
Fui convidado esses tempos pelo Rafael Bassi, editor da Casa de Astérion, editora que republicou meu romance Tudo o que Fizemos, a redigir um capítulo sobre Macunaíma para a nova edição da obra Leituras Obrigatórias do Vestibular da UFRGS, a ser lançada este ano, contemplando a nova lista divulgada pela universidade. Há algumas semanas, enquanto tomávamos um café no Bom Fim, eu disse a ele que pensava em incluir na parte dos “pontos de destaque” sobre o livro a história da moeda no cinema. “Que moeda no cinema?”, me perguntou o Bassi, interessado, e aí, para grande infelicidade dele, eu respondi.
“Um homem entra em um cinema vazio. Escolhe uma cadeira a esmo e não percebe que há na poltrona em que se acomodou uma moeda de um real, provavelmente caída do bolso de algum frequentador anterior. O homem assiste à projeção por uma hora e meia e, ao fim da exibição, levanta-se e vai embora. A moeda sobre a qual ele estava sentado sem perceber permanece no assento. Qual o nome do filme?”
Bassi, intrigado e um pouco perplexo, disse que não sabia, minha deixa para o arremate da piada:
“Meu cu n’é ímã!”
Acostumado com meu humor abobado, Bassi disfarçou bem a expressão de dor, e aí, claro, eu admiti que o objetivo daquilo tudo era a própria piada, e que ele poderia ficar tranquilo que eu não incluiria aquela bobagem no meu texto para o livro.
Mas sabe o que é mais surpreendente? É que, se eu incluísse a piada no livro, não estaria de modo algum traindo o espírito que anima Macunaíma.
Diversão de férias
Certa vez, não me lembro onde, li uma frase que ficou comigo: “a admiração pode ser uma forma de vilipêndio”. Era em um texto sobre o Mário Quintana, comentando o quanto a imagem reiterada de “bom velhinho” e de “vozinho benfazejo” que pespegou em Quintana em seus últimos anos havia, a seu modo, contaminado a recepção da sua obra – isso, mais o fato de que seu trabalho era incomumente popular, fazia não só o público como a crítica o reduzir a um frasista lírico, autor de poemas sentimentais sem ousadias formais, o que não era totalmente verdade.
Penso que um processo semelhante, mas com sinais trocados, pode ter ocorrido com Macunaíma, uma obra que se tornou muito maior do que ela própria, a ponto de hoje representar essa espécie de marco solene no horizonte do Modernismo, obscurecendo muito do caráter galhofeiro que também faz parte do livro e era uma peça importante de sua compreensão – segundo o próprio autor.
Em um dos grandes estudos sobre a obra, O tupi e o alaúde: uma interpretação de Macunaíma, Gilda de Melo e Souza comenta que, de início, nem mesmo o próprio Mário de Andrade pensava no livro como o monumento definitivo do Modernismo – já Oswald de Andrade via a obra dessa forma, opinião que continuou afirmando mesmo após o áspero rompimento entre os dois amigos a partir de 1929. Segundo conta a pesquisadora, que, mais do que uma estudiosa da obra de Mário, era prima em segundo grau do autor, a quem identificou como um de seus primeiros mestres intelectuais, Mario escreveu a base do livro “em seis dias de trabalho ininterrupto, durante umas férias de fim de ano, em dezembro de 1926”, e o corrigiu e incluiu novos episódios ao longo de 1927 – o livro foi publicado em 1928.
Mario ele próprio não via Macunaíma, ao menos no início, como o ápice de seu trabalho, e o qualificava, conta Gilda, como “um jeito pensativo e gozado de descansar umas férias”. À medida que a obra ia sendo lida e ressignificada, Mario foi aceitando a ideia de que, sim, com este livro feito às pressas como uma febre, colagem furiosa e carnavalesca entre o erudito e o popular, havia tocado em alguma coisa preciosa – ou, como Gilda descreve: “aos poucos, foi obrigado a aceitar que de fato semeara o texto com uma infinidade de intenções, referências figuradas, símbolos e que tudo isso definia os elementos de uma psicologia própria, de uma cultura nacional e de uma filosofia que oscilava entre o ‘otimismo ao excesso e pessimismo ao excesso’, entre a confiança na Providência e a energia do projeto”.
