
Depois de mais de dez anos de pesquisas para design de cadernos e cadernetas autorais, Bento de Abreu apresenta uma nova coleção dedicada a Porto Alegre com a série chamada Sketchbooks POA RS. O lançamento foi no dia 20 de junho, à tarde, no Café Fermata 29 (Rua Santa Terezinha, 29/Bairro Farroupilha). O diferencial da pesquisa visual gráfica realizada por Bento agora está no tratamento não naturalista que deu às imagens. Mesmo lidando com ícones da nossa arquitetura histórica e de monumentos tradicionais da capital, alterou cores do céu por uma variada paleta cromática e assim ofereceu uma nova mirada a lugares já conhecidos.
A imagem da cidade se reconfigurou neste jogo de combinações e contrastes, criando novos estímulos para o olhar. Mais do que objetos, a série traz possibilidades de registro, encontros, afetos, pequenos gestos cotidianos que resistem ao tempo acelerado das telas. A coleção também resgata e agrega uma peça gráfica quase em desuso em função da comunicação digital. É o cartão postal, hoje quase esquecido, que eu, particularmente, muito usei para me comunicar com amigos. As mesmas imagens das capas das cadernetas também estão no tradicional formato 10 cm x 15 cm, possibilitando outros modos de interação com este breve exercício visual sobre Porto Alegre.
Para o arquiteto e designer Gabriel Gallina, o olhar de Bento é generoso ao “reinterpretar o patrimônio sem romantizá-lo, sem musealizá-lo, mas também sem abandoná-lo à invisibilidade do cotidiano. Cada capa propõe uma releitura: o edifício continua lá, intacto, mas a presença dele muda. Passa a ser vista de outro modo, com outro peso, outra cor, outro tempo. É quase um convite, feito com gentileza, para que a cidade seja experimentada de novo por quem já não a enxerga. É um tipo de atenção que a cidade pede de quem anda a pé”.
Ao usar o design gráfico e as cores, Bento intensificou a arquitetura para justificar suas escolhas. O conjunto lembra cartões-postais. As capas diversas propõem releituras da nossa paisagem urbana. Além de trazer uma memória afetiva e instigante da capital, estimulam novos olhares para a cúpula da Catedral Metropolitana, recortada contra o céu, a Ponte dos Açorianos, a fachada da Biblioteca Pública com seus ornamentos e os corredores da Casa de Cultura Mario Quintana. É o passado em sintonia com o presente. A partir do olhar sensível do artista.
É o patrimônio aberto com cuidado para interpretações sem limites.
Nesta trajetória de criações, Bento já experimentou várias técnicas, como colagem e interferências pictóricas numa abordagem artesanal dos cadernos, além de explorar a fotografia com ângulos fechados, criando composições singulares ou em fragmentos da manifestação gráfica urbana, como na coleção que chamou de “MIRADA”. Já outra coleção que desenvolveu, a “Bananeira, sei lá”, baseada na exuberante natureza do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, foi selecionada entre os projetos da Bienal Brasileira de Design Gráfico em 2017. E, entre 2017 e 2018, Bento fez uma produção exclusiva para comercializar em lojas de museus do Rio de Janeiro, como o MAM/Museu de Arte Moderna e o MAR/Museu de Arte do Rio, bem como para a loja do Jardim Botânico da capital carioca.
Só posso desejar que Bento de Abreu não abandone este olhar instigante sobre as nossas lindas paisagens urbanas nas suas criações!
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