
Profundamente irritado com os homens, que Ele mesmo criara, e assistindo lá de cima aos desastres que eles produziram, Deus – também conhecido como TODO PODEROSO – resolveu recomeçar tudo em um longínquo lugar do Universo que Ele, agora, pretende “recriar”.
Tendo um surto disruptivo, Ele resolve sair da antiga zona de conforto, onde bastava uma simples palavra e o Mundo surgia segundo o desígnio divino e, sobretudo, numa clara adesão aos Estudos Culturais, às Epistemologias do Sul, às Teorias Pós-coloniais e rompendo, inclusive, com um etnocentrismo falocrático, heteronormativo e branco, decide inverter a ordem da CRIAÇÃO (agora “Recriação”) e reiniciar assim:
— “Refaça-se a MULHER! E Negra”.
E a mulher negra se refez.
— “Oi, Todo Poderoso”, disse ela assim que fora criada! “Como vou me chamar?”
— “Deixa eu ver: Eva não mais, só deu problema! Você vai se chamar…, já sei: Anna Walleska Karolynne. Adoro esse nome!”
— ”Pô TODO, que nome mais brega. Eu quero Judith, como Judith Butler!”
— ”Tudo bem. Vou te chamar de JUD!” E, em seguida, começou a recriar o Universo.
— “Refaça-se o Firmamento”. E o firmamento se refez em todo seu azul.
— ”Azul!?”, disse Jud. “Ah! Eu quero rosa, muito mais adequado a um mundo pós-patriarcal!”
— ”Ave Jud! (O “Ave Maria” é muito posterior!) Ok! Você venceu”. E o firmamento se refez em rosa.
— ”Refaçam-se as montanhas”, ordenou DEUS. E as montanhas se refizeram.
— ”Isso é lá montanha”, contestou Jud. “Mais parece o Morro da Conceição lá no Recife, que era, aliás, a mãe de Teu filho, lembra, lá no outro Mundo!?”
— ”Ok, vou refazer”. E se refizeram montanhas everestianas.
E, para resumir essa história da recriação (na versão desconstrucionista), que durou quase seis meses (seis longos meses, porque Jud tudo criticava, contestava, interrogava)…, o PLURIVERSO (sim, porque universo, universal, universalidade… são coisas do Humanismo eurocêntrico e colonial!) estava pronto. Mas faltava algo.
— ”E eu vou ficar sozinha, é?”, perguntou Jud ao TODO PODEROSO. “Eu sei que Você se basta a si mesmo, onipotente, onisciente… e essas coisas todas. Mas, peraí, e eu? E vou logo avisando: nada de Serpente, Árvore do Conhecimento, nem Fruto Proibido, nem Pecado Original, nem Expulsão do Paraíso. Chega! Você sabe no que deu e precisa ter consciência crítica e pluriepistêmica. Você sabe muito bem: ‘um Deus que não conhece a História está fadado a repeti-la!’ E nada de tirá-lo da minha costela quando eu estiver fazendo minha sesta, vou logo avisando”.
— ”Ok, tudo bem. Faça-se o Homem”, disse o ONISCIENTE. E o homem se fez (aliás, muito parecido com Alain Delon na época daquele filme “O sol por testemunha”, lembram?).
— ”Branco! E de olhos azuis???!!!” Retrucou Jud. Tá vendo que você não superou seu negroracismo, sua branquitude patriarcal, seu… colonialismo eurocêntrico. Tá vendo?!”.
— “Tudo bem. Desculpa aí qualquer coisa. EU refaço”, disse o ONIPOTENTE. Mas, nesse momento, Jud interveio.
— ”Quero ele alto, musculoso e com uma bela tanga. Chega dessa historinha de folha de parreira e, principalmente, que não precise refazer o Mundo ‘com o suor de seu rosto’! Basta que ele refaça o Mundo, sei lá… teoricamente. Já sei: que ele seja Filósofo! E pós-estruturalista, claro!”.
— “Ok”, disse o ONIPRESENTE. “Vou chamá-lo Adolf Donald Benito. O que você acha?”
— ”Meu Deus, TODO! Vai dar tudo errado novamente. Você precisa se conscientizar. Não custa nada um pouquinho de sensibilidade “alterepistêmica” sobre a Criação anterior, não é?!”
PS. Atenção, leitor(a): trata-se de uma fábula e, como vocês podem constatar, mais adequada às exigências identitárias e epistemêmicas contemporâneas. Aliás, os conceitos de “identidade” e de “epistemologia” são… eurocêntricos!
Flávio Brayner adora a “French Theory”!