
Aleksei Ivanovich é um jovem russo de 25 anos, de formação sofisticada, raízes tártaras e pertencente a uma aristocracia empobrecida e decadente. Culto, mas sem rendas ou posses, ele se sustenta como preceptor de Micha (Mikhail) e Nádienka (Nadejda), casal de filhos do general Zagorianski, um viúvo que viaja pela Europa acompanhado de uma peculiar comitiva, mantendo seu status na base da gastança irresponsável comum entre nobres russos na Europa Central. Quando começa a narrativa do romance O jogador (ou Um jogador, na tradução de Boris Schnaiderman), Aleksei, o General e sua entourage estão instalados em um hotel luxuoso na fictícia cidade alemã de Roletenburgo, espécie de Riviera germânica fictícia, balneário de águas termais em que os cassinos são tão presentes quanto as estações de banho.
O voluntarioso Aleksei é apaixonado, declaradamente, pela enteada do general, Polina Alexandrovna, mas a relação entre ambos é estranha e repleta de arestas e confrontos. Polina é cortejada também por um inglês introvertido que se hospeda na mesma cidade, Mr. Astley, mas na verdade está interessada em um especulador francês, Des Grieux, um homem que se apresenta como conde ou marquês, mas cujo título é tão duvidoso quanto suas intenções. Des Grieux emprestou quantias exorbitantes ao descuidado Zagorianski, que agora tenta aplacar o credor oferecendo a garantia de pagar logo que puser a mão em uma herança substancial esperada com a morte de sua tia moribunda, residente em Moscou, Antonida Vassilievna Tarassevitcha, dona de grande fortuna e amplas extensões de terra. Ao mesmo tempo, o General também encaminha o noivado com uma francesa de comportamento coquete e vulgar chamada Mademoiselle Blanche, que é de algum modo aparentada com Des Grieux.
O comportamento desafiador de Aleksei é uma forma de enfrentar um profundo sentimento de inferioridade. Os franceses Des Grieux e Blanche, sabendo que é um mero tutor a serviço do General, não só não o respeitam como por vezes o insultam, e seu envolvimento volátil com Polina o faz ser tomado regularmente por transportes de sentimentos contraditórios, ora quase rastejando e prometendo os mais insanos sacrifícios, ora afrontando-a.
“E, agora, mais uma vez, formulava a mim mesmo a pergunta: eu a amo? E, mais uma vez, não soube responder, ou melhor, pela centésima vez respondi que a odiava. Sim, ela me era odiosa. Havia momentos (mais precisamente, sempre que uma conversa nossa chegava ao fim) em que eu teria dado metade da minha vida para poder estrangulá-la! (…) E, no entanto, juro por tudo o que existe de sagrado que, se ela me tivesse realmente dito, no alto de Schlangenberg, o passeio da moda: “Atire-se de cabeça”, eu o faria no mesmo instante, e até mesmo com deleite”.
Missão
Logo no início do romance, Aleksei volta de uma viagem de duas semanas pela Europa para lidar com questões bancárias e obter dinheiro para os gastos insustentáveis da comitiva – incluindo aí a penhora de algumas joias de Polina. Ao ver que a quantia obtida era menor do que suas expectativas, a jovem atribuiu a ele uma missão que será crucial para a trama do livro: ganhar na roleta o mais alto valor que puder obter:
“Ouça e não esqueça: tome estes setecentos florins e vá jogar, ganhe para mim na roleta o mais que puder; no momento, preciso urgentemente de dinheiro.”
Quando entra no cassino para obter o dinheiro de que Polina precisa, Aleksei declara que aquela será a primeira vez que jogará na roleta. Ao mesmo tempo, no capítulo anterior, uma constrangedora confrontação entre ele e o general já leva a crer que, embora nunca tenha apostado num cassino, havia já indícios de predisposição do jovem ao jogo desenfreado (que, lembremos, incluiria nesse mundo aristocrático retratado no romance não apenas competições esportivas como o turfe, como também frequentes partidas de alguma modalidade de baralho em salões elegantes). Ele ganha a ponto de aumentar em oito vezes o dinheiro que Polina havia passado, mas à noite entrega o butim à jovem e diz que não jogará mais em nome dela – como todo apostador, Aleksei se torna supersticioso quando o assunto é jogo, e não quer “gastar” sua sorte jogando para outra pessoa.
Estão lançadas as bases para que Aleksei se veja capturado pelo vício na roleta, o que o transformará no “jogador” do título, levando suas relações à ruína (embora a narrativa deste romance, publicado por Fiódor Dostoiévski [1821 – 1881] em 1866, seja complexa o bastante para que saibamos que parte desse descarrilamento social vivido pelo personagem se deve também a seus equívocos não apenas nas roletas dos cassinos, mas no próprio trato com os demais, especialmente Polina).
O Jogador é frequentemente tratado como um trabalho “menor” na monumental obra de Dostoiévski – até mesmo em termos de comparação, foi publicado no mesmíssimo ano de 1866, em que Dostoiévski também concluiu Crime e castigo. No entanto, O Jogador carrega consigo uma distinção difícil de apagar ou superar: é um dos momentos em que a arte foi mais eloquente em capturar o impulso irresistível que leva um jogador a seguir apostando até perder tudo.
