
De novo, escrevo um texto que descarto. Não que ele não estivesse do meu gosto. Penso que sim, mas, por fatores inesperados, perdeu o sentido. Quando eu era criança e, de vez em quando, desmaiava, meus pais diziam: Ela perdeu os sentidos. Eu achava estranho e bonito simultaneamente. Quando eu era criança, mesmo não acreditando em Papai Noel, em anjos e até em Deus, eu via beleza em quase todas as coisas, como na grande escada de madeira que passou vários dias deitada atrás de nossa casa e em que, sozinha, cruzei mares e viajei no tempo, pelo planeta, pelo cosmos e pela imaginação, e sobrevivi à fúria de todos os deuses invejosos. Minha mãe acreditava em deuses invejosos. Disse-me, no entanto, para me cuidar com os atos humanos.
Cresci pensando saber. Aprendi da pior forma possível o quanto o meu conhecimento sobre zelo não dava conta da realidade. A realidade é sempre maior que nós e, mais ou menos como o Hemingway escreveu no Adeus às armas e já falei em um outro texto, ela dá um jeito de nos alcançar, a uns mais que a outros. O motivo, não sei. E não acho justo, apesar dos meus pesares, me queixar, ainda que eu me sinta como naquele poema que diz “continuo ganhando tudo que ganhei/continuo perdendo tudo que perdi”, do Paulo Hecker Filho, e aceite este pêndulo. Mesmo com esse meu temperamento forte, nunca ousei dizer não para a vida. Tentei negociar, pedi trégua, asilo, um abraço, fiz o que pude por mim, mas, é claro, que nem sempre foi o suficiente. A vida é voraz, insaciável e autoritária. Algumas escolhas importantes que fiz não foram de verdade minhas.
De verdade é uma expressão que me encanta e intriga. No romance do Sándor Márai com este nome, ela se ajusta às narrativas das personagens. Falam todas sobre a separação de um casal. Eles, a moça que trabalha para eles e o namorado dela dão seus testemunhos. E uso essa palavra porque todos acreditam no que dizem ou fingem. Donos da verdade, como se diz nas ruas, remexem o passado, atropelando histórias e sentimentos. Uma das razões que me leva, depois de muitos anos de análise, a ponderar muito antes de abrir uma gaveta do tempo é a de que, mais do que guardadores de rebanhos, entendi que somos guardadores de mágoas. Não falo de ressentimentos. Falo das gotinhas que, uma a uma, fazem picadinho de nossa alma.
Minha alma no domingo passado estava quente. A cidade estava fria e úmida. Desbotada. E eu estava com dor de garganta. Hoje, dia em que alguém me lê, talvez ela esteja gelada e a dor que me abatia já tenha ido embora. Não sei. “O que está dentro e o que está fora e vê e é visto de toda a parte é o mesmo e o outro e tudo isto é sabido em mim”, um bom poeta escreveu. Lembro dos versos. Não de seu nome. Vão-se as pessoas, ficam as suas palavras e alguns estilhaços.
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