
Algumas correntes teóricas em psicologia do desenvolvimento propuseram, por volta da segunda metade do século passado, que a moralidade, ou consciência moral, ou comportamento moral, evoluiria ao longo da infância e primeira etapa da adolescência em três grandes períodos: a fase da anomia, da ausência de regras ou limites comportamentais, e, portanto, de consciência de delito e a consequente culpa; a fase dos limites de origem externa, em que a então criança já se dá conta da existência de regras e limites, mas não hesita em desrespeitar tais limites, desde que “não haja ninguém olhando”; finalmente, a fase da instalação da moralidade de forma autônoma, fase da consciência e, portanto, da vivência de sentimentos como culpa e remorso.
Não sou daqueles velhotes que, aqui e ali, resmungam pelos cantos a perda de um lugar e tempo perdidos, em que tudo era melhor, da música popular tocada nas estações de rádio e vendida em discos de vinil das lojas especializadas, até o nível médio de vergonha na cara do chamado cidadão médio. Há quem ache que pioramos, e pioramos muito. Há quem recorde que, naqueles casos de antigamente em que um político de renome era pego com a boca na botija, a reação dos apoiadores e do político caído em desgraça tinha a dignidade de não negar o delito, mas buscar de certa forma compensá-lo aceitavelmente, em moeda moral: “Fulano rouba, mas faz!” – clamaram os apoiadores de Adhemar de Barros, governador de São Paulo e político, na década de 1950.
Eu não costumava ter essa postura de tiozão, na direção de “tudo piorou muito”. Avaliava não ter subsídios suficientes no sentido de concluir que antes era menos ruim, hoje tudo estaria pior. Avaliava.
Quando estive em visita às cidades japonesas de Tóquio e Hiroshima, anos atrás, fui convidado, com a gentileza inefável de meus anfitriões, a deixar meu par de tênis novinho, comprado para viagem, na porta dos pequenos hotéis onde pernoitei. Percebi estar diante de comportamento cultural milenar, em relação ao qual absolutamente não cabia manifestar preocupação em termos de recuperar o par de tênis na manhã seguinte. Ainda bem que mantive o sangue-frio transcultural, pois o par de tênis permaneceu em seu sacrossanto lugar, num pedaço de calçada pública, até minha partida. E nem havia a profusão de videocâmeras públicas na época. Em que portal de qual alojamento de qual cidade brasileira, pensei com meus botões, eu teria podido deixar um par de tênis quase novo e recuperá-los imexidos na manhã seguinte?
Sugeri acima que passei a cogitar que sim, pioramos nesse país, em termos de desenvolvimento moral. Pioramos muito. Os fatos recentes que não param de pipocar nos noticiários e redes sociais são mais estarrecedores que a cota habitual a que já estávamos habituados, para o dia a dia desse belo país. TRÊS aspectos chamam a atenção, notadamente quando pensamos nos Adhemar de Barros de antanho.
Primeiro, não se oferecem mais compensações dos larápios old-fashioned, do tipo já mencionado do “rouba, mas faz”, “rouba, mas dá aos pobres” e seu correlato “rouba somente dos ricos”. O larápio contemporâneo flagrado prefere dar uma de doido e simplesmente negar a mancha de batom na cueca ou sacar o argumento surrado do “roubei, mas quem não?”
Segundo aspecto: pessoas supostamente “corretas” e “honestas”, destas que frequentam cultos religiosos e fazem doações suadas para ministros religiosos, e que inclusive creem de verdade que “Deus tudo vê”, essas pessoas dão seu jeito de entubar o batráquio moral e persistir indicando credibilidade e apoio para seu político corrupto de estimação. É espantosa, nesse contexto, a falta de escrúpulos dos malandros em tratar esses fiéis entubadores de batráquios como idiotas consumados (que de fato se comportam em conformidade).
Terceiro e último ponto: sinto que eu próprio estou cada vez menos propenso ao estarrecimento. Matérias fecais explodem nos ventiladores das redes sociais, autoridades de tribunais de contas (supostos guardiões do bem-fazer em gestão pública) seguem presos uns após os outros, senadores compram imóveis de alto padrão com carrinhos de mão de dinheiro vivo, oriundos de cafofos com seus colchões-cofre, ou ainda recebem somas astronômicas para realizações cinematográficas, dinheiro oriundo de bancos podres, com gestor principal encarcerado.
Penso numa questão de pesquisa: seria possível falar de algo como uma calosidade moral, um embrutecimento decorrente da banalização inédita da safadeza estrutural?
Que alguém venha em meu socorro e me convença de que ainda há quem tenha regras internalizadas, vergonha na cara, capacidade de distinguir o público do privado. Pois, de forma inédita, ao longo dessa caminhada já razoavelmente longa, sinto-me entregando os pontos e dando a mão à palmatória, cada vez mais propenso a acreditar que entramos num tempo de retardo moral estrutural, em que predominam aqueles que não hesitarão em saquear as prateleiras do supermercado do bairro, caso se convençam de que as videocâmaras estão desligadas, o segurança acompanha jogo da Copa do Mundo, e mesmo Deus, que tudo vê, tudo perdoa, desde que seja azeitado por dízimo gordo.
Nessa bagaceira, quem e como vai votar nas eleições que se aproximam? Afinal, a república e a democracia valem infinitamente mais que pares de tênis de marca. E, diferentemente dos tênis em portais japoneses, nossa democracia corre seríssimos riscos nesses tempos de comprometimento do desenvolvimento moral.
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