
Há uma palavra em inglês de difícil tradução: awe. É a excitação ao ver o mar após meses no interior, o arrepio ao ouvir uma música que toca nossa alma, aquele sentimento que não dá pra descrever quando você vê uma paisagem maravilhosa pela primeira vez. É a sensação que surge quando nos deparamos com algo que ultrapassa nossa compreensão, algo tão vasto, tão belo, tão poderoso, tão impressionante, que nos faz questionar nossa própria existência.
Talvez, a palavra em português que mais se aproxime é deslumbramento.
O pesquisador Dacher Keltner, da Universidade de Berkeley, estuda awe e seus benefícios: este estado de espírito reduz o ego, aumenta a generosidade, melhora o bem-estar e nos faz sentir parte de algo maior. Keltner diz que um minuto por dia se deslumbrando é suficiente para elevar a nossa saúde mental e até mesmo física.
Dado isso, fiquei me perguntando qual a última vez que me vi maravilhada por algo. Quando viajei de motorhome pela Europa, todos os dias acordava e me espantava com a beleza das montanhas, dos lagos, da vegetação, do degradê do céu invernal. Deparar-se com algo belo pela primeira vez, sobretudo diante da natureza, tem esse poder sobre nós: dissolve as fronteiras entre o eu e o mundo, e, por um instante, podemos vislumbrar que somos, de fato, parte do todo.
Penso também em festivais e shows, onde cantava em uníssono com dez mil outras pessoas, os pelos dos braços arrepiados, e a sensação latejante de pertencer àquela experiência, àquele lugar. Dizem que quem é fã de esportes, ou quem frequenta uma religião, vive isso com certa regularidade. Repare que nossas memórias felizes mais marcantes são de momentos de awe, que tornam nossa vida mais… prazerosa, com mais propósito.
Hoje em dia, estamos tão descolados da realidade que o deslumbramento se tornou uma visita rara. Estamos apressados, ensimesmados: os desafios, as conquistas, as felicidades, as tristezas: tudo individual. Além disso, a enxurrada de conteúdo que consumimos por minuto nos anestesia, não desperta sentimento algum, e, portanto, não se transforma em memórias. Assim, grande parte da nossa preciosa vida vai passando em branco.
Então, convido você, leitor, a ativamente procurar se deslumbrar. Não precisa ser em uma montanha dos Alpes nem em um festival com dez mil pessoas. Pode ser com o pôr do sol no mar, com uma música que enche os olhos de lágrimas, se sentindo parte de uma comunidade… Se não para mudar o mundo, pela sua própria saúde.
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