
Dez é um bom número. E um bom pretexto para uma rubrica de periodicidade flutuante, na qual andei pensando desde que, ao falar de Civilizações, de Lauren Binet, mencionei de passagem (neste texto) seu segundo romance, Quem matou Roland Barthes?, obra na qual o autor põe toda a filosofia francesa da segunda metade do século XX para correr em uma trama um tanto rocambolesca. Aí resolvi fazer uma lista de 10 outras amostras de um certo tipo de romance muito comum em tempos recentes: a obra na qual o autor usa outro escritor, mais antigo e já falecido, como protagonista, em um jogo de espelhos muito em voga na literatura contemporânea.
Atenção: não confundir com aqueles romances históricos nos quais o autor mencionado faz só uma ponta como elemento de pano de fundo (como Freud, por exemplo, no romance policial A interpretação do assassinato). Ou com aqueles livros como os escritos por Philip Roth ou Ricardo Piglia, em que um protagonista recorrente (respectivamente, Nathan Zuckerman ou Emílio Renzi) é um alter ego do autor, mas não se sabe direito o que é ficção ou autobiografia. Nem ainda com romances como se encaixam no hoje muito usado rótulo da “autoficção, como O fim de Eddy, de Edouard Louis, ou O Acontecimento, de Annie Ernaux, ou ainda a trilogia “biográfica” de J.M. Coetzee, em que o próprio autor se retrata como personagem na infância, na juventude e até mesmo depois da morte. Na lista de hoje, o que temos é um romance em que o protagonista ou um dos personagens de destaque é um escritor do mundo real, e a trama, até certo ponto, faz referência ou aproveita fatos de sua biografia.
Pensando que já publiquei nesta mesma coluna há uns anos uma lista de 10 livros básicos para conhecer a obra de Moacyr Scliar (aqui), talvez, se tiver vontade, eu possa transformar este formato ao mesmo tempo rígido e muito livre em uma série recorrente. Quem sabe? Seguem então:
10 LIVROS com escritores do mundo real como protagonistas:
O Mestre, de Colm Tóibin
Tradução de José Geraldo Couto. Companhia das Letras, 440 páginas
Em mais de um texto sobre Henry James, já se disse que ele foi o mais europeu dos escritores americanos, tanto nos temas quanto no cuidado esmerado com a prosa, em livros como A Outra Volta do Parafuso e Retrato de uma Senhora. O próprio James achava isso, já que tentou garantir uma certa estabilidade financeira mudando-se para Londres e tentando emplacar como dramaturgo nos palcos ingleses (o equivalente ao cinema americano do período, um lugar em que atuavam nomes como James M. Barry e Oscar Wilde). É, desta lista, o exemplo mais bem acabado de uma verdadeira “biografia romanceada”, e aborda justamente os anos em que James, já consagrado por Retrato de Uma Senhora, tenta o sucesso nos palcos londrinos com a peça Guy Domville – e ficamos sabendo no romance também que a peça foi um fiasco, vaiada na estreia. Tóibin recorre a cartas e documentos do próprio James para esta reconstituição escrita com o esmero que James colocava em suas próprias obras. Tóibin também é hábil para abordar aquilo sobre o que não há certeza histórica, como a reservadíssima vida privada do autor e sua sexualidade até hoje mergulhada em incerteza.
Arthur & George, de Julian Barnes
Tradução de Jorge Viveiros de Castro. Rocco, 442 páginas
Mestre elegante da prosa britânica atual, Julian Barnes reconstrói um episódio real em um romance que dialoga com as questões modernas da complicada relação entre Europa e suas ex-colônias ocidentais. Troca-se, obviamente, o imigrante árabe dos dias de hoje pelo hindu do início do século XX, mas permanece a questão da identidade questionada dos descendentes de países colonizados — bem como a negação constante de sua cidadania na antiga metrópole. O romance acompanha as vidas paralelas do escritor Arthur Conan Doyle, aquele mesmo que você conhece, o criador de Sherlock Holmes, e do descendente de indianos George Eidalji. Desde o início, fica claro que se trata de vidas desiguais, embora pudessem ser apontados muitos paralelos iniciais nos dois personagens. Conan Doyle e Eldalji não são ingleses nem têm origem aristocrática, pelo contrário, e ambos ascendem por meio do estudo e do trabalho duro, mas enquanto o escocês Doyle vai, com seu temperamento exuberante, tornando-se logo uma estrela na sociedade e na literatura, Eldalji, que trabalha na companhia de trens de Londres, é, desde a infância, vítima de preconceito e, por fim, se vê acusado de mutilar vacas na região rural em que vivem seus pais. É condenado em um julgamento relapso e então aprisionado. Quando, abalado pela morte da esposa e à procura de um desafio que lhe tire de sua apatia (Doyle é retratado como um homem com um pendor pela ação imediata, algo que se alinha com muito do que foi dito sobre ele em suas biografias), o romancista lê sobre o caso nos jornais, as vidas de ambos se cruzam, e o escritor se engaja em uma campanha para que um tribunal reconheça a inocência de Eldalji. Quando se fala que as vidas de ambos “se cruzam”, a afirmação pode ser usada em sentido literal no caso do romance. Até se encontrarem no julgamento, Arthur e George têm suas trajetórias e pontos de vista apresentados em capítulos alternados, ressaltando o efeito de suas vidas paralelas no desigual sistema social inglês.
