
Estou no meu apartamento alugado em Lisboa por uma plataforma. Eles nos dizem sobre o que é viajar nos tempos do turismo de massa. Ele é um simulacro de lar: tudo nele é falso, nada é feito de tijolo e argamassa. As paredes que separam o banheiro da sala são falsas; a que separa o meu apartamento do vizinho também. Tudo é uma espécie de gesso acartonado ou madeira aglomerada. Sei disso porque toco nelas e ouço um barulho que me diz que são ocas e que me lembram o filme O Iluminado (The Shining, 1980), dirigido por Stanley Kubrick. Olho a parede falsa de meu banheiro e penso na facilidade com que Jack Torrance, interpretado por Jack Nicholson, em mais um de seus acessos de loucura com um machado, a destruiria. Curiosamente, estou olhando a parede de um banheiro como o que estava sua esposa, Wendy, na famosa cena. E imagino, após quebrar a parede, que ele colocaria o rosto pelo buraco e diria para mim sua famosa frase: “Here’s Johnny!” (Aqui está o Johnny!).
Essas paredes falsas para esconder esses equipamentos de descarga, de máquina de lavar e de aquecimento moderno dizem que queremos um apartamento com todas as comodidades do presente num prédio antigo, o que revela como somos: queremos a imagem clássica desses imóveis, mas somos incapazes de renunciar ao conforto que o capitalismo proporciona. Somos uma geração retrofit, adoramos uma mercantilização da memória. Máquina de lavar, secadora, modernos equipamentos de descarga, janelas automáticas, tudo isso exige inúmeros fios e ligações que são ocultas pelas paredes falsas. Nada disso faz parte do projeto original, nada disso fez parte do modo antigo de viver naquele apartamento, o que o transforma nesse simulacro de imóvel que quer me acomodar sem o seu peso, como diz o sociólogo Gilles Lipovetsky em seu Da Leveza: rumo a uma civilização sem peso (Amarilys, 2016): “O leve invadiu nossa rotina e transformou nosso imaginário, tornando-se um valor e um ideal. Na contramão dessa tendência, contudo, a vida parece cada vez mais pesada; ironicamente, é essa leveza que alimenta a sensação de peso.” Meu apartamento é leve, mas o peso que esconde é o da expulsão de seus moradores.
Minha mansarda, minha vida
Pesquiso e descubro que estou numa mansarda. Elas marcam a silhueta da cidade, um elemento arquitetônico português que mistura a tradição do século XVII à modernidade das reabilitações atuais. A técnica faz com que os antigos sótãos, os espaços sob o telhado, possam ser transformados em um novo apartamento. Inspiradas em modelos franceses do século XVIII, difundiram-se em Lisboa após o terremoto de 1755. Feitos inicialmente com telha cerâmica, no final do século XIX, com a influência das reformas de Haussmann, em Paris, incorporaram materiais industriais como a chapa metálica. A minha mansarda não é nem de telha cerâmica, nem de chapa metálica: é de fibrocimento, como as telhas da edícula da minha casa de praia, um sistema comum com estrutura um pouco mais pesada que o zinco sob a montagem de madeira. A mansarda clássica é a pombalina, que tem janelas compactas ou trapeiras, revestidas em telhas; as contemporâneas, de zinco ou outro metal, estão mais associadas ao movimento do fachadismo, com seu tom cinza e grandes vãos de vidro, como o do apartamento do prédio mais abaixo da minha rua. É que na minha mansarda não há só janelas, há portas. Descubro que o fachadismo das mansardas lisboetas é objeto de um intenso debate. Ana Cláudia Cunha, em seu artigo “Como a moda das mansardas de zinco tomou conta dos telhados de Lisboa” (disponível aqui), publicado no site português A Mensagem, afirma que o movimento é criticado desde 1989, quando os arquitetos Alberto Castro Nunes e Antônio Maria Braga diziam, no jornal Independente de 24 de fevereiro daquele ano, que a “vaga de patchwork de fachadas antigas com interiores em betão não para – é um novo movimento, o da arquitetura desmiolada”. Eu dou risada da ironia. Fachadismo passou a ser então, trinta anos depois, o nome do movimento que reabilita prédios antigos mantendo apenas… a fachada! Cunha salienta que, nesse movimento, “a mais recente onda são as mansardas de zinco — as antigas águas furtadas que eram feitas com telhas ou paredes e que agora se cobrem daquele material cinzento e que se espalham pela cidade. “Para os especialistas, visto de longe, o conjunto dos prédios tomados de cor cinza adultera a visão panorâmica da cidade.” Eu vi essa alteração quando fui ao Cais do Sodré.
