
Para Alessandra De Lazzari, que também sabe do que eu estou falando
Nos sessenta mais, mas pode começar no quarenta, tem o tal fenômeno da bola de neve dos perrengues. Nem me refiro aos exames laboratoriais, onde já não há mais aprovação completa de nada, pois tem sempre algo fora da curva normal a ser checado em novos exames e aferições.
Refiro-me a tal bola de neve antes dos exames complementares, em consultas médicas mesmo. Vamos de exemplo, que facilita algo que é tão difícil de explicar. Digamos – ou pisemos – que o pé dói, e o ortopedista, atento ao exercício integrado do seu ofício, resolve ser holístico. Para ele, então, um único pé faz parte do corpo completo, sendo tão somente o final de uma engrenagem que começa na coluna.
O holístico prescreve uma fisioterapia (literalmente es-pe-cí-fi-ca), sem prescindir de uma checagem apurada entre cervical e lombar, o que deverá ser feito com outro profissional, no caso um especialista em colunas. O resultado é, depois de nova bateria bola de neve de exames, a prescrição de outra fisioterapia para a coluna inteira, acrescida da recomendação de uma musculação, em frequência não menor do que três vezes na semana.
Mas o doutor da coluna também é holístico e capta a existência de algo que só um cardiologista poderia avaliar. Com duas fisioterapias e uma musculação já devidamente prescritas, mais uma série que leva a outra série que leva a outra série de novos exames complementares (sem aprovação total de nada), o cardiologista igualmente holístico prescreve exercícios aeróbicos, cinco vezes por semana.
O contrassenso é que nenhum dos profissionais consultados se oferece para ganhar a vida pelo paciente e, somando todas as prescrições que fizeram, sobraria pouco tempo para o sujeito trabalhar. A vida, portanto, está meio perdida, mas uma das fisioterapeutas tem a expertise da logística e propõe um plano de junções das atividades diversas, no qual sobrariam cinco turnos inteiros destinados ao trabalho, sendo que um desses dias avançaria noite adentro e poderia ser um bom remédio para a insônia de sempre.
Pensando bem, o mais apropriado para um sessenta mais, mas pode valer para o quarenta, seria evitar o primeiro exame e a primeira consulta, mas estou pensando seriamente em retirar essa frase, pois eu também sou médico e posso ser processado por falatório ilegal da profissão.
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