
Há uma pergunta incômoda que precisa atravessar este texto do começo ao fim: o que significa ser o país que detém cerca de 12% da água doce superficial do planeta e, ao mesmo tempo, ter transformado a poluição dos próprios rios em paisagem cotidiana? Não é exagero retórico — é descrição. Quem observa os rios e canais de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou Porto Alegre encontra sempre a mesma cena: um sistema arterial que deveria irrigar a vida urbana e que, ao longo de cem anos de industrialização, foi reduzido à condição de drenagem de esgoto a céu aberto. A diferença é que, de tanto vê-la, muita gente já nem a percebe.
O quadro é vergonhoso. O relatório mais recente da Fundação SOS Mata Atlântica, no programa Observando os Rios, reúne mais de 1.200 análises realizadas por voluntários ao longo de 2025, em 14 estados do bioma onde vivem 70% da população brasileira e se concentram 80% do PIB nacional. O relatório apresenta um retrato alarmante.
A água dos rios da Mata Atlântica permanece presa à mediocridade, com uma minoria preocupante de pontos deslizando para a poluição severa. Quase 80% dos pontos foram classificados como de qualidade apenas regular; 15%, como ruim; pouco mais de 3%, como péssima. E aqui está o dado que merece manchete: nenhum ponto monitorado atingiu nível ótimo. Boa qualidade, apenas 3,1% — em queda em relação aos anos anteriores. E há um detalhe decisivo: “regular” não significa segura. Significa que a água pode ser tratada, mas é nociva à saúde de quem se banhar nela e danosa aos ecossistemas ribeirinhos.
A normalização da catástrofe
O que esses números mostram não é a fotografia de uma catástrofe espetacular. É algo pior: a fotografia da normalização da catástrofe. A poluição dos nossos rios deixou de ser notícia porque se tornou paisagem, incorporada há muito tempo ao cotidiano das cidades. E, quando uma tragédia ambiental deixa de assustar, passa a operar em modo silencioso, contínuo e estrutural. Estagnação aqui não é estabilidade — é falência sistêmica: o corpo hídrico chegou a um equilíbrio dinâmico de baixa qualidade, com capacidade limitada de autodepuração e com a pressão da poluição renovando a degradação tão rapidamente quanto as tentativas pontuais de recuperação acontecem. Um estado-limite, alcançado quando o Brasil tem o Marco Legal do Saneamento em vigor desde 2020 e quando o Sudeste recebe o maior investimento per capita em saneamento do país. Em outras palavras: gastamos mais, mas aceitamos conviver com pouco.
O paciente crônico e o rio invisível
Tomemos três casos para dimensionar o desafio. O Tietê, possivelmente o rio mais discutido da história ambiental brasileira, recebeu mais de R$ 22 bilhões investidos ao longo de três décadas do Projeto Tietê. O volume de esgoto tratado pela Sabesp saltou de 4 mil para 18 mil litros por segundo. No entanto, em 2025, 36,4% do leito monitorado segue com qualidade ruim ou péssima. As espumas brancas que voltaram a cobrir o rio em Salto neste ano são a metáfora visual da derrota: a poluição não foi removida — foi diluída, deslocada e absorvida pelo sedimento, retornando à superfície quando as condições mudam.
O Paraíba do Sul, frequentemente subestimado e, por isso mesmo, mais grave, abastece direta ou indiretamente cerca de 17,6 milhões de pessoas — incluindo a maior parte da Região Metropolitana do Rio, via Sistema Guandu. Todos os dias, cerca de 1 bilhão de litros de esgoto, em sua maioria sem tratamento, são lançados em sua bacia. Apenas 41% do esgoto coletado nos municípios recebe algum tratamento. O ponto monitorado em Itaocara piorou em 2025, passando de regular para ruim. Em qualquer cenário racional de planejamento hídrico, o Paraíba do Sul deveria ser a prioridade número um do Sudeste. Não é.
E há o Rio Doce, dez anos após o rompimento da barragem de Fundão. Pesquisas recentes da UFMG mostram metais pesados subindo pela cadeia alimentar — detectados em peixes, tartarugas marinhas e até em botos —, com larvas apresentando deformações cranianas e abdominais. O eufemismo técnico firmou-se: chama-se MLD (Material Ligado ao Desastre) um conjunto de poluentes cuja permanência na bacia do Rio Doce e nas áreas marinhas adjacentes é incerta, mas potencialmente muito longa. O rio, a floresta e o mar continuam doentes — e a doença está, agora, dentro dos corpos de plantas, animais e pessoas.