Reputação
Ou seja, Macunaíma, ao longo dos últimos cem anos, ganhou a reputação de uma obra maiúscula, síntese do Brasil, combinação única entre o erudito e o popular, incorporando contos folclóricos, lendas indígenas, episódios da cultura clássica – como comenta Leyla Perrone-Moisés em um artigo sobre o livro coletado em seu livro Vira e Mexe, Nacionalismo, ao revisar parte da fortuna crítica da obra: “Cavalcanti Proença vê semelhança da obra com a epopeia medieval, e Gilda de Mello e Souza, com o romance de cavalaria. Alfredo Bosi qualifica-a como ‘meio epopeia, meio novela picaresca'”.
No mesmo artigo, Perrone-Moisés é enfática em apontar que, se uma palavra pudesse resumir o livro do início ao fim em termos de estrutura, composição e linguagem, seria “mistura”. O gênero a que o livro pertence é sempre descrito como misto, característica, aliás, fundamental de muitas obras vinculadas ao Modernismo, e muitos comparativos foram feitos ao longo do tempo: com a sátira menipeia, com o conto maravilhoso medieval, com o romance picaresco europeu, todas formas presentes no livro, mas nenhuma delas plenamente ajustada. Também a composição e a linguagem, lembra Leyla Perrone-Moisés, são resultado de uma mistura de elementos de diversas procedências, mas não como um amálgama coeso, e mais como uma parede construída com tijolos de diversos formatos, tamanhos e materiais: “Em todos os níveis, Macunaíma é uma obra mista. Em todos os níveis, Macunaíma é justaposição em processo, agenciamento sempre provisório de elementos díspares, o que impede qualquer positivação das linguagens e dos sentidos e, portanto, qualquer leitura referencial e unívoca.
Macunaíma se tornou, em suma, “um grande e fundamental romance da literatura nacional”. E essa categoria de inescapável solenidade, a uma distância de um século ao longo do qual o livro já foi analisado e repensado por uma vasta fortuna crítica, parece às vezes obnubilar o fato de que Macunaíma também é, ao mesmo tempo, uma comédia desbragada e uma sátira feroz. Talvez pela personalidade reservada de Mario – principalmente se tomada em contraponto com o vulcão expansivo que era Oswald – pensa-se muito em sua obra como uma composição de rigor intelectual, o que automaticamente coloca em segundo plano os elementos mais “bagaceiros” que fazem parte de Macunaíma em pé de igualdade com todo o resto: piadas de quinta série, trocadilhos e passagens consideradas até mesmo obscenas em seu tempo. Não que isso não tenha sido também exaustivamente tratado na longa fortuna crítica, apenas parece ganhar menos atenção do que o caráter sumarizante da obra, sua importância para o Modernismo, sua colagem indeterminada de referências. Quem lê os principais textos sobre a obra jamais imaginaria, por exemplo, que, assim como a tirada infeliz do início desta coluna, Macunaíma também está cheio de piadas do que se poderia qualificar, de modo mais burguês, como de “gosto duvidoso”.
Referências e piadas velhas
Uma obra de fundamental importância para a composição de Macunaíma foram os relatos de viagem do etnógrafo alemão Theodor Koch-Grünberg, documentando a expedição empreendida pelo pesquisador à região Norte do Brasil e à Venezuela, entre 1911 e 1913. O livro tem edição no Brasil pela Unesp com o nome de Do Roraima ao Orinoco, dividido em três volumes: Descrição da Viagem; Mitos e lendas dos índios Taulipang e Arekuná e Etnografia. Muito material foi coletado por Mario nesses textos, incluindo o próprio nome do personagem, significando “o grande mau”, que é tirado de um dos depoimentos coletados por Koch-Grünberg no segundo volume. Dali também saiu uma das passagens que, imagino, deve ter sido algo surpreendente e talvez bem engraçado na época da publicação do livro, mas que hoje podemos apreciar mais em termos intelectuais do que cômicos.