Stevenson sob as Palmeiras, de Alberto Manguel
Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 88 páginas.
A Companhia das Letras, no início deste século, lançou uma coleção temática de sete livros que pretendiam unir trama policial com a figura de um grande escritor. Só eles já serviriam para quase completar esta lista, mas nem todos se ajustam à proposta que adotei, de termos um escritor que existiu de verdade como protagonista. Alguns deles usam o autor escolhido como coadjuvante, um pretexto colateral. Crítico, professor e historiador da leitura e da literatura, Manguel cria não só uma história policial com toques do horror do próprio Robert Louis-Stevenson, autor de O Médico e o Monstro, mas uma reflexão sobre a natureza da ficção. Doente de tuberculose, Stevenson muda-se para a ilha de Samoa, em meio a nativos que não conhecem o conceito de ficção, já que, para eles, toda história é uma verdade. Uma circunstância que passe de pitoresca a perigosa quando ele é envolvido por uma trama de crime que será atribuído pelos locais ao “contador de histórias”. Suspense e erotismo se combinam nesta obra que é uma das mais bem realizadas da série toda – já que, como costuma muito acontecer nos projetos temáticos daqueles tempos, como a Amores Expressos, também da Companhia das Letras, ou a coleção Plenos Pecados, da Objetiva, o resultado do conjunto é bastante irregular.
Nosso GG em Havana, de Pedro Juan Gutiérrez
Tradução de Magda Bigotte de Figueiredo. Alfaguara, 128 páginas
Anos atrás, o amigo e colunista desta Sler, Pedro Gonzaga, que entrevistou o autor cubano Pedro Juan Gutiérrez a respeito deste livro para uma revista hoje extinta, me contou a história de que este romance deveria ter sido editado na mesma coleção da Companhia que mencionei no parágrafo anterior, mas que desacordos entre o cubano e a editora fizeram a Companhia declinar da publicação. O livro acabou saindo no Brasil anos depois por outra casa, a Alfaguara, selo da Objetiva — e que, por essas maluquices da história do mercado editorial brasileiro, hoje é a mesma editora que recusou o livro, já que Objetiva e Companhia se fundiram e são meio que “selos” do mesmo conglomerado. Na Cuba pré-revolução castrista, um homem que se identifica como Graham Greene é preso em um bordel homossexual da Havana de então, um paraíso para os pecados da carne. O verdadeiro Graham Greene, que na verdade estava em sua casa na Itália, é informado do episódio e parte para Cuba para esclarecer quem é o sujeito preso em seu lugar. Ao chegar à quente e pastosa Havana, Greene, inglês católico, é envolvido ao mesmo tempo pelo clima de pecado da ilha e por uma rocambolesca trama de espionagem que inclui russos, americanos, refugiados nazistas, uma organização judaica responsável por caçar esses mesmos refugiados e mafiosos. A história, como já expresso no título, é parodiar um dos clássicos de Greene, Nosso Homem em Havana, ao mesmo tempo em que a narrativa também insinua, comicamente, que a aventura fictícia vai ser essencial para que Greene escreva seu livro anos mais tarde.
