
Acordamos muito cedo. Nosso ônibus sai da Praça Marques do Pombal às 8h30, mas, considerando tempo para tomar café, se arrumar, chamar o transporte de aplicativo, é um dos raros momentos em que acordamos às 6h. Ainda está escuro e silencioso pelas ruas junto ao nosso apartamento de plataforma em Lisboa. Acordamos cedo pelo medo de perder o ônibus da excursão. Contratamos na noite anterior e ficamos surpresos que ainda havia vagas. Eu peguei um panfleto da empresa Living Tours no Cais do Sodré. A vantagem de pegar a papelada nos guichês de auxílio ao turista é que, mesmo que você não faça passeio algum, você ainda fica com um bom mapa do centro da cidade, que é o que tais guias têm em comum. Contratamos dois passeios com eles. O primeiro é de 9 horas de duração e incluía Estoril, Cascais e Sintra. O segundo incluía Fátima, Batalha, Óbidos e uma tour em Nazaré, com dez horas de duração. Ambos, portanto, passeios de dia inteiro. Ambos, com opção de almoço contratado. Ambos, nosso primeiro teste de turismo de massa em ônibus. No primeiro contratamos almoço; depois nos arrependemos e não contratamos mais. É baixa temporada; mesmo assim, nosso ônibus sai cedo e lotado. Devemos ter sido os últimos a adquirir de véspera, pois, quando chegamos, o ônibus lota.
A vantagem de excursões é terem uma guia bilíngue. O inglês predomina; somos dos poucos no ônibus que falam a língua portuguesa. Partimos. Vamos pela autoestrada A5, que lembra a nossa BR-116. Também chamada de Autoestrada da Costa do Estoril, ela liga Lisboa a Cascais, acompanhando a costa do litoral sul ao norte da área metropolitana de Lisboa. Ela começa no sopé da Serra de Monsanto, chamada de “pulmão de Lisboa”. Lembro das obras de Jean Baudrillard, da coleção Cool Memories, em que ele anotou o que viu em suas viagens pela América. Fez isso em quatro livros. Ele diz que podemos aprender muito nas viagens, só observando com atenção os lugares por onde passamos, sua fisionomia, sua paisagem. É assim aqui. Olho o Parque Monsanto, a principal vista que tenho do ônibus quando inicio a travessia da A5. Pesquiso e descubro que é uma floresta plantada, onde antes existia uma serra árida. Apesar do nome idêntico, não possui relações com a empresa multinacional Monsanto (atualmente parte da Bayer), alvo de ativistas e que ficou famosa pela fabricação do agente laranja, usado na guerra do Vietnã. É bom pesquisar antes de falar besteira aqui, pois jurava que era um investimento compensatório dela, quando não é. A Bayer continua nos devendo. Estamos seguindo por Oeiras, pela zona balnear de Carcavelos, e passamos por Estoril.
Olhando pela janela do ônibus
Da janela do ônibus, olho agora para Oeiras. A cidade é uma vila e município situado na área metropolitana de Lisboa. Zona rica e desenvolvida, é também conhecida como Riviera Portuguesa, e está a meio caminho de Cascais. Vejo seu Hub Tecnológico, com escritórios de empresas como Google, Nestlé, Samsung, Pfizer e L’Oréal. O tempo está muito bom, com bastante sol, como tem sido nesses dias. A cidade é criação do Marquês de Pombal, também chamado de 1.º Conde de Oeiras. Mas ainda passamos a distância, sem entrar. É que este passeio é centrado em quatro pontos turísticos principais: o Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa continental, que oferece vistas do Oceano Atlântico; a Boca do Inferno, a formação de falésias naturais junto ao mar; e Sintra, a cidade histórica e romântica perto de Lisboa, famosa pelos seus palácios, como o Palácio da Pena. Você não visita cidades; visita pontos turísticos, ruínas. É o turismo de massa redesenhando a geografia.