Koch-Grünberg recolhe e fixa em seus relatos o que considera uma das “personificações” (o processo pelo qual culturas indígenas costumam dotar de caráter autônomo elementos da realidade) mais estranhas de que já teve notícia, o mito do Pu’iito, lenda da tribo Taulipang da Guiana segundo a qual, em um tempo mítico e remoto, nenhum ser vivo tinha ânus e todos defecavam pela boca (tem gente neste país ainda vivendo nesse tempo, aparentemente). E que havia uma criatura que era basicamente um cu ambulante chamada Pu’iito, que percorria a floresta peidando impunemente na cara de todos os animais. Até que um dia, perseguido por todos os seres vivos, o Pu’iito foi encurralado e destroçado por dois papagaios que, então, distribuíram seus pedaços a todos, e foi assim que as criaturas da natureza ganharam um ânus.
A certa altura do capítulo X de Macunaíma, o protagonista é abordado na rua por uma moça que coloca em sua lapela uma rosa e, depois, cobra “mil-réis” pelo “presente”. Macunaíma fica irritado e reclama por a moça haver colocado, sem que ele pedisse, a flor no furo da lapela – o nome específico daquele orifício, botoeira, lhe escapa, e ele tenta revirar na memória e não encontra o termo correto: “viu logo que confundia com os outros buracos deste mundo”. Ao pagar pela flor, o Macunaíma adverte: “Nunca mais me bote flor nesse… neste puíto”. O próprio narrador comenta que, com a frase, Macunaíma “falara uma bocagem muito porca, muito!”, mas o fato é que a moça não conhece a palavra, então considera que deve ser algum termo novo da moda para a casa da lapela e passa a repetir a palavra – e, algum depois tempos, a gíria “pega”. Puíto, então, dissemina-se não como cu, mas como o furo da lapela: “Ninguém mais falava em boutounnière, por exemplo; só puíto se escutava”.
O arremate da piada vem algumas páginas adiante, quando Macunaíma sai a passear no fictício feriado Dia do Cruzeiro do Sul e encontra uma alemãzinha com a qual se engraça. Enquanto passeia de mãos dadas com Fräulein, Macunaíma é surpreendido por um pedido dela: “Pois então a alemãzinha, chorando comovida, se virou e perguntou pra ele se deixava ela afincar aquela margarida no puíto dele” – o que ele interpreta da pior forma e, inicialmente, reage com o equivalente dos anos 1920 ao “lá ele” contemporâneo, mas depois liga os pontos e percebe que criou um termo que virou corrente, então se sente satisfeito e inteligente.
A comicidade do episódio segue adiante com a narração explicando que o termo já havia caído no radar da ciência linguística e que logo havia uma hipótese etimológica para como a palavra “botoeira” terminou por virar “puíto” – segundo a hipótese formulada “pelas leis de catalepse elipse síncope metonímia metafonia metátese próclise prótese aférese apócope haplologia etimologia popular”, “botoeira” teria virado “puíto” devido a um termo medieval intermediário, o latino “rabanitius” – do qual nunca se encontrou comprovação escrita, mas acredita-se que tenha existido sem registro escrito nas formas vulgares do idioma.
Espaço para tudo
A piada é muito mais sofisticada do que a minha, claro, mas, cem anos depois, está tão enterrada (ops) em camadas de referências que talvez precise ser explicada. O que não nos impede de reconhecer algo que às vezes parece ausente de muitos debates sobre a criatividade selvagem de Macunaíma é o quanto, em sua voragem, o livro não tem lugar apenas para lendas, cantigas, poemas, fábulas, romanços, sátiras, picardias, faunas e floras.
Também tem espaço para piadas de cu…

