
No ano de 2001, a cidade Durban, na África do Sul, sediou a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerâncias Correlatas. Ali, o Estado brasileiro, representado por sua delegação oficial, se assumiu racista, na contramão do discurso incoerente e irreal pautado na democracia racial. O evento estabeleceu um compromisso histórico, como bem descreveu Raquel Barros, doutora em Sociologia pela UFRJ e nossa atual ministra da Igualdade Racial, em artigo publicado no site do MIR:
“O compromisso estabelecido em Durban é histórico: o reconhecimento da escravidão e do tráfico transatlântico de africanos como crimes contra a humanidade. As resoluções da Conferência se tornaram um legado que impulsionou políticas de promoção da igualdade racial em diversas partes do mundo e, em particular, no Brasil.”
Recentemente, no 2026 que partilhamos, a doutora em Sociologia pela UFRGS, Nina Fola, destacou neste espaço de opinião da Odabá, na plataforma Sler, sua interpretação sobre tema similar: a decisão da Assembleia Geral da ONU em reconhecer o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade.
Parece texto repetido, não é mesmo? Mas não é. Repare no hiato de um quarto de século entre as duas manifestações públicas e em um detalhe na redação: antes, era “crime”. Depois, “o mais grave crime”. A desumanização é a atitude mais atroz da humanidade para com seus semelhantes.
Das coincidências que não o são, o Projeto Cenários Futuros para a População Negra no Brasil apontou o horizonte temporal até 2050, simbolizando uma geração de 25 anos e a celebração dos 50 anos da Conferência de Durban.
No intervalo de tempo mencionado, houve muitas mudanças no Brasil em relação à pauta étnico-racial. Na Educação, a mais marcante é a Lei 10.639, de 2003 (atualizada com a Lei 11.645/2008), que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena na educação básica e altera o artigo 26A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN).
Levantamentos recentes de órgãos governamentais, como o Ministério da Educação, e de organizações da sociedade civil mostram que, apesar da passagem de mais de duas décadas, 84% da rede municipal de ensino, em todo o território nacional, não tem uma equipe responsável específica pela gestão das políticas de igualdade racial. O Geledés e o Instituto Alana também mostraram que 71% da rede municipal assumiu não implementar a legislação. Qual o impacto disso na vida real? Os números seguem nos dando suporte.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, de 2025, pessoas negras estudam 9,2 anos, enquanto pessoas brancas ficam 10,8 anos na escola. A conclusão do Ensino Médio é uma realidade para 81% dos autodeclarados brancos e amarelos, enquanto pretos, pardos e indígenas chegam a apenas 69%.
Como mudar isso? A Educação Antirracista é um instrumento indispensável para o desenvolvimento educacional da população negra, e deve ser uma meta coletiva para todos os grupos étnicos. Se 55,9% dos brasileiros se reconhecem negros, o crescimento intelectual desse segmento impacta positivamente toda a população. Mas, para isso ocorrer, é necessário que todos os demais grupos étnicos – em especial pessoas brancas, que detêm a ampla maioria dos cargos de poder e decisão – enxerguem e assumam a Educação Antirracista como um valor civilizatório.
O poder público tem mobilizado esforços para a construção de uma nova realidade, como a criação da Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (Pneerq). A Pneerq tem como objetivo “implementar ações e programas educacionais voltados à superação das desigualdades étnico-raciais e do racismo nos ambientes de ensino, bem como à promoção da política educacional para a população quilombola”. No entanto, para que colhamos o resultado efetivo de políticas públicas, existe a necessidade do engajamento da sociedade civil, vislumbrando uma nova realidade social e econômica transversal.
As declarações da ONU, as conferências internacionais, a segunda década internacional da população negra, entre outros instrumentos de conscientização, somente irão se efetivar com o compromisso mútuo das pessoas, do poder público e das educadoras e educadores ao elaborar o Plano Político Pedagógico e ao implementar ali, na sala de aula, toda essa potência omitida por séculos e que agora brota como forma de conexão à ancestralidade de quem construiu esse país.
Lembrar às crianças negras que elas descendem de reis e rainhas é levá-las à nobre existência. Destacar para crianças brancas a origem da humanidade e das ciências no Continente Africano é dar-lhes instrumentos para rebater discursos e práticas pedagógicas descabidas, que ainda vinculam o negro brasileiro exclusivamente à escravização. Sim, isso ainda existe em uma escola perto de você.
