
Durante muito tempo, difundiu-se a ideia de que tecnologia, trabalho autônomo e valorização da trajetória individual tornariam a representação coletiva menos necessária. O profissional contemporâneo seria mais independente e capaz de negociar sozinho os rumos da carreira. A realidade, porém, aponta outra direção: quanto mais complexas as relações de trabalho, maior a necessidade de instituições capazes de dar voz e perspectiva coletiva aos profissionais.
Um dado recente ajuda a compreender esse movimento. Em 2024, a taxa de sindicalização no Brasil passou de 8,4% para 8,9% da população ocupada, alcançando cerca de 9,1 milhões de trabalhadores. Foi a primeira alta registrada desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012. Ainda estamos distantes dos níveis do passado, mas a mudança de direção merece atenção.
Talvez a pergunta mais importante não seja por que os sindicatos perderam filiados, mas por que profissionais começam novamente a perceber valor em se organizar.
O mundo do trabalho prometeu mais autonomia, mas também produziu mais individualização. Hoje, muitos profissionais transitam entre emprego formal, prestação de serviços, consultoria, empreendedorismo, contratos por projeto e atuação como pessoa jurídica. Ao mesmo tempo, decisões que interferem na vida profissional são cada vez maiores do que a capacidade de negociação de um indivíduo isolado.
Para os Administradores, esse cenário é claro. Nossa profissão está presente em praticamente todos os setores da economia e vem sendo impactada por mudanças profundas. O Administrador de hoje precisa compreender inteligência artificial, dados, gestão de pessoas, produtividade, governança, sustentabilidade e novos modelos de negócio. Precisa se atualizar continuamente e assumir responsabilidades maiores. Mas quem discute coletivamente a valorização dessa responsabilidade?
É justamente aí que o sindicato encontra uma função renovada.
Representar uma categoria profissional no século XXI não pode significar apenas reagir quando um direito é ameaçado. É preciso antecipar tendências, acompanhar mudanças legislativas e tecnológicas, promover qualificação, produzir informação, abrir espaços de diálogo e defender condições que valorizem o exercício profissional.
Conselho Profissional e Sindicato também exercem papéis distintos e complementares. Ao Conselho cabe fiscalizar a profissão e proteger a sociedade. Ao sindicato, representar os interesses profissionais e trabalhistas da categoria. A valorização da Administração depende de instituições fortes e próximas de quem está no mercado.
No SINDAERGS, essa visão orienta uma trajetória de mais de quatro décadas de representação dos Administradores gaúchos. Mas nenhuma entidade pode viver apenas de sua história. Representatividade precisa ser renovada todos os dias.
Isso significa ouvir quem está iniciando a carreira e quem já ocupa posições de liderança. Significa compreender o Administrador empregado, o profissional liberal, o consultor, o empreendedor e aquele que atua por projetos. Todos pertencem à mesma profissão, embora vivenciem relações de trabalho diferentes.
A transformação digital torna essa necessidade ainda mais evidente. A inteligência artificial deve aumentar a produtividade e abrir novas possibilidades para a gestão, mas também redefinirá funções, competências e processos decisórios. O Administrador precisa ser protagonista dessa transformação, e uma categoria organizada tem mais condições de participar desse debate, defender boas práticas e construir parâmetros para relações profissionais equilibradas.
É sob essa perspectiva que devemos olhar para o novo fôlego da sindicalização no país. Esse movimento não precisa representar uma volta ao passado. Pode ser, ao contrário, uma resposta contemporânea a problemas grandes demais para soluções exclusivamente individuais.
O desafio dos sindicatos, portanto, não é convencer as pessoas de que precisam das instituições de ontem. É construir instituições compatíveis com o trabalho de amanhã.
Para os Administradores, essa reflexão tem um significado especial. Administrar é organizar recursos, pessoas e interesses em torno de objetivos comuns. Poucas categorias compreendem tão bem que resultados consistentes raramente são fruto de esforços isolados.
Autonomia profissional é fundamental. Mas autonomia não precisa significar solidão. Ter uma entidade que escuta, articula e representa uma categoria continua sendo uma forma de transformar interesses individuais em capacidade coletiva de diálogo.
Mais do que perguntar se os sindicatos ainda têm espaço, devemos perguntar que sindicatos serão necessários para o trabalho que está surgindo diante de nós. A resposta dependerá da capacidade de mudar, estar próximo das pessoas e demonstrar, na prática, valor para os profissionais que representam.