
Dois anos se passaram do maior desastre hidrometeorológico que a Capital, a Região Metropolitana de Porto Alegre, já viveu na sua história. E, para não cair no esquecimento da sociedade, dos governantes, enfim, de todo mundo que pode decidir o que fazer para não agravar ainda mais o contexto, há iniciativas que estão acontecendo que merecem ser saudadas. Para além daquelas que os governos dizem fazer, coletivos, organizações e a academia também têm empregado esforços para que saibamos lidar com aquele trágico momento que pode se repetir.
Em maio de 2024, fui obrigada a deixar meu apartamento, junto com minha tia idosa, que resistia em sair de sua casa, porque estava cercada de água por todos os lados. Uma situação que ninguém, jamais, em sã consciência, imaginaria acontecer. Pois é. Aconteceu. E, pior, parece que tem tomador de decisão e vereador que ignora o quanto o plano diretor de uma cidade se relaciona com a vulnerabilidade.
Acredito que, para lidar com tantas questões que afloram devido àquela experiência, é necessário buscar formas de ressignificação. E, uma delas, foi a realização da Segunda Caminhada das Flores, promovida pelo POA Inquieta. Ter-me juntado ao grupo que saiu do Paço Municipal e foi até o monumento Heróis Voluntários foi emocionante e um estímulo a reflexões.
No Paço, cantamos a música “Horizontes”, de Flavio Bica Rocha, eternizada na voz de Elaine Geissler, depois saímos em direção ao Gasômetro pela Avenida Mauá. Lá, o evento foi animado pela Mãe Bia, representante das Ilhas, uma das áreas mais suscetíveis à elevação das águas. Mãe Bia cantou várias músicas, acompanhada de um tocador de tambor, para chamar a atenção do quanto precisamos respeitar a natureza e a ancestralidade.
A função juntou gente de várias tribos para chamar a atenção do quanto tudo que vivemos naquele maio de 2024 requer novos jeitos de encarar o contexto. Vou citar algumas pessoas que estiveram no evento, para terem uma ideia da diversidade: Natália Soares, do Instituto Ecoa, uma ativista socioambiental que faz maravilhas com resíduos de tecidos e sombrinhas; Jorge Audy, superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS e do TECNOPUC; a artista Bárbara Benz, que levou suas flores de origami para o monumento; Marcelo Santos de Souza, patrão do CTG Gurizada Campeira, do Morro da Cruz; a médica e professora da Faculdade de Medicina da UFRGS Olga Falceto; além de vários integrantes do POA Inquieta, simpatizantes do movimento e a presença ilustre de um ciclista e um cadeirante.
André Furtado, articulador do POA Inquieta e um dos organizadores, diz que a iniciativa da caminhada está em construção, pois a ideia é que a cada ano mobilize mais adeptos. Saiba mais nessa matéria do Correio do Povo.
A memória transformada em arte

Mas nada como a arte para marcar o que significou o desastre. O artista que criou e confeccionou a obra Heróis Voluntários, Ricardo Cardoso, acompanhou o trajeto e participou da atividade promovida pelo POA Inquieta. Depois da elaboração dessa peça, ele foi contratado para fazer outras com a mesma temática. Fez um monumento para Canoas, semelhante, mas maior. E também fez um para a Brigada Militar, que está localizado no 15º Batalhão em Canoas.
Ele começou a trabalhar principalmente com chapas de ferro em 1994. Antes disso, tinha sido comerciante, fotógrafo, militar e securitário. Até que fez um curso na Espanha de forja medieval e foi se aperfeiçoando com o tempo. Ele hoje tem obras em Minas Gerais e São Paulo e realiza obras em aço e ferro para várias finalidades, como lustres para igrejas e esculturas para condomínios. Ele trabalha muito com restauração do patrimônio histórico, inclusive se dedicou bastante à recuperação de peças no MARGS. Ele também restaurou canhões usados pelos farrapos para o Museu Júlio de Castilhos.
Cardoso me contou que um dos seus incentivadores foi Chico Stockinger. O artista também tinha seu ateliê no bairro Vila Nova. “Ele foi um grande motivador. Lá por 91 ou 92, ele fez amizade com meus cachorros enquanto eu caminhava, mas eu não sabia quem ele era. Por conta disso, a gente acabou conversando e ele me perguntou o que eu fazia. Na época, eu fabricava kit de acessório pra lareira, lustre e abajur. Um dia, mostrei pra ele o que eu fazia e ele me disse: “Eu acho que tu tá perdendo tempo em fazer isso aqui. Por que tu não te dedicas a fazer um trabalho mais artístico? Teu trabalho tem um diferencial”. Só que eu não tinha nenhuma noção de como penetrar nesse mercado, tanto que demorei uns 15 anos para trabalhar como artista. Bem, depois dele me dizer isso é que eu fiquei sabendo quem ele era.”
O escultor Cardoso também trabalha como voluntário na Fase. Em 1999, instalou uma oficina para ensinar os menores que estão em medida socioeducativa a trabalhar com ferro. Ele conta orgulhoso que hoje um daqueles meninos que ele ensinou trabalha há anos junto com ele. O desastre serviu para muitas coisas, até para darmos visibilidade para a atuação de artistas como o Ricardo Cardoso.
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