Os Crimes do Mosaico, de Giulio Leoni
Tradução de Gian Bruno Grosso. Planeta, 384 páginas
Embora tenha uma vida com uma sequência de eventos documentada, há muito sobre a personalidade de Dante Alighieri que escapa ao leitor moderno de sua Divina Comédia (como já comentei neste texto). Nesse terreno amplo e inexplorado, Giulio Leoni não encontra obstáculo para desenhar a personalidade do autor neste livro e nos outros que compõem uma trilogia policial protagonizada pelo poeta. Prior de Florença no ano 1300, Dante é um sujeito irascível, arrogante, temperamental e autoritário, e passa os três livros mais arranjando os problemas políticos que o levariam ao exílio do que propriamente desvendando os crimes brutais que cruzam seu caminho. Ou seja, é flagrante a inspiração dos detetives “durões” do noir clássico americano, o que pode incomodar um leitor mais sensível a anacronismos. Neste livro em particular, que considero o melhor da série, um operário de um mosaico grandioso que estava sendo assentado na parede de uma igreja em reforma é encontrado morto, com todos os indícios de uma morte praticada por magia negra. Autoridade de Florença, cabe a Dante a resolução do mistério e a manutenção da ordem, em uma trama que cruza horror, mistério e lança ainda uma leve provocação ao conhecimento de Dante sobre o nosso futuro “novo mundo”. Esse livro foi precedido por Os Crimes da Medusa e seguido por Os Crimes da Luz.
Boca do Inferno, de Ana Miranda
Companhia das Letras, 312 páginas (na edição de bolso, mais recente)
A escritora Ana Miranda já surgiu dividindo opiniões entre os que a consideraram uma grande artista e outros críticos que depreciaram um certo rebuscamento deslocado que parecia disfarçar defeitos de fabulação. Considerações que foram feitas já sobre este romance, de 1989, sua estreia literária. O protagonista é um dos mais interessantes personagens dos primeiros tempos do Brasil, o poeta barroco e grande provocador Gregório de Mattos Guerra, autor de sátiras e de poemas fesceninos e debochados que se incluem entre os melhores da tradição subterrânea do sarcasmo em língua portuguesa. Passado em 1863, o romance recupera em forma de ficção as lutas políticas que agitavam a Bahia, então fulgurante capital comercial, e como essas disputas entre facções se refletem na cidade e na vida do protagonista. A linguagem vai do suntuoso ao vulgar, emulando o próprio espírito de contradições e oposições que animava o barroco do período. Gregório, oposicionista, envolve-se com uma mulher que, ele saberá, tem ligações com uma emboscada ao alcaide-mor, pretexto para que o mandatário da Bahia inicie uma perseguição política violenta aos adversários – Gregório entre eles. Não foi o único livro de Ana Miranda com um escritor como protagonista. Ela mais tarde lançaria Dias e Dias, com o poeta Gonçalves Dias como personagem.
A Ilha dos cães, de Rodrigo Schwarcz
Bertrand Brasil, 200 páginas
Romance de estreia do jornalista gaúcho, é um bom exemplar de um tipo de literatura entre a fantasia e a criação de mundos alternativos que só recentemente começou a ganhar mais adeptos na ficção nacional. Antecipando em quase duas décadas a trama de Civilizações, de Binet, Schwarcz imagina um mundo em que os europeus desistiram das grandes navegações depois de dois ou três encontros com alguma coisa sombria e monstruosa em alto-mar. Sem as grandes navegações europeias, as Américas se desenvolvem de uma maneira completamente diferente, os grandes impérios indígenas americanos sobrevivem à dizimação perpetrada pelo homem branco e os impérios Incaico e Azteca estão em guerra por territórios séculos após o que deveria ter sido o “descobrimento”. O detalhe é que toda essa narrativa é, na trama, imaginada pelo explorador e escritor inglês Richard Burton, preso em uma ilha desconhecida após um naufrágio quando voltava de… Santos, a cidade brasileira, onde foi adido (dado que realmente consta da biografia de Burton – que, aliás, chegou por lá em 1865 e retratou a cidade com muita ironia e declarado desprezo em seus diários – e isso que ele não encontrou torcedores fãs de Neymar por lá).
As Horas, de Michael Cunningham
Tradução de Beth Vieira. Companhia das Letras, 184 páginas.
Relutei sobre colocar ou não este aqui na lista justamente devido à projeção obtida pelo romance após a adaptação cinematográfica com Nicole Kidman interpretando Virginia Woolf com um nariz postiço de dar medo. Calcado assumidamente em Miss Dalloway, de Virginia (livro que também ecoa no romance de Adriana Lunardi Corpo Presente), As Horas é a descrição minuciosa de algumas horas na vida de três mulheres separadas no tempo e no espaço: Virginia Woolf, que, em 1923, escreve Miss Dalloway na casa de campo em que vive com o marido, nos arredores de Londres, ao mesmo tempo em que tenta manter sob controle os sintomas de demência que começam a se manifestar; Laura, uma dona de casa problemática e oprimida pela vida familiar em 1949, que está justamente lendo uma edição de Miss Dalloway; e Clarissa, a atualização em carne e osso da Miss Dalloway do livro, vivendo no mundo contemporâneo. Cinquentona e ex-hippie, Clarissa ecoa no seu próprio comportamento o da senhora Dalloway do romance, que começa o dia escolhendo flores para uma festa. A prosa de Cunningham é lenta, minuciosa na descrição de cada sensação, no mapeamento obsessivo da paisagem emocional de cada personagem — claramente, uma homenagem à prosa da própria Virginia, já que em outro romance do mesmo autor, no qual Walt Whitman é personagem, o tom é mais aberto, amplo, vibrante e enérgico, numa emulação da própria obra do poeta.
