
Há algum tempo, peguei ranço dos filmes de ficção científica. Grande parte dessas produções parecia seguir a mesma fórmula: uma invasão alienígena, uma catástrofe climática ou algum evento cósmico ameaçava destruir a humanidade, e a solução surgia de dentro das fronteiras dos Estados Unidos, cabendo sempre aos cientistas ou militares americanos salvar o planeta. Alguns até me conquistavam pela trilha sonora ou por um romance paralelo, mas, não raro, eu acabava evitando-os.
Foi então que entrou no catálogo da Netflix um filme que, apesar de reunir muitos dos elementos que me faziam torcer o nariz para esse tipo de produção, conseguiu superar o meu ranço. Em A Última Casa, estrelado por Wagner Moura no papel de Jason, não há invasões extraterrestres ou meteoros em rota de colisão com a Terra. A solução também não vem do governo ou do exército. Desta vez, são as pessoas comuns que precisam encontrar uma maneira de permanecerem vivas, diante de uma ameaça totalmente desconhecida.
Tudo começa com a chegada da chuva. Em seguida, uma força estranha tranca as portas de todas as casas. A partir daí, quem está dentro não consegue mais sair, enquanto aqueles que não conseguiram entrar ficam vulneráveis às intempéries. Durante um longo período de chuvas, que me fez lembrar Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, a única forma de comunicação com o lado de fora acontece por meio de cartazes afixados nos vidros das janelas, numa espécie de versão improvisada do “telefone sem fio”. Cada família precisa aprender a sobreviver, enfrentando a fome e o tédio com os recursos que tem dentro de casa.
É impossível não associar a aflição dos personagens àquela que vivemos durante a pandemia de Covid-19. A metáfora do mundo visto através da janela e o medo do que acontece do lado de fora nos remetem a uma época ainda recente, em que também convivíamos com a incerteza de não saber quando seria possível retomar a vida. A diferença é que, no filme, ninguém sabe exatamente contra o que está lutando. Não há equipamentos de proteção, vacina ou sequer uma previsão de quando o fenômeno irá terminar.
A catástrofe que começa com a chuva traz consigo criaturas que parecem ter saído de um pesadelo. Esses seres fantásticos, que nada fazem além de reivindicar seu lugar em um mundo dominado pelos seres humanos, também servem para nos lembrar de que, enquanto governos fecham os olhos, a emergência climática bate em nossas portas. Cada vez mais frequentes, tornados, enchentes e secas deixam rastros de destruição e desespero. Os efeitos das mudanças no clima, antes tão distantes, agora fazem parte do nosso cotidiano.
Tanto no longa-metragem quanto na vida real, a humanidade, que por tanto tempo acreditou ter controle sobre o planeta, se vê impotente perante circunstâncias que já não consegue dominar. É justamente essa sensação que torna A Última Casa uma reflexão incômoda sobre quanto tempo ainda teremos para aprender a conviver com a natureza até que ela nos obrigue, de maneiras cada vez mais violentas, a reconhecer que nunca fomos os verdadeiros donos da casa. E que, assim como a família de Jason, um dia descubramos que a casa da qual extraímos tudo o que podíamos também pode desabar diante dos nossos olhos.