Temos azar: nosso ônibus enfrenta uma tranqueira que atrasa em pelo menos uma hora a viagem. É como estar de volta à tranqueira que a BR-116 fazia em Esteio. Nossa guia pede paciência. Ela nos passa bastante informação ao longo do passeio, conhece detalhes da rota e seus prédios históricos, bem diferente do segundo guia, que eu via pesquisando na internet o que nos dizer ao longo da viagem. Deve ser difícil para a empresa achar bons guias de turismo, eu presumo. Eu pensava o contrário, já que o campo do turismo é central na economia do país. A diferença entre meus dois guias é gritante. O objetivo principal da viagem é Sintra, cidade famosa por suas plantações de cortiça, um produto caro porque leva nove anos para ser cultivado.
Um lugar definido por um verso
Mas antes passamos pelo Cabo da Roca, imortalizado por Luís de Camões em um verso de sua obra Os Lusíadas (1572), que se tornou o lema do local: “Onde a terra se acaba e o mar começa”. Bem, eu já falei para os meus quatro ou cinco leitores da Guarita 184, de Cidreira, e a citação bem que podia também ser a ela aplicada. Camões utiliza a metáfora da Europa como um corpo humano, em que Portugal ocupa o lugar de honra no topo, sendo o ponto mais ocidental. Hoje, eu vejo estas palavras gravadas numa placa de pedra no Cabo da Roca, assinalando o ponto onde os navegadores portugueses se lançaram ao desconhecido. Tive a mesma sensação junto à Torre de Belém; mesmo para se lançar ao desconhecido, é preciso um lugar. Eu também me lanço ao desconhecido, o do mundo do turismo de massa. Continuamos com mais tranqueira na viagem. E acidentes: numa curva apertada em uma cidade que não me lembro o nome, nosso ônibus quebra o visor de outro que vinha no sentido contrário. Pausa para telefonemas e comunicados. Há curvas demais nesse país, há ruas apertadas por todo o lugar, onde os veículos precisam passar com muito cálculo. Isso nunca faria sentido para Camões, para quem o trote do cavalo dava o ritmo da caminhada.
Chegamos a Sintra. Como eu a descreveria? Para mim, é a cidade escondida pelo Google. Olho no Google Maps onde estou e não me localizo em um mapa. Há apenas um grande círculo que oculta no mapa o lugar onde estou. Em São Vicente, onde estava alojado, ele aparecia também. Lá, o motivo que me disseram era porque ali existe um quartel militar. Agora, de novo, o círculo aparece ao meu redor. Agora, me explicam que é devido ao fato de que as ruas do centro histórico são tão pequenas que os carros do Google Maps não puderam filmar. Você está num trecho, olha o aplicativo, mas ele não aparece e eu fico perplexo, sem me dar conta de que isso também colabora com o turismo. Você precisa estar lá para ver e descobrir. Nada de Google Maps. Maravilha. Sim, sou um cético da tecnologia. Caminho pelas ruas livre de qualquer aparato tecnológico, mas minha sensação é que estou preso a outra coisa, a uma ideia de lugar: aqui é, na verdade, a Disneylândia portuguesa. Segundo a guia, ninguém mora mais no centro histórico porque a cidade foi tomada por turistas e apartamentos para aluguel em plataformas. Como em Lisboa, elas promovem a expulsão dos habitantes originais. Mas em Lisboa você ainda podia ver pregados nas sacadas cartazes que mostravam que os moradores resistiam a esse processo; aqui não. Não se vê circulação de ônibus ou carros, que param longe. É cidade, mas por que penso que é o seu fim?