Cunha aponta que as mansardas são uma desculpa do fachadismo para reabilitar prédios antigos e aumentar sua ocupação, preservando parcialmente as fachadas do passado. Isso me faz lembrar da iniciativa de preservar as fachadas de prédios em Porto Alegre; no entanto, a denúncia de Cunha se aplica a ambos os casos, pois o movimento parece existir apenas para atender às necessidades de acumulação dos atores imobiliários que buscam maximizar seu lucro com o aumento do volume de apartamentos disponíveis para aluguel. Para burlar a lei, fazem isso mantendo as velhas fachadas. É que, em áreas históricas, por força do Plano Diretor Municipal de Lisboa, não se pode simplesmente demolir o existente e construir outra coisa; é preciso remodelar e recuperar. Como a atual Câmara de Porto Alegre, a de Lisboa, nos anos 1990, enfrentou a contradição de preservar o exterior enquanto destrói o interior. A Câmara de Lisboa ofereceu uma saída mais digna ao patrimônio do que a nossa; a de Porto Alegre é um “liberou geral”: pode construir um arranha-céu no espaço do prédio desde que mantenha a fachada. Isso é proibido em Lisboa, por isso a mansarda é opção. Em Porto Alegre, não.
Os críticos olham a mansarda e se perguntam: isso é preservação? É claro que não! Nossas autoridades nem questionam isso. Eles veem as mansardas como uma simulação, uma tradição “nada portuguesa”, como aponta o arquiteto Carlos Machado e Moura, investigador da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, citado por Cunha, que diz: “elas remetem para um universo parisiense mais luxuoso. Em Portugal e em Lisboa, sobretudo, [predominavam] as velhas águas-furtadas. Foi graças às Exposições Universais de 1855 e 1867 que as mansardas ganharam o mundo e se transformaram em símbolo de modernidade, inclusive em Lisboa.” A mansarda adapta o telhado para um novo apartamento; a água-furtada não, é só uma janela no telhado. Essas mansardas que criam apartamentos onde nunca houve não passam de iniciativas do tipo Frankenstein.
Revitalizar, não; lucrar mais, sim
A mansarda é uma solução simulada para ampliar imóveis e pisos habitáveis, um disfarce para sua revitalização. Cunha diz que o que encontramos em muitos casos, em Lisboa, não são verdadeiras coberturas em mansarda, mas ‘aproveitamentos do vão do telhado’. Mas antes novos pisos, equivalentes aos restantes, aos quais é dada uma imagem de acrescento, por meio do desenho dos vãos e do material de revestimento. É uma “solução falsa, a que podemos chamar fachadas amansardadas — e aí entramos noutro nível de complexidade”. O que está por trás é que não se trata de preservar os prédios, mas sim aumentar os lucros dos proprietários com um novo apartamento disfarçado com supostas “linguagens contemporâneas”, saída conciliatória simplificada para o legislador que se vê obrigado a autorizar a solução que propõe uma ligação da modernidade com a história, a ilusão de uma intervenção ‘cuidadosa’ ou ‘suave’ quando não é.
A mansarda é vendida para o público em geral como equivalente a um “imaginário de luxo que lhes granjeia um notável sucesso”, quando, na verdade, é uma “moda maluca”, diz Cunha, citando Paulo Ferrero, do Fórum Cidadania. “É uma alteração da imagem da cidade, é uma nova moda de Paris”, diz. E cita também Eduardo Souto de Moura, que se referiu às fachadas amansardadas como “autênticas cabeleiras. Há arquitetos que se recusam a fazer e que perdem clientes, e há arquitetos que são indiferentes a isso”. Cunha defende que se tratem estas ampliações por meio de regulamentação. “São reformas produtos de pressão imobiliária, ataque aos edifícios de valor histórico. O fachadismo é uma forma de aproveitar capacidades construtivas, mas também é uma intervenção que exige que se distinga o que é novo do que é antigo. O caráter de Frankenstein deriva do fato de ser um edifício composto por partes novas e antigas.
