
No exato momento em que D. disse: “Cuidado com a vala”, bati com a cabeça em um galho, balancei para trás, para frente e, quase em câmera lenta, me estatelei no chão ainda molhado pelos pingos da chuva que havia caído. Cotovelos, joelhos e o lado direito de meu rosto ficaram embarrados. Meu lindo vestido, sou uma mulher que os prefere a calças, não sofreu nenhum ferimento. Tampouco essa criatura estabanada, mas não muito, que vos escreve. Pequenos esfolados, não considero relevantes. Em uma semana, dentro da linha de pensamento do meu Paulo Leminski favorito: “Apagar-me/diluir-me/desmanchar-me/até que depois de mim/de nós/de tudo/não reste mais/que o charme”, não restavam vestígios de nada, exceto do riso.
Sou uma pessoa que ri. Quando eu era menina, havia uma boneca que ria. Guigui, se não estou enganada, era seu nome. Minha irmã mais velha e eu tínhamos uma, a do meio acho que não, ela não era muito bonequeira, e havia também uma música que todas as mulheres que cuidavam de mim cantavam: “Lili é uma boneca que canta, que chora e que ri, está ficando sapeca como eu nunca vi”. Ou quase isso. Talvez a letra esteja errada, não por esquecimento, porque sempre foi a minha cara recantar, reescrever letras, fato que divertia minha mãe e muito à Tere, a pessoa a quem mais devo a minha educação afetiva, eu ia escrever sentimental, como no livro do Gustave Flaubert, mas são coisas um pouco diferentes.
O riso, a risada genuína faz parte do afeto. É uma demonstração de sua presença. A gente sempre ri mais e melhor com quem estimamos e nos sentimos seguros. E ele é também uma prova de que, assim como há vida inteligente, existe senso de humor no planeta, traço de personalidade que me encanta nos que o têm e que entendo como uma virtude apaixonante e essencial para se enfrentar qualquer tipo de problema, incluindo os difíceis. O riso revela parte significativa do caráter de uma pessoa. Fiódor Dostoiévski, no romance O Adolescente, disse: “Conhecemos um homem pelo seu riso; se na primeira vez que o encontramos ele ri de maneira agradável, o íntimo é excelente”.
Não é fácil se ter um íntimo excelente. É bem provável que ele esteja ligado à criança que cada um foi e que, com maior ou menor zelo, carrega. O riso expõe a criança escondida no adulto, funciona como um regulador de vaidade e do narcisismo, combatendo os excessos daqueles que levam, como se diz aqui no Sul, tudo à ponta de faca e se perderam da noção de que tropeçar é humano. Nada mais bacana que ser humano e estar pronto para despencar da própria altura, sabendo que será possível levantar-se, sacudir a poeira e dar a volta por cima.
A volta por cima começa lá embaixo. Quem ri primeiro, ao contrário do que dizem, ri melhor. É no fundo do poço que está o fundo do posso. Posso, logo existo. Anota aí.
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