
Escrevo de Paris, outubro de 2026. Uma cidade que guarda nas suas ruas a história de disputas políticas e que hoje aflora a mobilização em seu povo, mais uma vez, com algumas das contradições mais profundas da modernidade ocidental. Aqui, onde liberdade, igualdade e fraternidade se tornaram palavras fundamentais do imaginário político moderno, é preciso problematizar e perguntar: liberdade para quem? Igualdade construída sobre quais histórias? E qual fraternidade é capaz de reconhecer as humanidades?
Estas perguntas andam juntas com meus passos nas avenue, no metrô e observando os monumentos parisienses.
Caminhar por Paris sendo uma mulher negra da diáspora africana é também encontrar as marcas da história que atravessou os oceanos. É lembrar que foi nesta cidade, em meio às experiências de estudantes e intelectuais negros que enfrentavam o colonialismo e o racismo, no início do século XX, que a Negritude ganhou força como movimento intelectual, literário e político. Aimé Césaire, ao lado de Léopold Sédar Senghor e Léon-Gontran Damas, junto com algumas mulheres tais como as irmãs Nardal e Suzanne Cesaire, fizeram parte dessa elaboração que reivindicou a humanidade, a história e a dignidade dos povos negro-africanos diante de um mundo colonial empenhado em negá-las.
O movimento da Negritude não foi somente um movimento de afirmação identitária. Foi um movimento que promoveu, e ainda promove em muitas pessoas, uma ruptura com o lugar inferior que o colonialismo deixou reservado aos africanos e seus descendentes. Foi a recusa em aceitar que a Europa pudesse definir sozinha o que era civilização, conhecimento, beleza e humanidade. Foi, também, a abertura de um horizonte no qual ser negro não significasse carregar uma falta, mas reconhecer-se como parte de uma história vasta, complexa e produtora de mundos e conhecimentos.
Essa recusa à desumanização atravessou continentes e assumiu diferentes formas. Anos depois, nos Estados Unidos, Martin Luther King Jr. fez da luta pelos direitos civis e da resistência não violenta uma força política contra a segregação racial. Malcolm X confrontou a violência do racismo, a negação da autodeterminação negra e a exigência de que pessoas negras precisassem provar sua humanidade diante de uma sociedade que as subalterniza. Frantz Fanon, psiquiatra e pensador martinicano, analisou os efeitos do colonialismo sobre a subjetividade, o corpo e a consciência, mostrando como a dominação colonial também procurava organizar a maneira como os povos colonizados percebiam a si mesmos e o mundo.
Essas duas lideranças tiveram trajetórias distintas, atravessadas por contextos e escolhas políticas que não devem ser confundidas. Suas obras, porém, nos permitem reconhecer uma questão comum: a emancipação negra não poderia se limitar à inclusão em estruturas que continuam reproduzindo a inferiorização racial. Era preciso transformar as relações de poder, disputar a produção do conhecimento e afirmar a capacidade dos povos negros de definir os próprios caminhos.
Estar aqui, tantos anos depois destes acontecimentos, é perceber que algumas disputas podem até terem mudado de linguagem, mas não desapareceram. Elas passeiam vivas por entre as pessoas.
Neste momento, nas ruas, jovens estudantes (muitos negros) voltam a se mobilizar em defesa de direitos sociais e políticos, nas chamadas manifs, contestando medidas que consideram ameaças às condições de vida e às conquistas históricas socialistas, como direitos trabalhistas e dignidade escolar/curricular.
A França de hoje não é a França do início do século XX, nem a de maio de 1968, que também foi uma época em que liderou grandes movimentos sociais, abrangendo a produção intelectual, mobilizando grandes nomes como Jean-paul Sartre e Simone de Beauvoir, Michel Foucault e Gilles Deleuze. Mas os parisienses mostram que esta cidade tem viva a memória das lutas que transformaram as relações entre Estado, sociedade e trabalhadores, o que me fez refletir que direitos conquistados nunca podem ser tratados como garantias definitivas.