Mosteiro de São Vicente de Fora
Deixo de pensar nos debates que meu apartamento encarna e passo a turistar. Visito o Mosteiro de São Vicente de Fora, este sim “mantém sua integridade e peso histórico”, penso. A tarde começa com uma caminhada, porque, quando se está no segundo dia em um novo país, a novidade grita. Chama atenção os tuk-tuks que cruzam as ruas às dezenas e disputam espaço e visibilidade entre si, coloridos ou com flores, e seus clientes que, sentados, conversam e ouvem as explicações do guia ou que só querem ver o tempo passar. Vejo a diferença de classes logo na entrada do Mosteiro: quem não paga tem acesso apenas ao ingresso ao início de seu interior, fica a dois metros de distância da nave central; quem paga o ingresso vê tudo, além de entrar na nave central e no mosteiro. Quer dizer, o ticket nos diz quem fica mais próximo ou distante de Deus, mas penso que isso contradiz a máxima católica de que ele é onipresente e onisciente. Por precaução, prefiro comprar ingresso e entrar no Mosteiro. Com seus túmulos e exposições, ele é organizado para valorizar a história eclesiástica dos seus mortos, mas o que chama a minha atenção é a dos azulejos em seu interior, que encantam os vivos.
O Mosteiro é um impressionante conjunto arquitetônico maneirista fundado em 1147 por Afonso Henriques, que fundou o Mosteiro, que é chamado “de fora” porque está situado fora das antigas muralhas. Contém dois claustros, uma imponente igreja com mármores, o panteão dos Bragança e um órgão histórico, além de funcionar atualmente como cúria patriarcal. Construído após a reconquista de Lisboa aos mouros, foi dedicado a São Vicente, padroeiro da cidade, e ocupado pela Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho até 1834. O prédio é um exemplo pioneiro do maneirismo em Portugal e seus dois claustros simétricos, que deveriam servir de espaços de meditação, servem agora para os turistas que tiram selfies. Eu não, eu olho as legendas dos azulejos com atenção. É uma das maiores e mais importantes coleções de azulejaria barroca do mundo conservada em seu lugar original: são cerca de 100.200 azulejos; não dá para passar correndo só para bater foto. No piso superior estão os azulejos que contam as fábulas de La Fontaine. São 38 painéis inspirados nas gravuras de Jean-Baptiste Oudry de 1755 e executados pelo pintor português Francisco Jorge da Costa entre 1770 e 1790. Passo pela cena da fábula “O velho e os seus filhos”, que é uma das peças mais emblemáticas da coleção e aborda a importância da união familiar. Ela conta a história do pai que sente a morte se aproximar e quer dar uma lição aos filhos com um feixe de varas. Nenhum consegue quebrar sozinho, e a moral é que, enquanto a família estiver junta, serão invencíveis.
Uma escola de azulejaria
Descubro por um painel que o padroeiro de Lisboa é São Vicente, o mesmo que dá nome ao bairro onde está meu apartamento, mesmo que, após, a região tenha sido também chamada de Santa Engrazia. Ambas as denominações são comuns. Aqui, os nomes não se perdem; ao contrário, se sobrepõem, mas em Porto Alegre ninguém lembra que o bairro Bom Fim era antigamente chamado de Colônia Africana. Aqui religião e política andam de mãos dadas; os religiosos têm uma conexão importante com Dom Henriques e o Papa Inocêncio XIII teve uma ligação com Portugal, onde serviu como núncio apostólico. Mas é a azulejaria que realmente chama atenção. Não dá só para bater foto: tem de parar para ler a etiqueta de cada um para saber do que se trata.
Descubro então que os azulejos foram feitos pela Real Fábrica de Cerâmica do Rato. Fundada em 1767, ela foi um marco da modernização industrial de Portugal, impulsionada pelo Marquês de Pombal, o mesmo que dá nome à praça e monumento onde meu ônibus de excursão irá me esperar daqui a dois dias. Ela transformou a produção de cerâmica no país, substituindo as olarias artesanais por métodos modernos e sofisticados. Seu objetivo era diminuir a dependência de importações e fomentar a economia de Portugal. Isso chamou minha atenção: era uma escola para formação de pintores e ceramistas portugueses. Produzia peças de grande qualidade, influenciada pela produção francesa e chinesa, e, após, foi pioneira na passagem do estilo rococó para o neoclássico. Ela produzia louça fina para as classes altas, bustos e estatuetas, mas são seus azulejos e suas histórias, muitas que desconheço, que me chamam mais a atenção do que o Panteão da Dinastia de Bragança, onde estão os reis. Talvez porque os painéis sejam fábulas e, portanto, voltados para a educação popular, enquanto o panteão trata das elites, e eu não gosto muito delas.
