
O Brasil está envelhecendo a passos largos, mas a pergunta central que precisamos nos fazer não é apenas quantos seremos, e sim como estamos chegando lá.
Para isso, gostaria de te trazer dados do PROJETO LONGEVIDADE E ECONOMIA BRASILEIRA, relatório elaborado pela FGV EAESP para o Instituto Itaú Viver Mais, divulgado em 7 de agosto.
O principal objetivo desse estudo foi descrever e projetar os efeitos da mudança demográfica sobre indicadores socioeconômicos e demográficos – como previdência, trabalho e cenário econômico, considerando a influência das desigualdades estruturais, incluindo as raciais e de gênero, no processo de envelhecimento. Ele também analisou como a exclusão digital afetou e afeta diferentes grupos populacionais e o contexto de adoção de ferramentas digitais por pessoas da faixa etária 60+ de diferentes origens étnico-raciais. No entanto, deste robusto trabalho de quase 300 páginas, apresento um pequeno recorte que trata do mercado de trabalho 60+. Se você quiser acessar o material completo, clique aqui no link.
Quando olhamos para seus dados, o retrato da longevidade no país revela uma história de potência, mas também de profundas contradições sociais.
O novo mapa do lar brasileiro
A população idosa já ultrapassa 15,7% dos brasileiros — mais de 32 milhões de pessoas. Longe de ser um grupo passivo, essa geração é responsável pela renda principal em quase 27% dos lares. Contudo, essa centralidade econômica escancara uma vulnerabilidade familiar crônica: a dependência direta de aposentadorias em um cenário de custos crescentes.
As formas de morar também mudaram radicalmente:
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Mais de 5,6 milhões de pessoas 60+ vivem sós (52% brancas e 46% negras).
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7,4 milhões de domicílios abrigam duas pessoas, sendo o principal responsável idoso — sinal claro do avanço dos casais longevos.
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Cerca de 20 milhões de lares têm chefia sênior, com mulheres liderando metade desse universo.
Um envelhecimento em ritmo acelerado
Diferente de nações europeias ou do Japão, que envelheceram após consolidarem altos índices de bem-estar social, o Brasil vivencia essa transição de forma vertiginosa. O país fechará o século XXI com cerca de um terço de sua população acima dos 65 anos.
O grande gargalo nacional não é a longevidade em si, mas a nossa capacidade coletiva e institucional de gerir os impactos desse movimento diante da histórica concentração de renda e da falta de acesso básico à saúde, segurança alimentar, educação e previdência. E essa é uma conclusão do estudo, chancelado por uma das maiores instituições financeiras do país: precisamos distribuir melhor a renda para garantir um futuro próspero para pessoas e empresas.
Mercado de trabalho: necessidade versus oportunidade
Entre 2012 e 2022, o número de trabalhadores com mais de 60 anos cresceu 87,8%. Trata-se de um reflexo direto das sucessivas reformas previdenciárias e da alta da idade mínima, que forçam a permanência ou o retorno ao mercado de trabalho.
A distribuição dessas novas vagas, porém, aponta para um cenário de precarização:
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Remuneração baixa: A faixa de até 1 salário mínimo foi a única que mais que dobrou em contratações, indicando aumento de trabalhos parciais e informais.
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Subida nas faixas etárias: A faixa entre 70 e 74 anos registrou o maior aumento proporcional (mais de 300%), enquanto a de 60 a 64 anos concentra o maior volume absoluto.
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Cobertura em risco: Cerca de 30,1% da mão de obra ocupada não possui proteção previdenciária, ficando exposta à instabilidade financeira no futuro.
O filtro de gênero, raça e escolaridade
As desigualdades acumuladas ao longo da vida profissional se tornam ainda mais evidentes após os 60 anos:
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Recorte Racial: A ocupação de vagas ainda é majoritariamente branca. Apesar de as contratações de pessoas negras 60+ terem crescido a um ritmo superior (128% contra 67,3% entre brancos), essa evolução ainda é insuficiente para fechar o abismo histórico de oportunidades e renda.
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Teto de Renda: A quase ausência de mulheres em cargos com salários superiores a 10 salários mínimos e a queda de vagas nas faixas mais altas reforçam a existência de barreiras culturais e institucionais, além da expansão da “pejotização” sem garantias trabalhistas.
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Desigualdade de Gênero: Embora sejam maioria na população idosa, as mulheres ocupam apenas 38% das vagas formais 60+. O acesso feminino ao mercado sênior está intimamente ligado à escolaridade — quanto menor o grau de instrução, maior a barreira de entrada e menor a proteção social. É fundamental um trabalho com olhar interseccional.
Tratar a longevidade com a seriedade que ela exige requer enxergar esses dados não apenas como estatísticas demográficas, mas como um chamado urgente para políticas públicas e práticas corporativas verdadeiramente inclusivas. Envelhecer com dignidade e autonomia financeira deve ser um direito acessível a todos, e não um privilégio de poucos.