco Verticale, em Milão, mostrou que fachadas verdes podem reduzir drasticamente a temperatura das superfícies e o consumo de energia nos apartamentos.
Até Dubai, famosa por seus excessos arquitetônicos, começa a mudar. O Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo, recebeu recentemente certificação ambiental por melhorias reais na eficiência energética e na gestão de recursos. Não é perfeito — mas é um sinal de que até os gigantes estão sendo pressionados a evoluir.
No fim, tudo é escolha
Não existe resposta simples para o debate entre arranha-céus e sustentabilidade. Construir muito alto tende a ser mais caro para o planeta, mas espalhar a cidade sem controle também cobra seu preço em florestas destruídas e horas perdidas no trânsito.
A pergunta certa não é “alto ou baixo?”, mas “com qual propósito, para quem e com que compromisso real?” As ferramentas já existem. O que falta, muitas vezes, é coragem política e visão de longo prazo.
E a lição de Paris permanece atual: talvez as cidades mais inteligentes do futuro não sejam as que mais sobem, mas as que aprendem a crescer com equilíbrio — respeitando o clima, o território e, principalmente, as pessoas que nelas vivem hoje e amanhã.
Nota 1: O exemplo de “Paris”, conforme utilizado pelos pesquisadores, refere-se exclusivamente à municipalidade. Já a área metropolitana de Paris apresenta problemas semelhantes aos de outras grandes metrópoles mundiais.
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