O economista Pedro Lopes, pesquisador da Escola de Economia de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), publicou um estudo em que mostra a importância de professoras e professores negros em sala de aula. Seu trabalho inédito, realizado com 2 milhões de estudantes, mostra que a presença de professores negros nas escolas aumenta formatura, acesso ao ensino superior e renda de estudantes negros. Os resultados sugerem que aumentar a proporção de professores negros para 50%, aproximadamente, conforme a proporção de indivíduos negros na população brasileira, reduziria a disparidade racial nas escolas, melhoraria em 30% o desempenho escolar e em 60% os rendimentos profissionais. Ou seja, com mais professores negros, o futuro de estudantes negros pode ser em uma carreira promissora no serviço público, na ciência, na presidência de empresas, no magistrado ou em descobertas espaciais.
É por esses argumentos — dentre outros tantos possíveis, que pediriam uma boa roda de conversa — que reconhecemos o potencial transformador de uma Educação Antirracista.
É por isso também que, diante do silenciamento da história da população negra, a metodologia da Reos Partners, de construção de cenários futuros e transformação focada em grandes questões sociais, usualmente finalizada com três cenários, foi concluída com quatro cenários, sendo um deles dedicado especificamente à Educação. Aqui, falamos dos Cenários Futuros para a População Negra, uma construção coletiva, liderada pelo Instituto Guetto.
Na proposta do cenário dedicado à Educação Antirracista, o grupo reconhece que o Brasil vive um novo ciclo, no qual a educação pública se torna a base de sustentação de um projeto nacional de justiça racial, social e econômica.
Diferentemente do que nos foi ceifado ao longo de 138 anos, desde a formal abolição da escravatura, que seguiu impedindo o acesso de pessoas negras à educação formal, na proposta deste cenário, a sociedade começa a entender que muitos não partem do mesmo lugar e que é necessário nivelar as condições de partida.
Para isso, o financiamento da educação é estruturante e serve como ferramenta de justiça. Nesse contexto, estudantes negros, periféricos, indígenas, quilombolas, do campo e da floresta acessam a escola, permanecem nela, concluem suas trajetórias com sucesso e se reconhecem nela, o que atualmente é exceção. Esse é o futuro que projetamos.
Ainda assim, os avanços não acontecem sem resistência e os desafios continuam enormes, como toda história da população negra vivida até hoje, confirmando as poucas exceções que estouram bolhas. Nesse cenário, se a educação é uma porta para o futuro, o negro é a chave. Nós o simbolizamos com o adinkra Umoja, que representa unidade, solidariedade e harmonia entre as pessoas, e enfatiza a colaboração, o apoio mútuo e a construção de laços fortes.
Assuma esse compromisso com você e conosco, no seu espaço, na sua realidade, na sua comunidade, na sala de aula ou ambiente de trabalho. O ganho é coletivo!
Este artigo segue a apresentação do projeto Cenários Futuros para População Negra no Brasil, do qual a Odabá é parceira institucional.
Os artigos anteriores estão publicados na Coluna Odabá, na plataforma Sler, com os títulos: “Seja bem-vindo, 2050 – ODABÁ, Cenário Aya e o futuro da população negra e Cenário Sankofa e a Ascensão econômica negra feminina. No próximo mês, seguiremos com o Cenário Nkyinnkyim – Sobrevivência e Resistência.
Sobre os participantes e a iniciativa:
A temática dos Cenários Futuros para População Negra no Brasil foi idealizada por Vitor Del Rey, presidente do Instituto Guetto, instituição sem fins lucrativos que desenvolve pesquisa e indicadores, consultorias e treinamento nas áreas de inclusão e diversidade, direitos humanos e capacitação profissional, com vistas a combater as iniquidades raciais e de gênero no ambiente institucional.
A construção do projeto adotou a metodologia da Reos Partners, organização internacional focada em grandes questões sociais, atuando na construção de cenários futuros e transformação. Além dos citados, são parceiros dos Cenários: Frente Nacional Antirracista, Ashoka Brasil, Fundação Itaú, Fundação Lemann, Instituto Unibanco, Instituto GOL, Banco do Brasil Sede I, Malala Filmes e Samara Cruz.
Denise Ribeiro Denicol é entusiasta da saúde mental no ambiente de trabalho e tem se ocupado de provocar esse cuidado também com o recorte racial. Sempre disposta a conversar sobre temáticas relacionadas ao fortalecimento de mulheres, maternidade, trabalho e dinheiro, é Advogada Trabalhista, Diretora Jurídica da ODABÁ - Associação de Afroempreendedorismo e parceira do escritório Baladão e Fagundes.
Instagram: @deniseribeirodenicol
Eduardo Borba é jornalista, pai, integrante movimentos para promover a Diversidade, Equidade e Inclusão, como a Odabá - Associação de Afroempreendedorismo e a Comissão Antirracista do Colégio João XXIII (Porto Alegre). Mestre em Comunicação Social com foco em Memória Institucional, especialista em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global e doutorando em Educação pela PUCRS. Está à frente da ECBorba Consultoria e Projetos em Comunicação. (@ecborba)
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