
Curar as feridas da vida era o maior motivo daquela nova batalha. Um recomeço, uma oportunidade de voltar a se sentir gente, já que a terra onde nasceram não lhes permitia tamanha dignidade. Assim, eles partiram em um dia qualquer rumo a outros lugares. No caminho, fome, sede, medo. Nada do que não estivessem acostumados a sentir. Um risco melhor do que permanecer onde estavam.
Cruzaram fronteiras, conheceram diferentes culturas, aprenderam outros idiomas. Uma temporada no Chile, outra no Brasil ou em qualquer país que pudesse ampará-los até alcançarem os Estados Unidos, onde enfrentariam uma política anti-imigratória, que possivelmente os devolveria à sua terra sem ouvir qualquer pedido de socorro.
Foi dessa forma que muitas famílias haitianas chegaram à minha cidade: trazendo nas malas poucas roupas e, no coração, muita esperança de um futuro melhor. Permaneceram em comunidades, onde se apoiavam mutuamente. Buscaram emprego para os adultos, escola para as crianças e logo se adaptaram à rotina, até então desconhecida. Esses migrantes sofreram preconceito e discriminação, mas também encontraram empatia de quem os acolheu e compreendeu que era impossível continuar na situação em que viviam. A decisão de abandonar a própria terra foi consequência de décadas de instabilidade política, pobreza e violência, agravadas por sucessivas tragédias que transformaram a sobrevivência em um desafio diário.
Para compreender essa realidade, é preciso voltar alguns anos, mais precisamente ao início dos anos 2000, quando um golpe de Estado mergulhou o Haiti em uma guerra civil e levou soldados de diversos países ao território caribenho em uma missão de paz. Ao contrário do que se esperava, porém, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), promovida pela ONU e liderada pelo Brasil, deixou uma herança controversa. Além das denúncias de abusos sexuais, que atingiram principalmente mulheres e crianças, a missão foi associada à epidemia de cólera, que provocou milhares de mortes no país. A MINUSTAH chegou ao fim em 2017, sete anos após o terremoto que devastou o Haiti e aprofundou uma crise que ainda não teve fim.
De todas as ações desenvolvidas naquele período, uma foi especialmente celebrada pelos haitianos. O chamado Jogo da Paz, disputado entre as seleções do Haiti e do Brasil, proporcionou à população um raro momento de entretenimento em meio às dificuldades cotidianas. Por noventa minutos, foi possível deixar os problemas do lado de fora do estádio. Nas arquibancadas, pouco importava o resultado da partida. O que valia era ver de perto os jogadores conhecidos apenas pela televisão.
Anos depois, muitos daqueles haitianos seguiram outros caminhos e, quem sabe, tenham chegado aos Estados Unidos, na expectativa de não serem deportados. Outros ainda esperam que algo de muito bom aconteça e a terra onde nasceram torne-se um lugar onde seja possível viver sem correr riscos. O certo é que um grupo, ou melhor, um time de jovens que, na infância, talvez tenha assistido ao Jogo da Paz, enfrentou a Seleção Brasileira, mas desta vez em uma Copa do Mundo. Quanto a mim, confesso que, embora a minha razão torcesse pela vitória do meu país naquele jogo, o meu coração continua considerando injusta uma vitória contra quem ainda procura o merecido lugar ao sol.
Todos os textos de Andréia Schefer estão AQUI.