A poluição que ninguém vê
Há ainda uma camada do problema que quase não aparece nos noticiários. Os relatórios convencionais monitoram o que é monitorável com tecnologia clássica: oxigênio dissolvido, coliformes, fósforo. Mas existe uma família inteira de poluentes crescendo silenciosamente nos rios brasileiros — os contaminantes emergentes. A lista inclui poluentes orgânicos persistentes, hormônios, antibióticos, microplásticos, resíduos de medicamentos e até drogas ilícitas, como a cocaína. A CETESB monitora cerca de 500 dessas substâncias em águas paulistas, e pesquisas em parceria com a Unicamp já encontraram, em pontos da bacia do Tietê, concentrações equivalentes às de esgoto não tratado. Estações de tratamento brasileiras — mesmo as mais modernas — não foram concebidas para removê-las. O que entra no esgoto sai no rio. Estamos transformando os rios em repositórios de problemas sanitários que ainda nem aprendemos a nomear.
O clima como amplificador
Falar dos rios sem mencionar as mudanças climáticas seria omissão. O Sudeste concentrou 43% das ocorrências de eventos climáticos extremos no Brasil em 2025, com prejuízo econômico estimado em R$ 3,9 bilhões. Em abril, Angra dos Reis registrou 324 milímetros de chuva em 24 horas — mais de um terço do total esperado para o mês inteiro caindo em um único dia. Em 2024, foi no Sul; em 2022, na Serra Fluminense. Isso sem mencionar as tragédias no Rio Grande do Sul. O novo padrão climático é caracterizado por períodos mais curtos de chuvas muito mais intensas, intercalados com longos períodos de seca. Quando chove demais, os córregos canalizados transbordam e despejam, em poucas horas, picos de degradação que desfazem semanas de tratamento. Quando não chove, a redução das vazões concentra os poluentes residuais. Em ambos os cenários, a qualidade despenca. É a equação climática da poluição: mais variabilidade, mais extremos, menos resiliência.
Reaprender a olhar
Os números aqui não são, por si só, irreversíveis. O Tâmisa já esteve mais sujo do que o Tietê está hoje. O Reno foi declarado biologicamente morto nos anos 1970 e voltou a abrigar salmões. O Sena recebeu nadadores olímpicos em 2024. Recuperar grandes rios é caro, demorado e tecnicamente exigente — mas é possível, e há precedentes históricos em escala mundial. O que nunca se fez, em lugar nenhum, é recuperar um rio sem decisão política sustentada por décadas. Esse é o ingrediente que ainda nos falta.
Pesquisas urbanísticas estimam que São Paulo abriga entre 300 e 500 cursos d’água soterrados sob ruas e avenidas. Em Belo Horizonte, mais de um quarto da rede hídrica original permanece canalizada sob a malha viária. No Rio de Janeiro, o rio Carioca, que nomeia os nascidos na cidade, está inteiramente canalizado. E há centenas de outros escondidos sob o concreto e o asfalto.
Iniciativas como o coletivo Rios e Ruas mapeiam esses cursos d’água ocultos e propõem sua redescoberta — como já ocorre em muitas cidades do mundo. Aqui, porém, por enquanto, operam à margem do orçamento público. Cidades inteligentes do século XXI não enterram seus rios: os trazem de volta à superfície, recompõem seus cursos, os protegem com parques lineares e criam áreas inundáveis que, na maior parte do tempo, servem ao lazer.
Pense, por um instante, nos rios da cidade onde você mora. Você sabe os nomes deles? Sabe onde nascem? Sabe para onde vão? Se a resposta for não, é porque a maior parte deles está enterrada sob ruas e prédios. Não estamos perdendo nossos rios apenas porque os poluímos; estamos perdendo porque deixamos de conhecê-los. E não é possível defender o que não se reconhece.
Nota: Este texto deriva de uma participação no podcast Jabuticaba sem Caroço, da agência de notícias Sputnik Brasil. Agradeço ao jornalista e apresentador Rafael Costa pelo convite (na data desta publicação, o episódio do podcast ainda não tinha sido sido veiculado).
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