A cidade como parque temático
Mais. Por que sinto que estou na Disneylândia se nunca fui lá? É que eu, graças à leitura de Baudrillard, tenho a exata ideia do que ela é: Sintra, como a Disney, não é uma cidade, é um parque temático medieval repleto de lojas e restaurantes. Eu vejo somente as placas de vidro indicando Airbnb e, vendo o movimento das ruas, imagino que deve ser impossível para qualquer um que alugue um imóvel ali dormir durante o dia. Vejo que o lugar, por outro lado, é a festa dos estudantes, que bebem pelas ruas e bares a qualquer hora do dia, como no centro histórico de Lisboa. Eu acho estranho, pois gosto de beber só à noite, com as refeições. Eu não bebo às 15h45. Eles bebem. Para mim, parece que quebram as regras do “bem beber.” Volto o olhar para meu grupo de excursão. Ele também é feito de pessoas que quebram combinações: algumas pessoas se atrasam para se encontrar no ônibus, outras vão para o lugar errado, outras deixam para ir ao banheiro só na hora de saída. Essa outra tribo esquisita das excursões é tão esquisita quanto a desses jovens que bebem espumante à luz do dia. Na saída, vejo detalhes da Casa do Preto, em Sintra, que depois descubro ser uma das pastelarias mais emblemáticas da região, outro ponto turístico que fica de fora pela correria. Fundada em 1931 por Carlos Almeida, é famosa pelas suas queijadas, consideradas por muitos as melhores da região, e pelos travesseiros. Por que o nome? Ele deriva de uma pequena estátua de madeira de um jovem negro (um “preto”) que o fundador, que era marceneiro, esculpiu e colocou à porta do estabelecimento para convidar os clientes a entrar.
Essa vila portuguesa de vielas românticas e palácios deslumbrantes como Pena e Regaleira combina com a paisagem natural de sua serra. A história de Sintra remonta à época dos mouros e celtas, o que já justifica ela ser Patrimônio Mundial da UNESCO. Mas eu continuo pensando nesse turismo de massa que seus ícones impulsionam, esse movimento humano no centro histórico que nunca seria visto na época dos mouros; até porque, como uma cidade militarmente importante poderia sobreviver com tanta gente para proteger? Há aqui um Castelo dos Mouros do século X que não visitei, porque não estava no roteiro. É verdade que ele exigia uma caminhada morro acima a pé e, sendo os integrantes da excursão, na maioria, idosos, seria ruim. Eu o via à distância e me lembrava do Castelo de São Jorge, em Lisboa, que já visitei. A guia nos enfatiza o papel da cidade na reconquista de 1147, quando se tornou refúgio de verão da realeza portuguesa devido ao seu clima ameno e paisagens exuberantes. Na cidade, seus destaques, tanto o Parque e Palácio Nacional da Pena, de estilo romântico, quanto a Quinta da Regaleira, com elementos místicos, dividem no imaginário um lugar com o Palácio Nacional de Sintra, de grande valor histórico. Nesses lugares turísticos, para os turistas, só interessa fotografar e comer; daí sua gastronomia exuberante. Somos incentivados a comer, por onde estamos em Lisboa, os famosos “Travesseiros”. Aqui, o famoso é o da Piriquita, o mesmo nome do vinho famoso. Ele tem o formato retangular, o que lhe dá origem ao nome, feito de massa folheada e recheio de creme de ovos e amêndoas. A casa Periquita foi fundada em 1862 e o doce foi criado na década de 1940. A casa deveria ser mais famosa, por antiguidade, mas é o doce.
O Palácio da Pena
O Palácio da Pena recebe milhares de turistas. Não é possível imaginar que, na baixa temporada, simplesmente não haja espaço para ir, que não haja alguém fotografando algo. Pois é, assim eu vi isso. Localizado no topo da serra de Sintra, o palácio é a máxima expressão do romantismo português. Antes de ser um ponto de turismo de massa, era um antigo mosteiro do século XVI transformado em palácio por D. Fernando II. Ao longo do tempo, foram sendo combinados na sua construção elementos dos estilos gótico, manuelino, mourisco e renascentista. Suas cores são vibrantes, seu interior possui um circuito de visitação em uma única direção que atravessa os aposentos reais e áreas comuns, preservados para refletir a vida da monarquia até 1910. Não sei por que, olho a fila que se segue para entrada e me lembro da famosa cena de Tempos Modernos (1936), que mostra Carlitos sofrendo com o ritmo frenético e repetitivo de uma fábrica fordista, apertando parafusos compulsivamente, sendo engolido pela máquina e satirizando assim a desumanização do trabalho industrial. Está tudo aqui no Palácio da Pena: a visitação repetitiva, em que os guias do Palácio precisam repetir sem nunca terminar onde entrar ou não, como se estivessem numa esteira humana; a passagem dos grupos e seus guias de forma rápida pelos espaços, como se estivessem em uma esteira de produção; como a máquina no filme que engole o homem, aqui é o ritmo do roteiro que engole o turista. Em ambos, há a perda intensa da individualidade; num, da revolução industrial, noutro, do turismo global capitalista.
