
Dia desses, soube que uma colega estava um tanto embaraçada para me perguntar se eu já havia findado a minha licença. E sim, já havia, mas não é o que importa para o que gostaria de comentar. O curioso é que o avexamento moveu em mim uma sensação muito boa, quase terna. É esquisito, mas foi bom ter notícias dessa vergonha. Foi quase uma novidade.
Nos dias atuais, é como se fôssemos todos tão sem vergonha, tão desinibidas e empoderades. Então, se sente bem rara e positiva a notícia de uma vergonha ou constrangimento. Dá quase vontade de comemorar. É evidente que não ignoro o terror das inibições nossas de cada dia e como elas podem ser vividas nas formas das angústias mais dilacerantes. No entanto, no nível das performances, quer dizer, das aparências, fica o teatro da potência de todos, como no dizer de Fernando Pessoa: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” [1]
Uma vergonha que te faz pausar, duvidar por um minuto que seja; às vezes é tudo o que necessitamos para seguir merecendo o título de humanos. No nosso delírio do cada um por si, tantas vezes os constrangimentos necessários para empatizar são solapados por essa voz do coach empreendedor de si mesmo que simplesmente grita e empurra. É uma faceta do superego. A receita é simples: cada um por si e todos em detrimento de todos. Ultimamente, eu, ego e si mesmo se colocam como agentes da necessidade de passar vergonha sem senti-la. Dá resultados interessantes às vezes. Não nego. O problema, como sempre, está na exacerbação, no vale-tudo.
É por causa desse vale-tudo que a cara nem trinca no caso desses garotos e garotas propaganda das bets. Está extremamente naturalizado que o dinheiro é o regente único e indispensável desse modo de viver. De modo que as consequências para o outro lado, quais sejam, endividamento, adoecimento e pobreza, não dizem nada. Não provocam nenhuma espécie de freio nessa gente mesquinha. Exceções? Claro que existem, mas esse é um caso de saúde pública em que precisamos de regras e não de exceções.
Eu queria ser uma pessoa mais consequente para simplesmente não assistir nada dessa Copa do Mundo, mas agora já me envolvi. Me dá vergonha por causa das bets. Nem todo atleta me cativa e estou zero ansiedade pelo hexa, mas, ao ver as seleções africanas – em recorde de número nessa Copa –, não posso não me emocionar. Certamente, esse aumento de vagas não é gratuito; antevejo um possível aumento de mercado… das bets. Mbappé já se posicionou contra. Sim, é melhor contabilizar as exceções. Até porque, Ney todo atleta tem essa grandeza.
Nota:
[1] Pessoa, Fernando. Poema em Linha Reta, in: Pessoa, Fernando Antonio Nogueira; Cassal, Sueli Tomazini (Org.). Poesias. Porto Alegre: L&PM, 1996.
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