
Fico, às vezes, imaginando o que diriam nossos “epistemólogos do sul”, os “decoloniais” e “descoloniais”, os militantes das culturas identitárias se tomassem conhecimento de algumas passagens da obra e da vida privada de Karl Marx (1818-1883), o maior teórico da revolução social e da emancipação dos oprimidos da sociedade capitalista.
O interessante é perceber que Marx, com sua teoria da ideologia, mostrou como se dão as formas de dominação de classe (a superestrutura ideológica), mais tarde desenvolvidas por Gramsci e por Althusser, e, no entanto, fora incapaz de perceber a si mesmo como um intelectual que foi CONTRA a sua época (sua função crítica) e, ao mesmo tempo, um homem DE sua época, quer dizer, como portador inconsciente de valores, hábitos, preconceitos…, o que mostra que toda ideologia, como “interpelação subjetiva” (Althusser), faz com que avaliemos a nós mesmos com os olhos fornecidos pelo próprio “corpus” ideológico!
Vejamos.
Quando Marx se casou com a filha de aristocratas da Renânia, Jenny Von Westphalen (1814-1881), ele recebeu como dote matrimonial uma… empregada doméstica (Helene Demuth) e, vejam, teve um filho “ilegítimo”(!) com ela e, sem poder revelar o fato, pediu a seu amigo Engels (1820-1895) que assumisse a criança. Engels o fez e o entregou para uma família adotiva londrina, mas o rapaz “ilegítimo” só veio saber muito tardiamente de quem era filho, e morreu em 1929, em Londres. Estava fundada uma corrente do marxismo chamada “Casa Grande & Senzala”!
Se o teórico da libertação operária se casou com uma aristocrata, Engels, seu amigo, que era filho de ricos capitalistas de Barmen e que tinham fábricas de tecido em Manchester (Inglaterra), casou-se com uma operária inglesa! Quer dizer, a mais-valia que saía de um lado entrava pelo outro, financiando a família Marx exilada, com o velho Marx em dificuldades financeiras e tendo uma obra (sobre a teoria da mais-valia!) por terminar.
Para ganhar algum dinheiro, Marx publicava artigos sobre economia e sociedade na “Gazeta Renana”. Uma coletânea desses artigos foi publicada em espanhol pela “Siglo XXI” e, ali, se pode ler Marx afirmando, no momento da Guerra dos EUA contra o México (em que os mexicanos perderam a Califórnia, o Novo México e o sul do Texas), que “povos que não têm história, não devem entrar na história!”!!!!! No mesmo diapasão, ele louva a dominação imperialista da Inglaterra sobre a Índia, sob o argumento “materialista histórico” de que, ao introduzir o capitalismo numa sociedade de castas, dava-se um passo no “progresso” histórico rumo ao Socialismo.
Mais um pouquinho. Quando Bakunin se opôs a Marx (na reunião que criaria a I° Internacional, em Berna), mostrando que a ideia de “estado proletário” não eliminava a dominação nem resolvia a questão da libertação social, Marx, percebendo a força que o anarquismo bakhuniniano poderia ter no interior do movimento operário, transferiu as reuniões para a Inglaterra, onde Bakunin era proibido de entrar!
Outra mais. Quando a filha de Marx, Laura, informou ao pai que estava se relacionando seriamente com o negro franco-cubano, Paul Lafargue (autor de “O Direito à Preguiça”), papai Marx escreve pra filha opondo-se duramente a essa “relação com um negro” (essa carta foi revelada por Millôr Fernandes num número da “Revista Opinião”, no final dos anos 70).
É muito interessante que nossos teóricos do “decolonial” – com suas epistemologias sulistas” – (aliás, a ideia geográfica de Norte e Sul é… europeia!) – não critiquem com seriedade e coragem o caráter eurocêntrico, vitoriano, colonial, racista, iluminista das teorias revolucionárias do século XIX. E, sobretudo, a visão de “partido revolucionário” do Leninismo, visão não apenas elitista (“a consciência de um processo inconsciente”), mas carregada de viés autoritário (o Stalinismo não é uma invenção da cabeça de Stalin, como mostrou Bernard Henri-Lévy em “A barbárie com rosto humano”).
É claro que isso não diminui nem desqualifica a obra de Marx: não se confunde “biografia” com “bibliografia”. Aliás, Heidegger foi nazista; Sartre apoiou o Stalinismo; Adorno negociou com os nazistas sua permanência na Alemanha (escondendo até seu nome, Wiesengrund!), mas é interessante observar como os processos de subjetivação, que nos fornecem as ferramentas para nos percebermos e perceber o mundo de uma determinada forma, são difíceis de se tornarem conscientes e, a partir disso, promover formas renovadas de ação moral ou política.
Ah, sim: o menino “ilegítimo” de Marx chamava-se Frederick Demuth (1852-1929).