Azulejos que contam histórias
Olho essa arte dos azulejos e me recordo dos museus dos azulejos que visitava na infância em Porto Alegre com minha mãe, se por acaso um azulejo velho quebrasse e precisasse de outro igual. Voltei uma ou duas vezes a esses cemitérios de azulejos na idade adulta e bateu uma sensação de nostalgia que revivo agora. Em Porto Alegre, aqueles azulejos perdidos não carregam sentido, estão em pilhas, largados no chão em conjuntos conforme a imagem que carregam. Os azulejos do monastério em exposição, não. Se os túmulos do museu de São Vicente nos dizem que todos vamos para o mesmo lugar, mesmo os reis, os azulejos pintados na parede, diferentes dos das pilhas do chão dos museus de Porto Alegre, nos apontam para um futuro diferente desde que aprendamos suas lições.
Caminho um pouco mais e vejo o túmulo de Carlota Joaquina, também personagem do filme de Carla Camuratti. A personagem real, a que está enterrada diante de mim, é a personagem histórica Carlota Joaquina de Bourbon (1775–1830), uma mulher culta e politicamente ambiciosa. Ela foi educada na corte espanhola, estudou geografia, ciências, línguas, artes e história, era uma exímia cavaleira e não aceitava seu papel passivo de rainha. Ela viveu às turras com D. João VI e em palácios separados, além de tentar dar golpes de estado contra o marido. Ganhou o apelido de “Megera de Queluz” por sua oposição às ideias liberais e seu desejo incessante de retornar à Europa. Ela nunca se adaptou ao Brasil, vendo o país apenas como um local de exílio forçado. Dois taxistas me perguntaram se eu queria ficar em Lisboa. Eu olho o túmulo e pergunto: “Eu me adaptaria a Lisboa ou iria querer voltar ao Brasil?” Lá sou um opositor das ideias neoliberais, e elas estão em franca expansão em Lisboa. Tenho certeza de que, se houvesse uma pintura da rainha sobre o túmulo, seria com um leve sorriso que diria: “Eu avisei”. Penso nas semelhanças de destino e ideias, meu e da rainha, mesmo com os tempos que nos separam.
Continuo a visita. Vejo as roupas das autoridades eclesiásticas que, se podem estar desbotadas, ainda destacam ao seu lado os anéis de santidade. Lembro que eles sempre tiveram um lugar especial no cinema, representando o casamento da autoridade com a igreja e sendo beijados em sinal de respeito em inúmeros filmes. Russell Crowe usa seu anel eclesiástico em investigação, representando sua autoridade espiritual em O Exorcista do Papa, mas eu prefiro o anel de Tucum, que simboliza o compromisso com os pobres usado pelos padres da Teologia da Libertação. Estou no teto do prédio, onde tiro minha melhor foto, embora tenha que retirar um cinto com IA. É que aqui vejo Lisboa em 360 graus, e é uma cidade que impressiona. Almoço uma massa com sardinha e, embora esse prato seja algo que eu comi muitas vezes na infância, com as famosas sardinhas Coqueiro, aqui ele adquire um sabor especial, provavelmente devido ao azeite de oliva que o acompanha, o qual era caro na minha infância e, por isso, não estava presente em casa. Eu não tenho uma memória do sabor do óleo de oliva na minha infância. Toda criança lisboeta tem. Isso é ser estrangeiro numa terra estranha.