Enquanto observo essas movimentações, penso também no Brasil do qual estou distante, eu e meus colegas de trabalho, num momento tão crucial para a defesa de direitos (poucos, mas nossos) adquiridos. Penso nos jovens que saem às ruas para defender a democracia, nas pessoas que compreendem que os direitos conquistados continuam sujeitos a disputas e nas comunidades negras que sabem, por experiência histórica, que nenhuma conquista se sustenta sem participação e organização coletiva.
Os contextos são diferentes. As histórias não podem ser confundidas. Porém, existe uma questão que atravessa essas experiências: o que acontece quando aquilo que uma sociedade conquistou a duras penas volta a ser colocado em risco? E o que permanece em nós quando as estruturas políticas e econômicas insistem em limitar a dignidade que reivindicamos?
Saí do Brasil pensando nisso e continuei aqui com essa dura reflexão. Talvez isso ocorra porque há uma cena cotidiana de Paris que não me abandona e ajuda nessa persistência: no transporte público, chamam a atenção e observo as mulheres negras africanas. Mulheres de várias idades, trabalhadoras, que se deslocam, que cumprem as tarefas de seus dias. Mulheres que provavelmente conhecem, de maneiras distintas, o peso de viver em uma sociedade na qual a origem, a cor da pele, o gênero e a condição econômica podem determinar o acesso à moradia, ao trabalho, à segurança e ao reconhecimento.
Essas mulheres carregam uma dignidade, uma identidade, uma negritude, irretocável, incondicional,inegociável. Um corpo que escreve sempre e deixa grafado como uma caneta em cores berrantes que este país é rico pela exploração contínua e desenfreada dos países africanos.
Diante delas, sinto que se revela em mim a mulher da diáspora. Por ser brasileira e mestiça, apresento vivências outras, fora da África. Entendo e me sinto empática, pois a vida na Europa não é igualmente acolhedora para todas as pessoas. Para as mulheres, negras, pobres, as promessas universais de igualdade convivem com barreiras materiais – estéticas e comportamentais – que provocam discriminações e formas persistentes de desumanização. Não conheço a história de cada uma dessas mulheres. Não posso presumir suas dores, suas escolhas ou suas trajetórias. Mas há algo na maneira como elas ocupam os espaços públicos que me convoca a pensar sobre dignidade, porque elas estão sempre altivas, presentes e inteiras.
Não estou aqui romantizando nada, nem mesmo suas vidas. Tampouco desejo transformar a resistência em obrigação dessas mulheres negras. Sou uma delas e sei que não precisamos sofrer para provar nossa força, sequer devemos ser admiradas apenas pela capacidade de suportar adversidades. O que me toca é outra coisa: a percepção de que a dignidade de uma pessoa não se mede pelo reconhecimento que a sociedade lhe concede.
Há uma força nessa presença que me remete à reflexão do filósofo franco-norteamericano negro Norman Ajari sobre a dignidade negra, que é compreendida em relação às experiências históricas de desumanização e às possibilidades de afirmar a própria humanidade em condições que procuram negá-la. Não se trata de uma dignidade abstrata, apartada da vida material. Trata-se de reconhecer que a luta por condições concretas de existência também é uma luta para que pessoas negras sejam reconhecidas como vidas que importam, sujeitos de pensamento, desejo, liberdade e futuro.
Ao observar aquelas mulheres, penso ainda na ancestralidade. Não como uma explicação automática para seus gestos, nem como se existisse uma essência africana que pudesse ser identificada em cada rosto. Penso na ancestralidade como uma relação de continuidade, como também escreve o antropólogo baiano Osmundo Pinho, que relaciona com uma memória que não se limita àquilo que conseguimos documentar.
Vejo nos corpos destas mulheres uma história que sustentou comunidades, transmitiu conhecimentos. Elas criaram seus filhos, organizaram resistências, produziram economias e preservaram modos de existir, mesmo quando os sistemas políticos e sociais tentaram lhes negar tudo isso.
Talvez seja essa continuidade que eu reconheça, que eu sinta, a partir das lentes da cosmovisão africana. Por isso, fico sem poder nomeá-la inteiramente. Na altivez delas percebo parte da história coletiva que tornou possível a nossa presença neste mundo.