Um tema constante
Esse, aliás, foi um tema bastante presente no grande romance realista europeu do século XIX. O próprio O jogador, em que pese seu caráter maiúsculo ao tratar do tema e no fato de ser parcialmente calcado no vício em jogo que acometia o próprio Dostoiévski, também é inspirado em parte em um clássico russo anterior, A dama de espadas, publicado em 1833 por Alexander Pushkin (escritor que Dostoiévski reverenciava), sobre um oficial russo obcecado em obter de uma velha condessa o segredo de como perdeu quase tudo no jogo, mas conseguiu reverter os danos apostando numa sequência deliberada e infalível.
Outros autores do grande romance europeu fariam do jogo temática central ou, no mínimo, parte importante do desenvolvimento da trama. Um exemplo é Balzac em Um conchego de solteirão (1841), romance no qual o vício do militar Filipe Bridau é um dos motivos pelos quais o personagem luta com tanto afinco pela futura herança de um tio solteirão. Outro exemplo é Dickens em A loja de antiguidades, texto no qual parte importante da trama é posta em marcha devido à frequência com que o avô nunca nomeado da jovem protagonista Nell recorre ao jogo para tentar amealhar dinheiro o bastante para deixar de herança para sua neta órfã de pai e mãe – o que o velho consegue, na prática, é precipitar o despejo dele e da neta devido às dívidas contraídas com o inescrupuloso vilão da trama, o maléfico Quilp.
Me vem à mente, enquanto escrevo este texto, que o grande realismo do século XIX, apesar de não mais abarcar em totalidade um mundo como o de hoje, sabia encarar uma realidade essencial que, nas últimas décadas, ficou de fora das páginas de muitos livros recentes: a vida, na sociedade em que se vive hoje, necessita de dinheiro, e sua falta é um elemento de tamanha importância que vai ser o foco principal de qualquer conflito.
No Brasil
O mais próximo que tivemos de um Jogador aqui no Brasil é o conto de Machado de Assis O jogo do bicho (1904), no qual o maior escritor brasileiro relata o drama de Camilo, contador que, viciado na então recém-criada modalidade de apostas, começa a perder mais dinheiro do que pode sustentar, comprometendo também seu recente casamento com a dedicada Joaninha. Enquanto ele insiste em tentar amealhar fortuna no jogo, ela precisa se dedicar cada vez mais a serviços para ajudar a fechar as contas do mês. Até que, ao final, após adotar uma estratégia arriscada de apostar sempre no mesmo bicho até ganhar, Camilo é premiado e pede demissão – fica no ar uma certa ironia tipicamente machadiana, já que os ganhos de Camilo na aposta premiada, embora tidos como significativos, representam, de fato, menos do que seu salário mensal, deixando no ar a resposta sobre o que será dele e de sua jovem esposa dali para diante.
Mas, sendo franco, não é como se o jogo e suas especificidades tivessem sido amplamente abordadas em ficções brasileiras – afinal, o jogo de azar é, em tese, proibido em todo o território nacional desde 1946 (na prática, como comentei neste texto, não é bem assim), o que mandou as suas aparições na literatura nacional para o pano de fundo da malandragem e do submundo. Tendo escrito muito sobre sinuca, por exemplo, João Antônio também abordou o quanto o jogo como estratégia de sobrevivência e modo de vida na marginalidade pode ser uma amarga desilusão – sua obra-prima nesse sentido é Malagueta, Perus e Bacanaço, um dos melhores contos brasileiros de todos os tempos.
O jogo do bicho, que era uma novidade em Machado de Assis no início do século XX, já está plenamente consolidado em 1979, quando Dias Gomes o transforma no pano de fundo de sua peça O rei de Ramos, uma espécie de Romeu e Julieta na marginalidade carioca. Dois amigos, Mirandão e Brilhantina, previamente empregados de um bicheiro, montam banca própria no Rio e, mais tarde, entram em conflito, tornando-se mais do que rivais, inimigos. Um ódio que não vai impedir um romance trágico entre os filhos de ambos, Marco e Taís.
Era isso e mais um ou outro exemplar esparso aqui e ali. Alguns poderiam dizer que o fato de o jogo ser clandestino não abre muito mais potencialidades, mas vivemos hoje um momento que ainda carece de melhor tradução literária: uma realidade em que a desregulamentação e o jogo de interesses permitiram às casas de apostas digitais, as chamadas “bets”, sequestrar aspectos inteiros da sociedade.
