
Domingo, passeando com uma amiga no Brique da Redenção, feira de antiguidades e “quinquilharias” tradicional do Parque Farroupilha em Porto Alegre, encontramos em uma das bancas uma série de bonecas antigas, entre os anos 60 e 80. Lembrei-me de uma que ganhei por volta dos meus sete anos, a “Mãezinha”, que tinha a especial habilidade de ninar o bebê que trazia nos braços. Na época, eu não achei aquilo muito interessante; foquei mais no cabelo comprido, que cortei com a finalidade de descobrir se ele cresceria. Não foi o caso, claro.
A mãe que sou
Por essas e por outras, imagino que minha avó, quando minhas filhas já estavam com quatro e oito anos, me revelou que se surpreendeu com o meu desempenho como mãe, com o quanto eu era dedicada, presente, disciplinadora, mas amorosa, e estava conseguindo educar meninas tão maravilhosas. Fico me perguntando até hoje com que régua minha avó media isso, mas isso é conversa pra outro dia.
Sei hoje que fiz muitas besteiras, inclusive apontadas pelas próprias filhas, já crescidas em seus 29 e 25 anos. Mas com a consciência tranquila de que, nessa trajetória de mãe, estava fazendo o meu melhor com as ferramentas que tinha.
Em algum lugar li que mãe é verbo, e concordo. No cotidiano, a gente busca na escola, leva nas atividades extraclasses, compra os presentes para os amiguinhos, verifica o lanche e se está comendo, faz a comida, limpa a roupa, arruma o quarto (ou manda arrumar), checa os amigos, conhece os pais dos amigos, orienta, dá colo em momentos de choro porque torceu o pé ou perdeu o namorado, torce e acende vela e reza em dia de prova, de jogo, de gincana, de vestibular, de concurso…
E o nosso papel vai se transformando de acordo com a fase de vida dos nossos filhos, e daí a gente vai percebendo (os filhos dificilmente nos dirão, mas haverá sinais) que estará na hora de dar cada vez mais espaço para eles irem tomando rédeas para suas vidas e a gente ser mais porto, quando e se quiserem, e menos gaiola, onde possam se sentir protegidos, mas presos por nós.
Na época não percebi; hoje enxergo uma mãe sobrecarregada, sentindo que precisava fazer mil coisas ao mesmo tempo e se percebendo insuficiente para elas. Em diferentes proporções, isso me custou carreira, dinheiro e saúde. Aqui você pode me perguntar: cadê o pai dessas crianças? Te pedirei que dê um Google nos números sobre equidade entre homens e mulheres. Esse é outro assunto pra outro dia.
Desejo, profundamente, que minhas filhas tenham aprendido comigo sobre o que não fazer e, tomara, alguma coisa sobre o que fazer bem feito como mãe.
De minha mãe, de início carregava uma consciência confusa e enviesada do que tinha dela. Quando me dei conta, era eu com raiva porque enxergava nela características que não gostava em mim. Levou um tempo até as coisas se equalizarem e eu conseguir separar o que era meu e o que era dela, as coisas que queria preservar e as que desejava largar.
A mãe que deixei de ser
Com o envelhecimento e adoecimento da mãe, foi tomando um sentimento de que precisaria tomar conta das coisas dela. Fomos descobrindo vários problemas de saúde que, com o passar do tempo, foram restringindo seus movimentos e deixando-a cada vez mais dependente. Já era uma época em que eu detinha conhecimento sobre longevidade e envelhecimento, sabia a importância de preservar sua autonomia e tentava incentivá-la, mas a sensação era a de que eu precisava ser a mãe da mãe. Esse parecia ser o certo.
Por isso entendo filhos que agem como pais de seus pais. Especialmente as filhas, sobrinhas e noras, que são a grande maioria das cuidadoras familiares não remuneradas das pessoas idosas no Brasil. Não é fácil separar.
Como evitar chegar na casa dos pais e não querer bisbilhotar e checar se estão comendo os alimentos “que podem”? Até onde vai o cuidado com os remédios, para saber se estão esquecendo ou tomando em duplicidade, e a intromissão e desconfiança?
Cair a ficha e entender que, diferente dos filhos, com quem utilizamos nossa autoridade de “mando”, com nossos pais não dá pra dar ordens, pois são pessoas adultas e é necessário compreender que são capazes de tomar suas decisões, mesmo que opostas às nossas. Podemos trabalhar para convencê-los. Se não der, acatar suas decisões. Agir com eles como vamos querer que ajam conosco quando a gente tiver a idade deles, certo?