O mundo passa por Baga Baga
Parada para o primeiro pastel de nata e café. Estamos no Baga Baga, um café e pastelaria situado no coração do Largo da Graça (nº 108) e ponto de encontro tradicional entre os moradores locais e os turistas que visitam o bairro. É uma opção mais autêntica e familiar, frequentemente vista como uma alternativa às grandes cadeias de padarias modernas da região, com doces tradicionais da doçaria portuguesa, de fabricação própria e artesanal. Vejo a cozinheira que espia pela janela a freguesia. Ela quer saber se estão gostando de seus pratos. Queria dizer a ela que são muito bons e que ali também almoçaremos nos próximos dias, mas ela logo volta para seu trabalho. Pode-se ver de sua entrada o Largo da Graça, observar o movimento do bairro e a passagem do Elétrico 28. Falarei dele adiante. Gosto daqui pelo seu estilo conservador; tem uma imagem de bonde no seu interior e frequentadores e atendentes se conhecem e travam uma conversa ligeira e cheia de risos. É ideal para parar no caminho para o Miradouro Nossa Senhora do Monte. No Baga Baga, ainda vejo idosos trabalhando no balcão, como os das lojas e dos mercados próximos, enquanto jovens turisteiam. Vejo uma jovem mãe islâmica com sua criança e, na caminhada de retorno, observo mães de várias origens passando por uma farmácia onde a caixa de Aspirina custa oito euros. Chego em casa, levo o lixo para os contêineres da esquina, mas alguém, bem apresentado, já o está reciclando. É, de novo, um senhor de idade. Volto ao quiosque da esquina para procurar um vinho bom para beber à noite em casa. Aqui o vinho é barato e, com dois euros, se toma um muito bom. À noite vamos ao restaurante Tapas 129. Boa conversa. Bom vinho. Ótimo bacalhau. Qual é o primeiro prato autêntico? A dona é uma brasileira, que diz que, quando pode, volta ao Brasil para ver sua família, mas que construiu sua vida em Lisboa. Com uma garrafa de vinho a 23 euros, posso imaginar que sim. Estou impressionado com a primeira grande constatação que faço enquanto olho pela janela do restaurante, um dos tantos cartazes pregados na janela contra a gentrificação: a cidade que teve tantos imigrantes acolhidos no Brasil é também a primeira a expulsar os seus moradores.
Terceiro dia. O quarto amanhece escuro e a região de São Vicente é silenciosa. Com isso, eu acordo mais tarde do que na cidade onde moro, Porto Alegre, onde os carros me despertam já às 6h da manhã. Agora são 8h30; eu e D. acordamos mais cedo do que ontem, quando às dez horas estávamos de pé, em parte em função do cansaço e acomodação ao fuso. Até você se organizar, já são 11 horas para iniciar a turistada. Isso se torna um hábito. Penso, parafraseando um slogan de uma marca famosa: atravessar o oceano apenas para ter um sono melhor pela manhã: isso não tem preço! O clima dos primeiros dois dias é úmido e há mais nebulosidade; o resto, maravilhosamente, é bom. Eu ligo a tevê pela manhã para ver as notícias e não esperava que fosse tão crítica a situação do país: crise da habitação, saúde, educação e ameaça de racionamento por causa da guerra. Olho a cidade de minha janela, como a imagem que ilustra este ensaio: como essa crise está aí se eu não a vejo de minha janela? Eu vejo só ruas que têm apartamentos simples, prédios muito similares entre si. Crise, onde estás?
Mirantes, não; miradouros
Iniciamos o passeio até aqueles lugares que têm os mais interessantes mirantes da cidade: o Miradouro da Graça e o de Santa Luzia. Estou neles só para apreciar a vista e só depois leio sua história. Chego no bairro da Graça por força do destino: este é um bairro operário, já gosto dele só por isso. Desenvolvido no século XIX, seu miradouro dá a visão panorâmica dos telhados dos prédios de Lisboa. Pode-se ver a Igreja da Graça e só depois é que leio que deveria ter visto o Senhor dos Passos, representação de Cristo carregando a cruz a caminho do calvário no seu interior. Lembro-me do professor Luís Roberto Lopes, que dizia que havia entrado na famosa catedral de Milão e não se deu conta de olhar para trás, onde estava um famoso detalhe arquitetônico, a rosácea. Coisas de turistas.
Vamos numa caminhada pela Rua da Graça até o Castelo de São Jorge. Antes, a observação da cidade do Miradouro de Santa Luzia dá outra vista de Alfama e do Rio Tejo. Dá para ver do miradouro a Cúpula de Santa Engrácia, a Igreja de Santo Estevão e as duas torres brancas de São Miguel. Há uma parede com azulejos pintados, em que um mostra a Praça do Comércio antes de sua destruição pelo terremoto. Este miradouro é mais agradável para estar; no da Graça, somos constantemente interrompidos pelas vendedoras ciganas que ameaçam nos amaldiçoar se não comprarmos algo delas. Além disso, nos sentimos um pouco intimidados por sermos apenas um casal, enquanto elas estão em um grande grupo, o que nos leva a sair do miradouro. Em Porto Alegre as ciganas não são assim: lembro-me delas em frente à Prefeitura e, porque ali é a Praça Montevideo, um espaço aberto, é mais fácil desviar delas; o miradouro, por ser fechado, não. É que as ciganas aqui são versadas na arte da guerra, também entendem de logística, diria Paul Virilio. Mas no miradouro de Santa Luzia isso não acontece.
