
Peço desculpas antecipadas pelo relato pessoal e, pior ainda, paterno. Mas tenho a esperança de que possa transcender o que um dia foi íntimo, galgar alguma universalidade ao longo do tempo e se tornar útil, qualquer dia, para um outro. Senão útil, prazeroso, o que seria melhor ainda.
Era o dia de formatura da escola infantil e, para orgulho dela e da família inteira, a filha havia sido escolhida para fazer o papel da Rosa Juvenil, na apresentação com dramatização da música. A Linda Rosa Juvenil. Naquele começo de Século, as cerimônias de fim de ciclo na escola infantil ainda não tinham a pompa que, infelizmente, passaram a ter, mas já causavam algum barulho.
Estávamos lá no dia, a família inteira, orgulhosa do momento e da arte prevista para ele. Fantasiada de rosa, a filha entrou no palco, deu uma rebolada ao som da música, bem como de alguns aplausos, e logo se deparou com a Bruxa má, na realidade a melhor amiga dela. Uma querida, aquela bruxa, e, seguindo com rigor e disciplina, desempenharam as duas muito bem o seu papel.
A amiga, delicadamente, fez a minha filha adormecer e retirou-se sob o som de novos e mais calorosos aplausos, em cena aberta. A filha permaneceu com os olhos rigorosamente fechados, respeitando o roteiro de entrar em um sono eterno, obra nefasta daquela bruxa simpática.
Foi quando entrou o terceiro personagem, que era o Tempo. Cabia a ele correr ao redor da Rosa, mas não sei por que razão, ao invés de contorná-la, o menino escalado para o papel passou a pular de lá para cá e de cá para lá, por cima dela. Quer dizer, as razões pareciam claras. O machismo da época teria impedido que ele fosse a Rosa, assim como não fora escolhido como o Rei que a acordaria no final. Ele era mesmo um coadjuvante nada contente com a sua situação. Por isso, toda vez que ia pular sobre a minha filha, deixava o pé pisotear o tornozelo da menina, como esses jogadores mais maldosos ainda hoje o fazem, especialmente em jogos sem VAR.
O clima estava tenso, mas ainda assim havia algumas risadas vindas da plateia. Não eram minhas. Ao ver minha filha maltratada por aquele pequeno mau elemento, eu tinha ganas de invadir a cena e retirar o malfeitor pelo pescoço. A todas essas, em uma disciplina dramática extrema, a filha não abria um olho. Eu estava num tremendo impasse diante de um Tempo que maltratava concretamente uma criança (a metáfora estava perdida há muito tempo), até que um pisão ainda maior fez a filha abrir um dos olhos sem disfarçar o peso da dor.
Foi então que, em um esforço hercúleo, quando o meu olhar inteiro encontrou aquela metade do dela, transmiti mensagens não verbais que, justamente por não serem atrapalhadas pelas palavras, são muito mais claras. No pulo seguinte do meliante, a Rosa adormecida levantou a perna discretamente, fazendo ele cair e ser retirado aos prantos pela professora auxiliar.
Essa era muito competente e, mal entrou o personagem do Mato que crescia, interpretado por um menino muito seguro, mesmo sendo coadjuvante, e o Rei, cheio de orgulho, despertou a Rosa de seu sono prolongado, o Tempo, restabelecido, teve tempo de juntar-se aos demais para receber os aplausos efusivos e finais.
Aplaudia-se, talvez, o fim de um ciclo, a vida que se renovava, mas eu sentia que aqueles aplausos também eram para um pai que conseguiu se conter e deixar que uma filha, literalmente, andasse com as próprias pernas machucadas.
A Linda Rosa Juvenil
A linda rosa juvenil, juvenil, juvenil
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