Estou nesta espécie de esteira turística às avessas e entro no claustro manuelino quando vejo uma das partes originais do antigo mosteiro jerônimo, decorado com azulejos hispano-árabes. Passo à sala de jantar, localizada no antigo refeitório dos monges, e olho para cima para ver o teto em abóbada de nervuras; olho em minha frente a mesa posta com serviços de porcelana originais. Vejo as pinturas em trompe-l’œil (ilusão de ótica) da Sala de Visitas, termo que só vi pela primeira vez nos escritos de Jean Baudrillard sobre a sedução, e é exatamente isso que elas fazem: nos impressionam pela simulação de arquitetura das paredes. Chego aos aposentos reais, os quartos de D. Carlos I e da Rainha D. Amélia, vejo o gabinete de trabalho do rei e a casa de banho, a intimidade da realeza, hoje tornada pública. Passo ao Salão Nobre, uma sala mais grandiosa para recepções. Há, por todo o lado, um notável mobiliário de época, como móveis dos séculos XVII e XVIII, peças de influência indo-portuguesa, peças em alabastro, como o Retábulo da Capela, uma obra-prima renascentista de Nicolau Chanterene. Tanto no presente dos restaurantes como no passado das coleções de porcelana real, vemos que no centro da história está a alimentação: não são notáveis as peças de Sèvres e da Companhia das Índias espalhadas por várias salas? Eu vejo grupos correndo, tentando fazer um percurso de 2h30min em cerca de 40-60 minutos. É o que eu chamo de suicídio turístico. Eu já estou correndo em uma excursão, fazendo o mesmo percurso em 1h30. Nosso tempo é de aproximadamente 2h30 para tudo, tanto para o intervalo (tempo nosso) quanto para o passeio. Não é o melhor dos mundos, não.
Fotografar para recordações fake
Esses roteiros são feitos em massa, para milhões de turistas; são um overtourism que gera filas e lota as ruas. E aí vem a contradição: você queria estar nesses monumentos a sós, somente ele e você… para suas fotos! Impossível até bem pouco tempo. Depois da IA, não. Minha esposa está craque em IA: retira agora tudo o que estava ali em excesso: as pessoas! Resta somente nós e os monumentos. Sim, estou trapaceando com Walter Benjamin; não se trata nem da reprodução em massa que a fotografia possibilita, mas da adulteração pura e simples que eu posso fazer, graças à IA, com o registro real. Minhas recordações são fake, como o próprio turismo já é fake, devido à indústria. Então, tudo bem. Tive sorte de ir em março; se fosse entre julho e agosto, seria pior, avisa a guia. No Palácio da Pena, o turismo chega a um grau máximo. Pudera. É uma das Sete Maravilhas de Portugal. Essa coisa de 7 maravilhas é assim: não são só 7, mas 14, já que há 7 do mundo antigo, como as Pirâmides de Gizé, única de pé, já que as demais, como o Colosso de Rodes, não existem mais, mas as 7 do mundo moderno, estas sim, que incluem não só a Grande Muralha da China, mas também o Cristo Redentor. Mas aí você descobre que Portugal fez o pulo do gato, fez sua própria lista de maravilhas na mesma época da eleição das maravilhas do mundo moderno, em 2007, e colocou nela o Palácio da Pena. Portugal foi mais rápido que o Brasil, que só fez sua lista de maravilhas no ano seguinte. Mais uma sacada turística, as maravilhas: você se obriga a conhecer cada uma delas.