Muitas vezes tive dificuldades de respeitar as decisões da minha mãe, que contrariavam as da equipe de médicos e as minhas e, inclusive, prejudicavam seu estado de saúde. Mas, infelizmente, eram o exercício da sua autonomia. Exemplo? Ela tinha esteatose (gordura no fígado), mas não retirava da sua dieta pratos que deveriam ser deletados, como feijoada, linguiça, galeto (incluindo as peles, claro). Para o câncer da tireoide, certa vez a equipe médica indicou 10 sessões de radioterapia; ela teimou até concordarem em fazer uma sessão com uma “carga” equivalente a dez, mesmo que o resultado fosse menor, porque entendeu que não aguentaria a dor e sofrimento por causa da claustrofobia, mesmo que o aparelho fosse em campo aberto. Dá pra aguentar? Teve que dar.
Foi necessário compreender que eu, filha, tinha um limite de atuação. A partir daquele limite, minha mãe tinha autonomia para decidir, para o seu bem e/ou para o seu mal, sua vida. De novo, muita terapia, muito choro e lágrimas. Aprendi que não era mãe da minha mãe e a agir de forma diferente frente a essas situações. O que não eliminou a dor e algumas discussões, diga-se de passagem. Mas aí é outra história.
A outra mãe que não quero ser
A gente é educada a “cuidar” dos nossos amores. E esse cuidado, quando a gente olha de perto, é muito parecido com aquele com o qual nós, mulheres, dedicamos aos nossos filhos e pais. Um cuidado de mãe.
No cotidiano, a gente lembra as datas importantes, verifica a lista de compras, faz a comida, compra os presentes de amigos e parentes, organiza a roupa, arruma o quarto (ou manda arrumar), organiza a vida social com os amigos e a família, compra as roupas dele, dá colo em momentos de tristeza, dá remédio nas horas de doença, mantém a casa tranquila para que ele se mantenha feliz, torce e acende vela e reza em dia de prova, de jogo, de concurso… Isso te lembra alguma coisa?
Demorei para perceber que estava sendo mãe dele. Achava que tudo era amor, fantasiava que era cuidado. Assim, quando me perguntava qual o número da camisa e da calça que usava, porque dizia não saber, eu, orgulhosa, respondia. Quando viajava, eu preparava a mala, dobrando camisas, meias, calças e cuecas; imaginava cuidado. Quando, na mesa da família, servia seu prato, pensava em amor Tudo isso, sem jamais chamá-lo de pai ou ele jamais me chamar de mãe, porque, dizíamos, isso seria impensável! Até que me dei conta da hipocrisia.
Uma cilada perigosa na qual a gente se coloca, já que esse papel – como bem sabemos – em 99% dos casos é assimétrico. E, se já não fosse ruim o bastante, cria uma dependência nociva entre os pares e há o risco de assexualizar o casal.
Mas esse é um papel onde facilmente mulheres se colocam, pois, como eu na infância, somos educadas a cuidar de bonecas, crianças e da casa e, mesmo que atrapalhadas – como eu fui —, somos tão bem treinadas que acabamos nos tornando boas mães de quem passa pelo nosso caminho.
Às vezes, somos colocadas no papel de mães de irmãos mais novos como um treinamento compulsório ou sem opção, no caso de mães de baixa renda que não têm com quem deixar seus filhos para trabalhar, por exemplo.
Talvez aqui a gente possa incluir outros tipos de relação onde também nos comportamos como mãe. Amizades, por exemplo, é uma que me ocorre agora. Lembra de mais algum?
Eu não sei você. Depois que a gente se vê fazendo esses diversos papéis invisibilizados de mãe, não consegue mais desver. Assim foi comigo. Aos poucos nos pede mudança. Tudo ao seu tempo.
Por um lado, desafio, da desacomodação com o que se deixa de fazer e dos benefícios que se perde e se ganha. Fica um espaço que precisa ser preenchido e reorganizado. O espaço do crescimento, de quem fez as descobertas e procura novos caminhos, das novas relações, que pode ou não ocorrer.
Por outro, inaugura-se uma nova fase, com consciência para quem quer ser mãe. Sem sobrecarga de trabalho. Alívio. Liberdade.
Feliz Dia das Mães!
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