É nesse encontro entre memória e presente que compreendo o sentido do que me parece um “legado inegociável”.
Legado, para a gente entender bem, na perspectiva ou na gramática negro-africana, não é somente ter uma galeria de personalidades ou de bens materiais que convocamos em datas comemorativas. É uma herança política, intelectual, cultural e civilizatória que nos obriga a reconhecer o caminho percorrido e a responsabilidade que temos diante do que ainda precisa ser transformado. Inegociável, pois não há reparação suficiente que dê conta desta dimensão de humanidade expropriada. Inspiro-me na Dívida Impagável, da Socióloga e Filosofa negra e brasileira, Denise Ferreira da Silva.
Nelson Mandela e Desmond Tutu permanecem também como referências incontornáveis da luta contra o apartheid e da disputa por uma sociedade que não organize a humanidade a partir da hierarquia racial. Antonieta de Barros ocupou a política e a educação quando a sociedade reservava às mulheres negras um lugar de exclusão. Carolina Maria de Jesus escreveu a partir de uma experiência social que o Brasil preferia esconder, transformando sua palavra em documento literário e denúncia. Lélia Gonzalez nos ensinou a pensar o Brasil considerando as articulações entre racismo, sexismo e formação cultural. Todos estes legados foram fortalecidos durante minha trajetória acadêmica, mas os referenciais eram conhecidos por mim anteriormente, na minha mobilidade social e política negra. Esse movimento negro foi primordialmente foi meu educador, como afirma Nilma Lino Gomes. Não só meu educador, mas educador de toda a sociedade, principalmente a brasileira.
Essas trajetórias/legados não dizem todas a mesma coisa. E ainda bem. A força de uma tradição intelectual não está em produzir unanimidade, mas em ampliar as perguntas que somos capazes de fazer ao mundo.
O que essas referências nos permitem compreender é que a população negra não chegou até aqui por concessão. Chegou por meio de lutas, de elaborações, de alianças, de rupturas, de criações e de formas coletivas de organização. Chegou porque houve quem recusasse o silêncio, quem enfrentasse a interdição, quem produzisse conhecimento, apesar da deslegitimação, e quem construísse caminhos para que outras gerações pudessem trilhar.
Política além de uma eleição
O momento eleitoral brasileiro recém-vivenciado não pode ser compreendido apenas como uma disputa entre duas candidaturas. Ele também diz respeito às condições em que viveremos, aos direitos que serão protegidos, às políticas públicas que poderão avançar ou que poderiam retroceder e aos espaços de participação que permanecerão abertos à população negra. A democracia não se resume ao voto, mas o voto é parte importante da disputa sobre o futuro coletivo.
O mesmo vale para as lutas sociais que observo aqui. As ruas nos lembram que os direitos não são presentes oferecidos espontaneamente pelo poder. São construções históricas, resultado de mobilizações e conflitos, e exigem vigilância para que não sejam desmontados. As transformações associadas a 1968, na França, tiveram trajetórias e consequências diversas, e não eliminaram as desigualdades. Ainda assim, constituem parte de uma história de contestação que ajuda a explicar porque tantas pessoas continuam defendendo direitos sociais e políticos.
No Brasil, sabemos que a democracia permanece incompleta enquanto o racismo determina quem pode viver com segurança, quem tem acesso aos direitos, quais conhecimentos são reconhecidos e quais territórios são tratados como descartáveis. Sabemos, também, que políticas de igualdade racial, ações afirmativas, liberdade religiosa, acesso à educação e valorização das culturas negras precisam de sustentação institucional e participação social. Mas sabemos algo mais: nossa existência política não começa a cada eleição, nem termina quando as urnas são fechadas.
O lugar a que chegamos, como mulheres e homens negros e como coletividade, não pode ser tratado como provisório. Isso não significa que os retrocessos sejam impossíveis. Significa que não aceitaremos a ideia de que a história possa ser desfeita sem resistência, de que nossos conhecimentos possam voltar a ser silenciados sem contestação ou de que as próximas gerações devam começar novamente a luta pelo direito de serem reconhecidas como plenamente humanas.