Estou fora do Palácio da Pena, contemplando-o. Penso que é exatamente o simulacro do Castelo da Bela Adormecida, o símbolo da Disney que me acostumei a ver nos filmes e desenhos da infância. Um é real, é um palácio, e o outro é uma imagem criada para um parque temático. Mas a verdade é que o Palácio da Pena já se tornou um parque temático… de castelo, pela massa de pessoas que o visitam, igual ao castelo da Disney. Sim, eu mesmo misturo palácio e castelo, como bem já alertou André Fértil, meu ilustre colega colunista em Sler (disponível AQUI). O que fazer se o que temos é um sentimento de afeição por ambas as imagens Ambos se alimentam do romantismo do século XIX, movimento que é extremamente sedutor e acolhedor. Se o Palácio da Pena é o palácio real que se transformou em objeto turístico, é porque seu criador, o Rei D. Fernando II foi movido pelo mesmo sentimento de Walt Disney: o de materializar um cenário de contos de fadas na vida real. Já o Castelo da Disney é uma estrutura de fantasia, mas que é inspirada em um castelo real, o castelo de Neuschwanstein, na Alemanha, que, como o da Pena, também foi construído por um rei romântico, Luís II da Baviera.
A sociedade das sensações turísticas
Todos os signos ao redor de um palácio ou castelo são sedutores ao olhar. Vejo a mistura exuberante de estilos, chamada de Ecletismo, no Palácio da Pena, que vai do gótico português, passando pelo renascentista e neogótico. Diz a guia que o Palácio da Pena é conhecido pelo seu “caos organizado”, no qual se destacam suas cores vibrantes, como o amarelo e vermelho. Olho a descrição da guia e me lembro do diagnóstico da sociedade moderna proposto pelo filósofo Christoph Türcke em sua obra “Sociedade Excitada: Filosofia da Sensação”: esse palácio cai como uma luva para uma cultura dependente de choques sensoriais constantes para se sentir viva. Türcke é herdeiro da Teoria Crítica; para ele, a tecnologia e os meios audiovisuais transformaram a percepção humana, criando um ciclo de vício e anestesia. Esses monumentos nada têm a ver com tecnologia, mas são, enquanto tais, também anestesiantes com suas cores e passeios labirínticos. Cada cena que vejo no passeio é a repetição desse vício no choque; funciona como excitação aos sentidos que combatem meu tédio e sensação de vazio. São tantas alas, são tantos objetos para ver, que sou anestesiado como por excesso, já que o bombardeio de estímulos, tanto nas redes sociais como na aventura turística, também me leva à perda da sensibilidade. Como diz Turcke, para algo ser percebido, precisa ser espetacular, exatamente como o Palácio é. Por isso, o Palácio se torna signo de nossa compulsão ao registro: não basta visitá-lo, conhecer sua história, é preciso postar, comentar, aparecer no interior do castelo, ao lado de seus objetos, fotografar e dizer: “eu registrei”. Isso transforma a oportunidade da visita, de conhecer o passado, noutra coisa, na exigência de atendimento da performance nas redes, que garante que está conectado ao mundo onde fluem… sensações?
A guia nos mostra, antes de entrar, a fachada colorida de amarelo e vermelho e os detalhes arquitetônicos. Chegamos ao terraço da Rainha, onde temos vistas impressionantes sobre a Serra de Sintra e até Lisboa. Passamos ao terraço do Tritão com a famosa figura alegórico-mitológica do Tritão (metade homem, metade peixe), que simboliza a criação do mundo, para daí começarmos o circuito pelo interior do Palácio. A visita interior segue um sentido único, mostrando o luxo e a mistura de estilos da época. Corri para o Claustro Manuelino, a parte do antigo mosteiro que foi preservada, com azulejos hispano-árabes. Em seguida, passo pela Sala dos Veados, o antigo refeitório dos monges, decorado com cabeças de veado e pinturas murais. Daí passo pela Sala de Chá e Sala de Visitas, os aposentos da rainha com decoração detalhada. Estou chegando aos quartos reais: o primeiro é o do Rei D. Carlos é o segundo, o quarto de D. Amélia. De novo, no centro de qualquer lugar que se queira um lar: a cozinha. Ali vejo o esforço museológico que manteve os equipamentos da época, sendo um espaço de destaque.
