
(em honra, empréstimo e epígrafe a Luigi Pirandello)
Parte 2 (continuação)
(Leia a Parte 1 aqui)
Breve resumo:
Retomamos aqui esta breve encenação. Os personagens Maximiliano [M], oficial reformado da Marinha Brasileira, com patente de Almirante de Esquadra, e Jaime [J], professor universitário, vinculado a instituição federal de ensino superior, no grau de professor-titular de um departamento vinculado às ciências humanas, partilham leitos, lado a lado, em Unidade de Cuidados Intensivos de um hospital de classe média alta de uma grande cidade brasileira. Na parte anterior desta encenação, estes personagens combinaram, para passar o tempo, confrontar opiniões e visões de mundo, o que os levou a sucessivos estranhamentos. Eventual culminância desses estranhamentos foi interrompida pela entrada da enfermeira, para os respectivos asseios.
A encenação prossegue.
ATO II – Distanciamento, estranhamento, perspectiva.
Começa outro dia na UTI, onde estão os personagens.
J: — Bom dia, Almirante. Está acordado? Está em forma?
M: Hummm… Médio…
J: Vamos retomar nosso jogo da cesta de valores de um e de outro? Agora vamos apimentar: passemos a princípios, comportamentos, regras e descartar, a jogar fora, combater, temas malditos, por aí. Tá nessa?
M: Meu humor não está dos melhores hoje… Já vi que o senhor é uma pessoa com quem até dá para conversar, mas acho que nossa conversa não tem futuro…
J: Ora, vamos até onde der… Talvez até morramos antes… (Risos) Talvez não ganhemos nada com isso, mas também não vejo o que mais possamos perder.
M: Então, vou começar logo chutando o pau da barraca: CORRUPÇÃO, LADROAGEM, USO ESCROTO DO DINHEIRO PÚBLICO.
J: Eita! Vou aderir! Estou nessa também.
M: Hum, sei…
J: Se controle, olhe a regra sagrada: nenhum dos dois ataca o outro! Sua vez de novo: outra coisa da qual se livrar…
M: COMUNISMO
J: FASCISMO
M: Peço esclarecimento: Comunismo e Fascismo não são a mesma coisa?
J: Não. E nem vamos resolver isso aqui; não temos tempo nem energia. Façamos assim: você troca em miúdos o que chama de “Comunismo”, associando no máximo três palavras-chave, e eu faço o mesmo com “Fascismo”. Bora?
M: Vocês professores, e seus cacoetes… “Palavras-chave”… (Ri e tosse) Mas pode ser. Lá vai: COMUNISMO: 1. Desrespeito à propriedade privada; 2. Banda voou moral, todo mundo come todo mundo; 3. Ódio aos ricos e à religião.
J: Eu agora: FASCISMO: 1. Endeusamento de líderes que viram mitos; 2. Autoritarismo dos mitos e de sua curriola; 3. Violência contra quem discorda.
(Silêncio)
J: Vamos prosseguir? Lá vou eu: NEGACIONISMO anticientífico.
M: CULTURA DO POLITICAMENTE CORRETO.
J: RACISMO.
M: Esclarecimento: você concorda haver diferenças entre raças? A história mostra o quanto os índios eram preguiçosos, os negros indisciplinados e chegados a uma safadeza. Não haveria diferenças em função da raça?
J: Pode haver diferenças entre raças, entre nacionalidades e culturas, mas estas diferenças são dinâmicas e devidas à sociedade, à cultura e à história, e não ao código genético. E, quaisquer que sejam essas diferenças, não dá pra falar de superioridade ou inferioridade de nenhuma raça sobre outra.
M: Entendi, mas não concordo completamente. Negros nasceram para os esportes de terra, brancos para a natação, pegando um exemplo olímpico… Algumas raças têm vocação para umas coisas, outras têm vocação para outras… Como no caso dos cachorros e dos cavalos…
J: O senhor se tornou almirante por vocação?
M: Talvez… Difícil dizer…
J: Pois é, então, no mínimo, vamos dar a esse assunto o benefício da dúvida… Sua vez de falar a próxima coisa a jogar no mar…
M: Eita… Acho que chegou nossa hora H…
J: Será?
M: Vou falar o que proponho jogar no mar: LULA e a PETRALHADA!
J: BOLSONARO e a patota de BOLSOMINIONS!
(Pausa. Silêncio)
M: Eu sabia que a gente ia terminar nisso. Botei os olhos no senhor e já sabia…
J: É, eu também achava que, mais cedo ou mais tarde, a gente ia chegar nesse ponto. O que fazemos agora? Na nossa situação, não dá nem pra um esmurrar o outro, ou dar um tiro, ou escangalhar o carro do outro, ou ir barbarizar nas redes sociais, ou cancelar um ao outro, ou mesmo sair fora. Não temos para onde ir. É ficar em silêncio ou continuar noutra conversa — mas qual? A gente podia também gastar um tempo um xingando o outro, mas não tenho ânimo.
M: Em outras ocasiões em que estive com gente de seu time, a fase seguinte foi mesmo o xingamento e o afastamento. Quando não, coisa pior.
J: Tenho de admitir que comigo foi parecido.
M: Petralha / Petista / Lulista sempre foram para mim sinônimos de filhos de uma puta.
J: Bolsominion / Bolsonarista idem. Além da suspeição de serem completos idiotas.
M: O que mudou aqui? A vizinhança da morte? Efeito da morfina?
J: Acho que essas coisas, sim, sem dúvida. Mas talvez nós dois tenhamos construído um lugar de conversa, apesar de TUDO.
(Pausa)
M: O que nos separa é a convicção de que o outro não somente é diferente, mas está ERRADO.
J: Isso mesmo. Pra mim, suas crenças são cheias de equívocos e inexatidões.
M: Penso o mesmo sobre as suas.
J: Lá fora, as pessoas estão não somente se estranhando, mas se odiando e se encaminhando para exterminar umas às outras. Nós, aqui nesse espaço, não chegamos à etapa do aniquilamento do outro — sabemos que não queremos isso. Mas por quê? Por que já estamos com o pé na cova? Por que o câncer traz a iminência da morte, e aí torna as pessoas solidárias, melhores?
M: Acho que é mais do que isso.
J: Vamos fazer outro exercício. Vamos tentar localizar pontos que nos UNEM e nos protegem da agressividade, do desprezo de um pelo outro. Cada um imagina um ponto possível de UNIÃO. O outro diz se o esforço valeu a pena e faz sua proposta. Quem começa?
Duas enfermeiras simpáticas entram com material de asseio, fecham as cortinas do leito de cada um e interrompem o diálogo.
J: Fique novo, zerado e melhor da cabeça, para continuarmos nessa nova etapa, Almirante!
M: Lhe desejo o mesmo, Professor!
Final da parte 2 – continua na próxima semana
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