
“Ano que vem, cinquenta, idade em que tem início a decadência do homem.”
Dráuzio Varella narra ter ouvido essa frase de um conhecido de priscas eras, desses que a gente encontra no meio do mundo, custa a reconhecer, luta para se desvencilhar, e ainda tem de aguentar pérolas de sabedoria e generosidade como essas. Tal narrativa está na Parte 1 de seu livro “Correr”, intitulada “A largada, ou a vida começa aos cinquenta”. Dráuzio comenta o quão impactante foi para ele ouvir aquela mesquinharia; e o quanto a frase tocou num daqueles pontos nevrálgicos da alma, um daqueles que só constatamos mesmo que temos depois que ele é devidamente cutucado. A frase o fez reagir energicamente – não para se contrapor ao pobre idiota que retornou às brumas do passado, mas para reagir à própria instância interna de autossabotagem com a qual havia convivido até então.
Esse relato de Dráuzio remonta a dez anos, talvez motivado pelo fato de que tento fazer sentido não dos cinquenta, mas dos setenta anos de vida que acabo de totalizar no odômetro desse carro em que percorro as estradas da vida.
De volta ao relato de Dráuzio: sedentário, estressado, com padrão de vida profissional daquele tipo para o qual o trabalho nunca cessa – tantas são as tarefas a cumprir, tantas são as que não se consegue cumprir, invadindo as noites e inviabilizando o sono (conheço essa história de algum lugar). Dráuzio não explica muito bem, mas a forma que encontrou para reagir àquela sentença mesquinha foi… correr! Correr, entenda-se bem, não aquelas corridinhas michas uma vez na vida, outra vez na morte – correr maratonas! 42 km!
Por coincidência, cismei do juízo uns tempos atrás de começar a caminhar, depois trotar, para um dia correr um percurso todo. Nesse clima, ouvi referências ao livro de Dráuzio e resolvi comprar o eBook para ler no avião, no percurso que me levou de Natal a Lyon (França), para jornada de trabalho intensa em janeiro de 2016. Minha expectativa era que iria ler esse livro no mesmo registro em que li, décadas atrás, o best-seller sobre o “Método Cooper”, lançado pelo médico norte-americano Kenneth Cooper. Lá no íntimo, suspeitava que o livro de Dráuzio Varela seria mais interessante que as páginas monótonas do livro do Dr. Cooper – depois da 10a página, a lenga-lenga torna-se insuportável… Dráuzio, por sua vez, havia escrito anteriormente o “Estação Carandiru” – narrativa de excelente qualidade, livro que lhe pega, lhe dá uma surra e não lhe larga até você conseguir a alforria da última página. Meu íntimo estava certo…
Mal ultrapassei as primeiras páginas, percebi que o registro em que leria “Correr” estava mais próximo do registro em que li um livro que fez minha cabeça também décadas antes, “Zen e a arte da manutenção de motocicletas”, do norte-americano Robert Pirsig. Sendo que, dessa vez, a motocicleta seria eu mesmo – a velha carcaça, então com 60 mil km, com que venho percorrendo a vida, agora com 70 mil!
Após a frase mesquinha do conhecido no fatídico encontro, Dráuzio se (com)prometeu, cumpriu e virou maratonista. Começou vida nova e “carreira” de maratonista aos cinquenta anos, e hoje, aos 82, continua lépido, fagueiro e maratonista militante: em setembro de 2025, participou da Maratona de Berlim e produziu recentemente o documentário “A vida é uma maratona”. Nem seus textos sobre essa coisa meio brutal que é correr uma maratona, Dráuzio vai muito além da apologia, frequente nessa contemporaneidade, do “get physical”. Ele lança digressões sobre o lado metafórico do correr, o quanto isso serve para chegar ao equilíbrio zen, para o qual Pirsig havia escolhido o cuidado dos pistões da velha motocicleta como caminho da Iluminação e da Harmonia. Dráuzio chama ainda a atenção para a questão crucial de quando começa, quando termina a vida. No fecho do livro, comenta abertamente saber que não lhe resta muito tempo pela frente – não que estivesse doente, estava (e está) ótimo, não faz uso continuado de nenhum medicamento (avis rara em sua geração) e continua treinando para correr suas duas maratonas anuais (às quais tem acesso garantido por estar sempre no limiar dos cinco segundos a menos que o tempo de corte de sua faixa etária, tempo esse registrado em corrida oficial anterior). Ao mesmo tempo que não tem ilusões sobre continuar correndo maratonas ad eternum, constata o quanto vive bem hoje, depois que a disciplina da preparação de cada maratona e o esforço de corrê-las (competindo contra o próprio limite de esgotamento) fizeram dele um homem melhor.
Eu, de minha parte, não tenho absolutamente o interesse de correr uma maratona; minha ambição nesse domínio é muitíssimo mais humilde. Mas compartilho a motivação de me tornar um homem melhor e, sobretudo, busco o sentido de ser um setentão. Um homem mais sereno, mais harmônico com seus próprios chakras, mais harmônico com a vida e com a vibração para além do próprio chiqueirinho. Entendo perfeitamente a metáfora zen que é correr para Dráuzio Varela; entendo que haja tantas outras ao alcance; e entendo que convém a cada um achar a sua. Iniciar uma vida por dentro da vida – não no sentido de nenhuma mudança espetacular e espetaculosa –, somente o avanço, mínimo que seja, em direção à Iluminação que é tão cara a alguns mestres, e tão distante da realidade de tantos que nos cercam, de nossos próprios desatinos e desequilíbrios. Tudo passa, tudo flui, inclusive a vida que é dada a cada um viver – salvo que é sempre possível buscar formas melhores de navegar nesse curso da vida. Corra como quem vive, pois isso ajuda imensamente a viver.
Todos os textos de Jorge Falcão estão AQUI.