O gordo abobado e as odds
Sim, vocês adivinharam, o pretexto para esta coluna tem sido a minha angustiante rotina de acompanhar os jogos da Copa pela transmissão da incensada Cazé TV e me horrorizar a cada intervalo com o quanto o patrocínio das apostas online está enraizado no formato mesmo da transmissão. O lento estrangulamento do esporte nas mãos das bets já se faz presente há quase uma década, mas se intensificou de tal modo nestes anos 2020 que hoje muitos submissos sem imaginação já não conseguem conceber o jornalismo esportivo sem elas. Elas não estão mais apenas nas tapadeiras que aparecem atrás dos jogadores nas entrevistas ou nos painéis de LED que alternam publicidade à beira dos gramados. Não são mais apenas o tema de comerciais estrelados por jogadores, dos ex-campeões do Mundo a atletas em plena atividade. Não são apenas inserções comerciais de 30 segundos lidas por apresentadores. São, claro, tudo isso, mas são também indicações de “odds” e potenciais apostas feitas pelos próprios comentaristas e apresentadores durante a transmissão e seus hoje inúmeros intervalos comerciais. Algo que não é necessariamente ilegal, mas abre um novo patamar no fosso ético do jornalismo/entretenimento nacional.
Tudo o que gira em torno desse universo das bets é sinistro e prejudicial. Para cada ganho não muito substancial, os influenciadores que fazem a propaganda dessa coisa ganham ainda mais. Aliás, quem anuncia e providencia seu próprio “link”, como é comum nas redes sociais, tem a chance de ganhar a cada vez que um otário que usar o link perder. É uma calamidade social borbulhando sob a superfície de um discurso que naturaliza a coisa toda de um modo irresponsável, inclusive naquela que se considera a “grande fiscal” da sociedade, a grande imprensa, hoje também deitada em berço esplêndido no leito de cabaré deste grande cassino online.
Fora os estragos nas vidas de pessoas comuns, apostadoras que se veem no mesmo precipício que Dostoievski não só se viu como retratou há 160 anos.
Tratamento literário
É uma realidade que, no Brasil, ainda aguarda seu grande romance – o que tivemos de mais próximo é “Jogos Imperfeitos”, romance de Tailor Diniz sobre o mundo do futebol e as apostas online. As linhas da narrativa se distribuem entre três focos em volta dos quais giram outras pontas da história. O primeiro é o do jogador de futebol Tiarles Vega, zagueiro no clube Real Lami, numa cidade não nominada, mas localizada no Sul do Brasil, por pistas óbvias semeadas pela narrativa. Com despesas inesperadas envolvendo a saúde do filho e do pai, o jogador, potencial destaque em ascensão, é convencido a cometer um pênalti durante uma partida, numa determinada janela de tempo específica, mas não cumpre o combinado e passa a ser alvo da pressão da quadrilha que fez a proposta.
O segundo foco é o dos radialistas participantes de uma mesa-redonda de futebol transmitida alternadamente em canais online ou nos microfones de uma fictícia Rádio Meridional. Com a promiscuidade assombrosa já mencionada na imprensa tradicional e nesse “novo modelo” da Cazé TV, que muitos, inclusive figuras equivocadas de esquerda, defendem só porque o gordo abobado “não é a Globo”, os mesmos locutores e comentaristas que fazem análise de jogo e performances de jogadores anunciam o site de apostas que patrocina o programa, incentivando seus ouvintes a fazerem suas apostas (ou a “prognosticarem”, na linguagem do livro) como uma forma divertida de “terminar a rodada com um dim-dim no bolso pra pagar o churrasco”.
O terceiro foco é a atuação da delegada Maria Tereza e de sua equipe de investigação, tentando desvendar um caso aparentemente sem relação: a morte violenta do jogador Charlinho Sampaio, de outro clube fictício chamado Estudantes da Serra. Charlinho é morto com sinais claros de execução e sua namorada é atacada e violentada por homens que a advertem a fazer silêncio. Ainda assim, em pânico, ela procura a delegada e coloca a polícia na pista de uma trama que envolve a morte de Charlinho em uma conspiração de apostas ilegais. Com o desenrolar da narrativa, as três tramas vão se encontrar.
É uma narrativa que cruza elementos de narrativa policial, gênero no qual Tailor é especialista, mas secundários ao aspecto central da narrativa: a sátira à promiscuidade entre a imprensa esportiva e os sites de apostas, às discussões vazias, aos egos inflados, aos trâmites éticos pouco transparentes do universo da imprensa esportiva em sua relação com dirigentes de clubes e sites de apostas.
O núcleo emocional da história se dá no drama de Tiarles e seu entorno familiar, amplificado pela culpa de suas escolhas erradas. A investigação, por lidar com um tema no qual vários aspectos precisam ser processados “fora de cena”, em laboratórios online e requisições judiciais de documentos, é a linha menos presente até as inevitáveis explicações finais. Ainda não é, contudo, o grande romance sobre o tema, porque aqui o escopo da premissa precisa ser simplificado e reduzido para que a narrativa se encerre com uma conclusão satisfatória aos moldes policiais. Na prática, o negócio das bets é um monstro de tentáculos tão amplos que seu combate, mesmo nas circunstâncias narradas na história, teria que passar de algum modo pela Polícia Federal, e não ficar restrito a uma divisão de polícia local. Assim, para conveniência da história, a própria “bet” retratada no livro é uma empresa local situada no mesmo Estado.
Falta ainda, no entanto, uma nova obra que se debruce sobre o estrago social dessa pandemia pelo lado de “um jogador” – não o do campo, mas o da roleta online.
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