
Faz muito tempo que quero falar da beleza do erro, da humana beleza do erro.
Volta e meia, nas minhas reflexões em meio ao avassalador antissemitismo que enfrentamos nesta quadra da história, falo sobre algo que acho lindo: a Torá, propositalmente, tem todos os protagonistas imperfeitos. E isso é essencial na perspectiva de um monoteísmo radical, em que só no ideal divino está a perfeição, sem santos ou ídolos. Um grande amigo, o Ilton Gitz, comenta que o judaísmo é lindo, mas que o judeu não necessariamente o é, justamente porque a imperfeição está na essência da condição humana, e isso é imperfeitamente perfeito, porque assim é a vida.
Outra obsessão minha: os Beatles. Li certa vez que os Beatles, nas suas composições absurdamente fantásticas, muitas vezes partiram de uma distorção. Os gênios incontornáveis da história humana viam beleza naquilo e criavam em cima, fazendo os mais lindos clássicos que já ouvimos. Quantas vezes não vemos beleza no traço exótico do rosto de um homem ou uma mulher? Como é bom comer chocolate doce com o mate amargo, que delícia uma mousse de limão com leite condensado.
Assim é a vida. Quando escrevi o meu primeiro livro e deparei com meu primeiro errinho na obra já publicada, entrei em modo desespero apesar de ser algo que em nada prejudicava a obra, por ser uma tolice periférica na narrativa. Então veio o Celso Gutfreind e me disse: “Oba, ficou melhor agora que vi humanidade no texto”. O professor e editor Paulo Ledur comentou que é capaz de pegar um livro de Camões e encontrar erros gramaticais. O Carlos André Moreira, então crítico literário de Zero Hora, recomendou ver eventuais erros como “licenças poéticas”.
Porque, imagine, um livro de quase 200 páginas, com centenas de informações conseguidas a partir de cansativas apurações em variadas fontes, é um lugar onde o erro, em especial por distração humana do autor, se faz presente de forma natural e compreensiva. Aprendi a ler sem o azedume da crítica lacradora, como se diz hoje. Entendi que a nossa longa e sinuosa estrada tem suas curvas, suas retas, seus declives, seus aclives, que são uma representação da própria vida.
Faço essa digressão pra corroborar o dito acima com a história de um erro que levou a algo grandioso: nada mais, nada menos que ao maior prêmio da humanidade, o galardão que inspira e conduz as pessoas a darem o seu melhor, o Prêmio Nobel. Você deve saber que o Nobel é cria do filântropo Alfred Nobel. Talvez até saiba que, num aparente paradoxo, foi ele quem inventou a dinamite. Mas provavelmente não saiba que o consagrado prêmio se origina de uma desconcertante fake news, uma situação que ele viveu e ressignificou.
Em 1888, morreu Ludvig, o irmão de Alfred, que, evidentemente, levava o mesmo sobrenome: Nobel. E me detenho aqui no número 1, de único, e nos três 8, que é o da perfeição, e, por isso, o seu desenho deitado representa o infinito. Mas morreu Ludvig, naquele ano. E um jornal francês leu “Nobel” sem prestar atenção que antes vinha o “Ludvig”, e elaborou um destacado obituário sob o título “O ‘mercador da morte’ está morto”. O “mercador da morte”, no caso, seria Alfred, o inventor da dinamite, que, por uma dessas ironias que a vida também nos traz, era um pacifista cujo propósito era colaborar com a engenharia, abrindo estradas e túneis, e não com a guerra, que o contrariava e até deprimia. Logo, o epíteto era injusto.
Mas o fato é que Alfred Nobel leu seu próprio obituário, imagine você (teve a perturbadora sensação de saber o que falariam dele depois de morrer). E viu sua vida reduzida a interesses mesquinhos de faturar em cima da guerra e da morte, algo que estava muito longe de condizer com a sua índole. Alfred ficou consternado ao ver a forma como seria lembrado na posteridade. Foi então que mudou seu testamento. Utilizou sua fortuna, a maior parte dela angariada em razão da dinamite (ele teve várias outras invenções patenteadas), para premiar o mérito e a bondade.
No testamento elaborado em 1895, ele criou o maior galardão da humanidade, provocando a cobiça pela conduta edificante. O reconhecimento vai da ciência à paz, passando pela economia, e hoje você recorda o nome dele pelo prêmio que criou, e não pela dinamite que ele tanto queria ver utilizada em obras de engenharia, e não para provocar a morte. Ou seja, um erro, uma imperfeição, a fake news de um jornal francês resultou na mudança de uma imagem e em algo benéfico.
Como sou um sujeito bem resolvido com as minhas qualidades e defeitos, vocações e dificuldades, como sempre reconheci a minha humana imperfeição e também as habilidades e méritos neste mundo de tantas e tão lindas diferenças, faz tempo que penso em escrever sobre os meus erros e as minhas falhas em meio a inteligências e desinteligências artificiais e desumanas. Achei aqui a melhor forma de fazer isso. Contei a história do cara que soube, enquanto havia tempo, nos dar o seu melhor.
Curta a vida e reconheça as suas imperfeições, até porque elas fazem parte da sua condição humana, esse “atroz encanto”, expressão que roubo na cara dura do autor argentino Marcos Aguinis. E a máquina insípida jamais alcançará a beleza da nossa simples complexidade, uma característica tão poderosa e linda, que me permite terminar este texto com uma contradição, simplesmente isso, e também complexamente isso, porque somos o erro, o acerto, a beleza e a feiúra.
E isso é imperfeitamente lindo e perfeito.
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Edith Eger, a Bailarina de Auschwitz
Passou despercebida a morte de uma mulher enorme no dia 27 de abril: Edith Eva Eger, a “Bailarina de Auschwitz”. Dona Edith, que completaria 99 anos no próximo 29 de setembro, tornou-se uma importantíssima psicóloga nos EUA depois de ter sido bailarina na juventude, na Hungria, onde nasceu. Viveu os horrores do Holocausto, viu a própria mãe caminhando para a câmara de gás, sobreviveu desempenhando sua arte como ferramenta pela vida ao se apresentar para nazistas como o sádico médico Josef Mengele e teve uma existência, na diáspora em San Diego (EUA), marcada pela formação em psicologia já na maturidade e pela atuação incansável como especialista em tratar os traumas alheios a partir dos próprios. Seguidora do psicanalista também judeu e sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl (célebre criador da Logoterapia), sua máxima era de que a vida sempre faz sentido. Já idosa, escreveu o livro The Choice, cujo título, em português, é “A Bailarina de Auschwitz” (e em espanhol, na mesma linha, “La Bailarina de Auschwitz”). Tive esse livro na cabeceira da minha cama por muitos anos, um presente da minha mãe. Ficava ali, naquela angustiante e desafiadora pilha, até que tive a atitude de abri-lo e conhecer a história de muita vida dessa mulher absurdamente fantástica.
Shabat shalom!
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