A Terra-Mãe, não a África somente, mas o nosso planeta Terra, não é apenas o lugar de onde viemos. É, também, a condição material da vida, o território da memória, o espaço de cultivo e a possibilidade de continuidade. Uma semente não escolhe sozinha as condições em que germinará. Precisa de terra, água, luz e cuidado. Da mesma forma, nenhum legado se transmite apenas pela celebração dos ancestrais. Ele precisa de instituições, recursos, direitos, territórios protegidos, educação, cultura e condições concretas para que as novas gerações possam criar. Portanto precisa das pessoas, vivas e ativas.
Não basta dizer às crianças negras que seus ancestrais foram grandes se não garantirmos que elas tenham acesso à história, à literatura, à ciência e às condições materiais para desenvolver suas próprias capacidades. Não basta celebrar as mulheres africanas e afro-brasileiras enquanto naturalizamos a sobrecarga, a precariedade e a desigualdade que atravessam tantas de suas vidas. Não basta exaltar a resistência negra se não construirmos sociedades nas quais viver não seja uma luta permanente contra a desumanização.
O legado inegociável não é uma autorização para permanecermos presos ao passado. É uma responsabilidade diante do futuro.
Escrevo desde a França, mas pensando no Brasil: nas mulheres negras nos transportes públicos, ceifando horas de suas vidas; nos jovens, como meus filhos, que ocupam as ruas; também penso nas gerações que vieram antes de mim, antes de nós. Nenhum resultado eleitoral resume a dimensão da história que carregamos, mas tomar posição frente às nossas conquistas é fundamental. E o fizemos nesse pleito presidencial.
Nós, mulheres negras, seguiremos nossas jornadas. Os jovens continuarão elaborando suas formas de luta. As comunidades continuarão criando, organizando-se e disputando o direito de existir plenamente. Seguiremos responsáveis por transmitir às próximas gerações mais do que a memória das violências sofridas, mas sim como somos apesar de tantas armadilhas, parafraseando Oliveira Silveira.
Precisamos transmitir, incondicionalmente, nossas filosofias, nossas artes, nossos conhecimentos, nossos intelectuais, nossas formas de organização e a certeza de que não somos uma nota de rodapé na história de ninguém.
De Césaire a Fanon, de King a Malcolm X, de Abdias do Nascimento a Lélia Gonzalez, encontramos uma história plural de enfrentamento ao racismo e de elaboração de outros horizontes de liberdade. Não se trata de uma linhagem sem divergências, mas de um campo de pensamento e ação que atravessa fronteiras, gerações e territórios.
Esse legado não nos entrega respostas prontas, mas nos deixa perguntas incontornáveis sobre a sociedade que queremos construir e sobre as condições necessárias para que a dignidade deixe de ser uma reivindicação e se torne uma experiência concreta de vida.
A Terra-Mãe, a África, guarda sementes que atravessam tempos difíceis. Algumas germinam longe do lugar em que foram plantadas. Outras, encontram caminhos que ninguém poderia prever. Todas nos lembram que continuidade não significa imobilidade, mas a possibilidade de produzir vida a partir de uma história que não se deixa apagar.
O legado é inegociável porque a dignidade negra não depende da autorização de governos, da tolerância das sociedades ou do reconhecimento de quem sempre nos quis à margem. Ela é o fundamento da luta que nos trouxe até aqui e o horizonte ético de tudo o que ainda precisamos construir.
Daqui de Paris, é isso que vejo. E é isso que não podemos perder de vista quando voltamos os olhos para o Brasil: não começamos do zero, não caminhamos sozinhos e não entregaremos às próximas gerações um futuro menor do que aquele pelo qual tantas pessoas lutaram antes de nós.
Articulada com mais um pensador negro e jovem deste tempo de 2026, Arape Malik, influenciador digital e multicriativo, concluo, depois desse 25 de outubro vitorioso para a democracia brasileira, que uma história não é só escrita pelo tempo, mas esculpida pela força daqueles que desafiam o impossível. E nós, mulheres e homens negros na diaspora, cotidianamente denunciamos que não negociaremos, mesmo que pareça impossível, o nosso legado.
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Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)