O Mestre de Petersburgo, de J.M. Coetzee
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves. Companhia das Letras, 248 págs.
Um romance histórico construído com a elusiva tortuosidade que é característica do Nobel sul-africano J.M. Coetzee. Na Rússia tsarista de 1869, o escritor Fiódor Dostoiévski chega a Petersburgo (voltando de Dresden) e busca compreender as reais circunstâncias da morte de seu enteado Pavel, morto em um acidente ambíguo que pode na realidade ter sido um suicídio. Tenta reaver os pertences do rapaz, mas descobre que foram confiscados pela polícia devido à associação de Pavel com a célula subversiva Vingança do Povo e com o notório agitador anarquista Sergey Nechayev (também ele uma figura real, parte do movimento niilista russo da segunda metade do século XIX). Enquanto tenta reconstituir os últimos passos do enteado, Dostoiévski é contatado pelo próprio Nechayev, que tenta convencê-lo de que os verdadeiros responsáveis pela morte de Pavel são os agentes da Polícia Política do czar, insinuando que Dostoievski deveria denunciar o crime em um panfleto político – algo que o escritor hesita porque não confia na versão de Nechayev e suspeita que, na verdade, ele e seu grupo assassinaram Pavel. O agitador também é brutal em declarar que Pavel, tendo se suicidado ou não, desprezava o padrasto, ora como uma figura paterna ausente, ora como um alienado da política revolucionária. Nas conversas ásperas entre ambos e com outros personagens que atravessam a trama, Coetzee recupera parte da agitação intelectual e política que estava no ar no período, recriando uma atmosfera que, anos mais tarde, vai dar origem ao clássico Os Demônios, que Dostoiévski publicou em 1872 e no qual Nechayev é retratado na persona do jovem Piotr Verkhoviénski, líder manipulador e com tons psicóticos de uma célula revolucionária radical.
O Pálido Olho Azul, de Louis Bayard
Tradução de Lea P. Zylbercht. Planeta, 432 páginas
Edgar Allan Poe vem sendo escolhido sistematicamente como personagem por vários autores — e até por filmes e histórias em quadrinhos. e a maioria dessas obras segue um padrão que já virou fórmula: a estrutura do livro mistura elementos da vida do escritor norte-americano com tintas do romance policial que ele ajudou a criar. Achei mais prático escolher um apenas. Este O Pálido Olho Azul toma como mote e cenário um ponto da obscura biografia do escritor: sua passagem fugaz como cadete pela Academia Militar de West Point — da qual foi dispensado por “problemas disciplinares” com pouco mais de um ano de estudos. Hoje, a Academia Militar é a escola na qual se forma a elite militar americana, mas, nos 1830 em que se passa a história, West Point é uma iniciativa contestada, alvo de muitas críticas quanto à sua própria necessidade – os Estados Unidos do período desconfiam da necessidade de um “exército nacional”, dado que o país se tornou independente com a reunião de forças milicianas localistas, por exemplo. Para piorar, no romance de Bayard, a instituição é aterrorizada por crimes macabros envolvendo estudantes do local. Um detetive aposentado chamado Augustus Landor é chamado pela direção da academia para investigar discretamente o caso, fazendo o possível para que o estrago à imagem do estabelecimento seja mínimo. Landor escolhe como seu assistente e espião na comunidade fechada dos cadetes o jovem estudante Poe. Um Poe que é uma caricatura adolescente de sua imagem mais difundida: atormentado, romântico, dramático, mórbido, obcecado pelo sobrenatural e pela mãe, morta quando o garoto ainda era criança. A relação de Poe com o padrasto no livro também não é das melhores, já que o garoto está sendo enviado para a escola como uma última tentativa de ser “endireitado”. Embora seja um romance bem urdido, não deixa de ser um defeito da narrativa que as aparições de Poe roubem o interesse da trama, que começa bem e termina com um certo artificialismo histérico que também tenta emular temas recorrentes a Poe: criptas, cavernas subterrâneas e experiências macabras com o sobrenatural.
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