
Gosto de palavras. Se eu não gostasse, imagino que eu teria muita dificuldade em me tornar leitora e escritora. Quando me deparo com um texto que traz uma única palavra que não conheço, sinto uma espécie de fé de que continuaremos, apesar de todos os tipos de violência humana, nos distanciando das cavernas e da guerra do fogo e nos aprimorando como seres racionais, inteligentes e sensíveis, porque as palavras nunca são em vão, sempre dão nome a algo, não importa se concreto ou abstrato, que nos afeta. No meu caso, muito, porque as levo a sério, algumas mais que outras porque traduzem ideias e, como elas, é claro, alcançam dimensões distintas.
O peso das palavras está diretamente ligado a seus significados e ao que eles podem fazer conosco para o bem e para o mal. Na semana passada, escrevi sobre deslealdade, um vocábulo a serviço da indiferença e da dor. Gente desleal machuca. Dependendo do tipo de vínculo e do contexto, de um modo bastante agressivo. Deslealdade é uma agressão. Logo, ela deveria desencadear arrependimento e remorso em quem a pratica, mas costuma desencadeá-los apenas nas pessoas mais lúcidas e menos egocêntricas, portanto menos propensas a cometê-la. Não as excluo, apesar de mais virtuosas, de se distanciarem também da lealdade, porque estamos todos sujeitos a falhar. Falhar em tudo e até com o que é e quem nos é precioso, o que, de maneira nenhuma, nos isenta do vasto mundo das consequências.
Se tem um setor com alta potência criativa, é o das consequências. Raramente, alguém tem controle sobre elas. Na deslealdade cometida pelos homens, além da quebra de confiança nas relações, acontece um expressivo abalo na autoestima das mulheres e em como elas passam a perceber o poder de atração de seus corpos a partir dos recortes de imagem das que se envolveram, de modo superficial ou não, com seus parceiros, comparando-se a elas, julgando-se por elas. Eu não tinha considerado ainda essa perspectiva. Comecei a pensar sobre ela depois de ter recebido uma mensagem, da jornalista Lary Freitas, sobre o meu texto A Deslealdade na Era das Redes Sociais. Lary tem o saudável hábito de conversar com amigas de diversas idades e de diferentes classes sociais sobre as dinâmicas que movem os relacionamentos, ou quase relacionamentos, por meio das redes sociais e o impacto sobre todas elas.
De acordo com ela, opinião que compartilho, não é que nós, as mulheres, não sejamos desleais, mas, de modo geral, não cometemos deslealdades simplesmente para alimentar nossos egos e marcar um território de poder, esquecendo-nos de quem está conosco. Mulheres traem por insatisfação de inúmeras ordens, quase sempre quando estão se sentindo negligenciadas e maltratadas e conhecem alguém que lhes dá atenção, afeto e valor. Claro que as de personalidade preponderantemente narcisista corrompem essa quase regra de maior lealdade. Há mulheres, solteiras ou não, que sentem a necessidade insaciável de testar o seu poder de sedução, intrometendo-se entre casais, assediando os homens e desprezando os sentimentos da mulher que está sendo traída e magoada. Desumanizando as outras como o diabo e o sexista sistema patriarcal gostam. A turma das ligeiras, como um de meus melhores amigos chama.
Eu chamo de predadoras – pessoas feias, sujas e destrutivas como o Oitavo Passageiro, ainda que por fora se encaixem, como peças de Lego, no limitado e perigoso conceito de uma boa aparência. Não é difícil detectá-las. Uma hora dessas vou escrever uma lista ou um pequeno manual com simples, mas eficientes instruções de identificação das rodriguianas bonitinhas e ordinárias que povoam a nem tão cinematográfica e virtual hipocrisia nossa de cada dia.