Como no mosteiro, é grande o número de tuk-tuks que levam e trazem turistas alemães, franceses e ingleses. Eles foram introduzidos em 2011 pelo empresário Paulo Oliveira, que importou o primeiro veículo para sua empresa chamada Tuk Tuk Lisboa, que se adaptou muito bem às ladeiras de Alfama e Mouraria. O nome do veículo vem do ruído dos primeiros carros, mas hoje há muitos elétricos. Comuns na Tailândia e Índia, hoje são feitos em Santo Tirso, no norte de Portugal, e estima-se que existam mais de mil condutores hoje em Lisboa. Outros turistas chegam de Uber ou Bolt, mas eu prefiro mesmo é chegar a pé. Nesses lugares turísticos, há sempre uma igreja ao lado e alguém vendendo suco de frutas. Ao redor há muitas lojas de presentes para turistas, mas todas elas terminam vendendo as mesmas coisas: xícaras, camisas, bolsas e ímãs de geladeira. Em todos é escrito “Lisboa” ou “Portugal”, como se estivéssemos desesperados para trazer parte desta terra para casa, numa espécie de compensação por um dia eles terem levado nosso ouro; no entanto, isso ainda não seria uma boa forma de compensação, seria? Talvez isso seja apenas uma atualização dos primeiros conquistadores, que, com suas miçangas e espelhos, seduziram nossos indígenas; agora, essa sedução muda de lugar, por uma espécie de vingança dos explorados, está nas mãos dos… muçulmanos! Dou risos: nem os espelhinhos sobraram para os portugueses com a globalização…
O castelo de São Jorge
O castelo de São Jorge inicia na fila de seu ingresso. Penso mais uma vez: “Agora sim estou em um lugar histórico”. A fila é extensa como a sua história, até para os padrões portugueses. Após a reconquista de Lisboa dos mouros em 1147, o rei Afonso Henriques transformou o Castelo de São Jorge, a cidadela mourisca, na sua residência. Ele sofre reformas sucessivas: em 1511, Dom Manuel I ergue um palácio ainda mais luxuoso na Praça do Comércio e o castelo vira teatro, prisão e até depósito de armas. Fica em ruínas no terremoto de 1755 e descubro que, em 1938, António de Oliveira Salazar (1889–1970), o ditador que governou Portugal por 36 anos (1932–1968), promoveu uma reforma geral nas ruínas do Castelo. Ele foi líder do Estado Novo, um regime autoritário de direita, nacionalista e corporativista, que controlou a vida política e social do país até a Revolução dos Cravos. Estou em conflito: estou num castelo reformado por um anticomunista, enquanto sou um aspirante a comunista graças à obra de Slavoj Žižek. Nesse mundo de simulacros e simulações, como diz o filósofo Jean Baudrillard, descubro que não só o castelo renasce como um simulacro, mas também a própria morte de Salazar: após um acidente doméstico que o deixou incapacitado, ele passou a viver no seu palácio acreditando que ainda governava, com assessores mantendo a farsa e imprimindo jornais falsos apenas para ele até sua morte.
A reforma geral do castelo feita por Salazar reconstruiu as muradas medievais e acrescentou jardins e aves selvagens. Fico perplexo: descubro que o atual visual do castelo é uma invenção, não tinha nada de ameias perfeitas e torres altas. O que é original ficou do lado de fora, as ruas e prédios do bairro de Santa Cruz, junto ao castelo, mais próximos do passado do que ele próprio. São ruas estreitas e de pedra que se comprimem dentro das muralhas, e suas fachadas, algumas descascando, chamam a atenção, como a Rua do Chão da Feira, junto a uma das entradas do castelo. Ela deve o seu nome ao fato de ter sido o local onde se realizava uma feira semanal no século XIII. Acredita-se que ela era a avó da Feira da Ladra, que passou para o Rossio e outros locais até se fixar no Campo de Santa Clara. Chão: basta isso para se ter uma feira. E, junto à entrada de um castelo, era um lugar estratégico. Só em Lisboa pensaríamos em Chão de Feira: em Porto Alegre, precisamos de um lugar: Feira da Epatur, Feira do Bom Fim. Aqui o chão basta.
