
As últimas três semanas, quer dizer, do primeiro turno das eleições, no dia 4 de outubro, até o último domingo, valeram por décadas. Não só pela intensidade, mas também como mais um teste para a nossa democracia tão frágil.
Há muito tempo não se via uma mobilização tão massiva e popular no campo progressista. Além disso, há tempos os estudantes não mostravam a sua força nas ruas. E, como a grande debutante desse campo, surge a mobilização do digital – através do comando de André Janones. Todo esse movimento, orgânico e, ao mesmo tempo, coordenado, mostrou ser possível o início de uma resposta ao atual fascismo brasileiro, o bolsonarismo. Este que até então era o único a dominar com maestria essas ferramentas. Domínio resultante, é claro, da colaboração com as big techs.
O bolsonarismo é o que é, porque essas empresas não têm interesse na democracia, pois já perceberam como os engajamentos ao fascismo, à violência e às fake news são um negócio muito lucrativo. Mundo afora também, daí toda a onda de extrema direita que assistimos, até agora, passivamente.
De todos os modos, em relação à vitória de Lula, apesar de aliviada, não quero me iludir. Em parte, porque essa resposta das urnas está composta também de medo. Parece mais uma resposta ao milicianismo do que, propriamente, ao fascismo. E isso não é exatamente ruim. Talvez seja um começo. Nos últimos dias, nas redes, aprendemos a disseminar o medo, assim como a extrema direita tem feito há anos. Só que, dessa vez, disseminamos não exatamente o medo do estado totalitário, mas o medo de um criminoso e mentiroso compulsivo no poder. O medo de que aquilo que acontece no Rio de Janeiro como rotina, se espalhasse por todo o país. Mas, repito, essa é parte da resposta. Arrisco outras duas.
É evidente que a ameaça de tesouraço – imitação barata da motosserra de Milei – aceno aos empresários e liberalóides, tampouco ajudou a Flávio Bolsonaro quando, de novo através das redes, ficou óbvio que ele iria decepar não só as aposentadorias e o SUS, mas programas sociais exitosos, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Por falar em BPC – o benefício que auxilia famílias com baixa renda e que tenham na composição familiar integrantes com deficiência –, Flávio Bolsonaro também não se ajudou quando foi extremamente capacitista ao chamar Lula de “nove dedos” durante o debate da Globo, a dois dias do pleito. Às vezes não é preciso arrancar as máscaras, pois elas caem com o próprio peso…
Depois de tanta luta, é difícil e simplista resumir essa vitória. Vitória multifatorial, vitória do povo. Vitória a ser celebrada, mantendo a mobilização. Afinal, vimos o que a máfia dos transportes fez para impedir a votação. Quer dizer, foi a vitória de uma batalha fundamental, mas ainda não da guerra.