O Palácio da Disney
Penso que minha caminhada pelo Palácio da Pena foi como se estivesse no Castelo da Disney, se um dia tivesse ido a ele. Não fui. Ambos são, na verdade, neogóticos, ainda que, como criação da mídia, este último seja idealizado. Mesmo o Palácio da Pena não é perfeito; o castelo da Disney é. Você vê texturas reais de pedra e azulejo na Pena, e, olhando pela televisão, tudo o que posso ver é que o castelo da Disney possui uma perspectiva forçada: é mais alto do que realmente deveria ser. É claro: olhar o Palácio da Pena em panorâmica é diferente de olhar o castelo da Disney na imagem da televisão; um está no topo de um rochedo, o da Disney, no platô, no centro de uma praça rodeada por caminhos pavimentados. Eu sei disso por pesquisa, pois, de novo, nunca fui lá. Estamos impressionados e fazemos fotos porque o palácio provoca sensações com suas cores quentes, com sua arquitetura realista, bem diferente do castelo da Disney, com seus tons de rosa, azul e dourado. Diz a IA Perplexity: “Essas cores foram escolhidas para contrastar com o céu da Califórnia/Flórida e evocar uma sensação de magia e suavidade.” Acredito que sim. Mas eis que me deparo com uma ideia: é que temos uma fantasia, queremos estar num castelo ou palácio de princesa porque queríamos um dia ser um… príncipe ou uma princesa! Qual é o mais próximo disso? O Palácio da Pena, que atende ao critério de autenticidade histórica, ou o castelo da Disney, por corresponder a uma estética visual consumida na infância? Talvez os turistas digam o certo, que o Palácio da Pena parece mais “Disney que a própria Disney”, frase que evoca de novo o pensamento de Baudrillard, mas pelos motivos errados, ou exatamente o que diz Fersil. Eles fazem a comparação pela sua imagem, enquanto o filósofo, pelo seu significado simbólico. É que, na verdade, o castelo ou palácio é o signo de algo.
Ambos os espaços reais foram construídos quase na mesma época. O Palácio da Pena é praticamente contemporâneo do Castelo Neuschwanstein, que inspirou Walt Disney. Ambos encarnam metaforicamente arquétipos que falam de nossa subjetividade. Eu entro no Palácio da Pena e faço seu itinerário não apenas como um passeio em uma obra arquitetônica, mas como se, por meio desse passeio, eu fizesse uma exploração de meu próprio interior. É o que diz a psicologia analítica de Carl Jung: o castelo ou palácio, como arquétipo, é sempre uma representação do Self ou alma. Explorar o interior de um castelo ou palácio tem paralelos com a exploração do mundo interior; é como se fosse um espelho dele: passar por suas salas é equivalente a passar por camadas de minha própria consciência. Mas eu gostaria que sair dele fosse o equivalente ao processo de individualização, como propõe Jung, o amadurecimento psíquico, mas eu só vejo mais uma multidão de jovens consumidores de internet quando saio. É isso que eu então sou?