As voltas que o Google Maps dá
Levamos dez minutos para entrar no castelo. As ruas ao seu redor são tortuosas e cheias de turistas para a baixa temporada. O labirinto faz você se perder numa profusão de restaurantes e lojas, como se isso fosse feito para você nunca mais sair do eterno ciclo do consumo. É diferente da sensação de se perder no Mercado Público de Porto Alegre de minha infância, quando havia o quiosque central; hoje não há mais e sair dele rapidamente é fácil; no meu passado, não, pela falta de referências. Fomos almoçar em um restaurante que o Google nos indicou, mas que exigiu uma imensa volta, mesmo estando a poucos metros de onde estávamos se tivéssemos seguido outra direção. O Google é parceiro do capital que quer te desorientar. Logo em seguida, lá estávamos nós com peixe e batatas. Como os atendentes do café do dia anterior, são sempre pessoas idosas que ainda trabalham para jovens turistas para sobreviver. Esse povo não se aposenta?
Portugal passou por atualizações da idade mínima e valores para se aposentar. Hoje é com 66 anos e nove meses e com contribuição de no mínimo 15 anos. Graças a um acordo previdenciário, brasileiros em Lisboa podem se aposentar juntando seu tempo de contribuição ao período de trabalho em Portugal, mas os valores mínimos são escalonados na duração do tempo de contribuição. Você pode receber entre 341 e 493 euros, ainda que o valor médio, me diz a IA Perplexity, seja de 650 euros, bem abaixo do salário mínimo local, que é 920 euros. Para se ter uma ideia, um idoso para viver sozinho precisa de 1.900 a 2.300 euros. Agora eu entendo: é por isso que eles têm de trabalhar.
Um mundo em que velhos trabalham para os jovens
Nesse mundo de baixos salários, a divisão geracional mantém idosos no mercado trabalhando para pessoas que poderiam ser seus filhos. Vejo velhos trabalhando ao redor do Castelo de São Jorge, essa fortificação militar, sítio arqueológico e museu que é também um shopping a céu aberto. Ninguém parece se preocupar com os idosos que estão trabalhando ao seu redor, só com o que acontece no espaço em que passeiam pavões misteriosos. Fim do mistério, há uma avalanche de cliques. O garçom idoso continua seu trabalho enquanto as pessoas se preocupam mais com as aves que buscam se acasalar com fêmeas no pior lugar possível para sua… intimidade: diante de centenas de câmeras de celular! Para quem é idoso como eu, já é um desafio difícil, pois é um caminhar e caminhar. Imagine se tivesse de trabalhar. Eu e D. passamos pelas salas do museu do castelo e vimos o trabalho de reconstituição de louças no sítio arqueológico. Mas o pior está por vir: a caminhada de retorno para casa. São 1,3 km para serem percorridos em 25 minutos, mas isso não se confirma; é bem mais, porque você tem de parar para se recuperar. Passo no que fica no caminho, pois lá depois tem comida pronta.
Fim de mais um dia. Ninguém sairá hoje à noite por total impossibilidade física. Eu e minha esposa somos idosos. Privilegiados nesse mundo, pois temos uma aposentadoria digna. Aqui não. Vou buscar um Gelol para minha esposa pelas dores da caminhada do dia no joelho. Descubro que não existe o produto em Lisboa, só seu similar, o Bálsamo Basi. Lisboa, na região em que estou, cheia de idosos, não conhece a febre das farmácias São João. Para encontrar uma farmácia aberta, preciso percorrer mais 1,3 km. É domingo e há muitas fechadas. Nesse espaço, em Porto Alegre, já teria encontrado dez farmácias. Chego em outro bairro, o da Penha. O estilo arquitetônico se esforça para se preservar, mas não tem jeito, há prédios com novas formas, mais modernas. Fotografo o que vejo: as duas torres, os manifestos estudantis. Estou em uma outra região. Mas os pareceres parecem ser os mesmos: a eterna luta pela sobrevivência em uma cidade que já cedeu tudo ao capital. Trago o bálsamo Basi para casa, pois amanhã é outro dia de caminhadas.
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