Imagens de Castelo e Palácios
As imagens de um castelo nos fascinam porque são, de certa forma, o equivalente exato para o corpo humano. O castelo protege como a pele protege o corpo, e se há um rei a ser protegido em seu interior, há outro que a pessoa quer proteger: o seu próprio ego. Lembro do livro “Arquitetura e Psique: Um Estudo Psicanalítico de Como os Edifícios Impactam Nossas Vidas” (2021), da filósofa e acadêmica britânica Lucy Huskinson, que já citei por aqui em meus ensaios anteriores. Ela está preocupada com prédios contemporâneos e sua relação com a mente humana, usando a psicanálise para explicar como e por que somos afetados pelos espaços arquitetônicos modernos. Eu olho essas construções medievais da mesma forma: eu o vejo inspirando-me, estabelecendo uma metáfora da minha própria interioridade e, por isso, a hipótese de Huskinson, entendo, pode ser ali também aplicada. Esta arquitetura turística não é um cenário passivo, é um elemento ativo na transformação de nosso eu (self). Essas construções são esse “evento arquitetônico” de que fala a autora; ele promove uma experiência minha no espaço que une memória e inconsciente. Por isso ele evoca em mim lembranças. Eu me lembro então de como fui uma criança pobre e que via nos domingos o Programa Silvio Santos e seu quadro “Cinderela”, em que ele dava prêmios para crianças, meninas. Eu queria receber presentes também, como as bicicletas que ele dava às meninas, que ele chamava de “princesas”.
Dou-me conta, então, de que esse imaginário de fábula, esse conto de fadas, fez parte de alguma forma de meu inconsciente. Por isso, eles nos causam um bem-estar. Em algum momento de minha infância, eu quis ser um… príncipe! Pode a neuroarquitetura ser aplicada a… castelos? Nem faço ideia. No entanto, esses espaços possuem segredos, traumas e suas masmorras em muito lembram nossos desejos reprimidos, não? Se eu sou capaz de lembrar de fantasias infantis em um palácio, em um espaço físico, é porque a massa turística também pode. É que, com seus reis e rainhas, são lugares do narcisismo latente. Não é exatamente assim nossa sociedade das redes sociais? Eu, criança, queria ser um rei, mas era apenas mais uma criança pobre. Nunca fui escolhido por ninguém; inclusive, já disse aqui, fui rejeitado por meu próprio pai. Uma criança assim, sem uma infância, criada apenas pela mãe, mas dotada de um sentido heroico, projeta-se na fantasia. O turismo se alimenta dessa base; ele nos quer oferecer um castelo, um palácio, a vida de reis e rainhas que desejamos ser algum dia como objeto de consumo, o intervalo cotidiano em que podemos, na realidade moderna, estar em contato com uma fantasia do passado que fomos incapazes de realizar. Mas a realizamos agora em massa, aos milhares. Não sei o que é pior.
Retornar à realidade
A volta para Lisboa é tortuosa. Um homem ao meu lado dorme no ônibus. E eu não. Chegamos a Cascais, passamos pelo Cassino do Estoril, que inspira Ian Fleming a criar o agente James Bond. A guia explica que a razão é que ali era de fato um lugar onde agentes secretos se reuniam: de novo, agora, a sensação retorna: sim, um dia também eu desejei ser agente secreto. Mas isso é outra história. De longe vejo a placa do McDonald’s. Não tem jeito, mesmo em cenários de grandes histórias do passado, o presente consegue se manifestar.
Estou em casa. Quebrou uma peça da porta e me preocupo. A peça é um fecho de barra ou de espagnolette, muito comum em portas de varanda, janelas de madeira ou portas antigas destas mansardas. O anel serve como alavanca para girar a haste metálica, que sobe e desce, travando a porta nas extremidades. Sinto que esse acidente quer resumir a viagem: quando você vai a lugares como esse, alguma coisa se quebra. Pode ser uma fantasia, uma ideia infantil. Você não é mais quem era. Para o bem ou para o mal. Eu, de alguma forma, a minha fantasia de ser príncipe se transformou em objeto de consumo da indústria turística. E, se olhar, na Europa tem castelos para todo lado. A IA me diz que, perto do bairro de São Vicente, posso encontrar esse tipo de ferragem em lojas especializadas em material de construção, ferragens ou restauro. Mas não encontro nenhuma das opções ditas próximas que me ofereça exatamente como minha fantasia infantil: não há como os castelos ou palácios que visito suprirem seu lugar. O mundo precisa continuar.
Todos os textos de Jorge Barcellos estão AQUI.

