
“Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida.
Fala que ama, só que é da boca pra fora
Ou você engana, ou não está madura
Onde está você agora?”
Esse trecho da canção de Caetano Veloso me passa diversas vezes pela cabeça quando caminho pela cidade. Talvez porque eu ache que estamos vivendo um amor mal resolvido com a nossa cidade.
Nos finais de semana, gosto de pedalar bem cedo pela manhã. A cidade vazia tem outra dinâmica. No centro, a Rua da Praia, usual centro comercial a céu aberto, sempre lotada de gente — aos domingos é quase deserta, o que permite passear mais rapidamente.
Até pouco tempo, havia ali um som característico. Ao pedalar sobre o calçadão, muitas das pedras de granito, cinza e vermelho, estavam soltas e produziam uma espécie de musicalidade quando a roda da bicicleta passava por elas. Fazia tantos anos que estava assim que, para mim, aquele som já era como o cheiro da grama molhada: uma característica que me vinculava àquele lugar.
Era a música daquela passagem, que havia se tornado familiar. Só que, na verdade, sua letra falava sobre o abandono da manutenção.
Quando anunciaram requalificar o calçadão, logo me lembrei do êxito do Programa Monumenta no centro histórico, coordenado pela arquiteta Briane Bicca, que requalificou eixos urbanos históricos e recuperou edificações e monumentos. Entre eles, um dos espaços mais vitais do centro: o Mercado Público, depois do incêndio de 2013.
Para quem transita pelo centro, é impossível não perceber o quanto a Rua dos Andradas se qualificou no entorno da Casa de Cultura Mário Quintana. Havia, portanto, motivo para acreditar que a nova intervenção no calçadão poderia seguir esse caminho.
A requalificação aconteceu.
Mas eu não chamaria assim.
O som dos granitos desapareceu. As pedras de granito também.
Trocamos pedra nobre por pré-moldados de concreto. Trocamos uma imagem de glamour do passado por placas que, em menos de um ano, já apresentam várias bordas quebradas, que nem sempre têm o mesmo tom, que realçam os chicletes jogados no chão e, muitas vezes, não se encaixam com as tampas dos bueiros.
Minhas manhãs de domingo sentem falta da canção dos granitos.
Sentem falta da qualidade perdida. Da imagem de uma cidade que parecia ter sido feita com maior carinho no passado.
Esses detalhes não passam despercebidos ao olhar treinado a ter a cidade como campo de pesquisa. Pesquisar é olhar com atenção, observar, comparar, escrever com calma para tentar compreender os fenômenos. Nem sempre é fácil olhar a cidade como pesquisadora e caminhar por ela como alguém que gosta daquele lugar.
Porque há coisas difíceis de entender o porquê acontecem.
Há coisas que se perdem.
Muitos dizem que o poder público não tem recursos e que, por isso, as obras perderam qualidade.
Pois eu preferia esperar mais.
Esperar mais e fazer melhor.
Porque agora, por mais tempo, teremos que conviver com tamanha falta de cuidado.
Mas, infelizmente, não é só o setor público que tem colaborado para que o espaço público perca qualidade.
Quando olho com atenção para as transformações recentes de nossas esquinas, penso que há um fenômeno ainda pior acontecendo: a substituição voraz de edificações por outras de qualidade inferior.
E, pasmem, nem sempre para construir mais metros quadrados. Nem para construir melhor.
A construção civil é um dos setores mais poluentes, impacto que se amplia quando, antes da obra, há uma demolição. Demolir para construir menos já é difícil de justificar. Mas demolir para construir menos e pior parece um absurdo.
Ainda mais quando a nova construção, pela falta de qualidade, exige maior uso de ar-condicionado e eletricidade; quando pavimenta mais, retirando áreas verdes e criando bolsões de calor; quando elimina arborização urbana; quando afeta a qualidade e a caminhabilidade das calçadas.
Já não compreendo o que é isso.
Progresso não é.
O grupo de pesquisa Lab.CIPROGE vem investigando esse fenômeno. E conto aqui a comparação que fizeram entre o antes e o depois de uma das esquinas de nossa cidade. A descrição revela, em uma escala pequena, a espécie de loucura que estamos vivendo — desta vez, promovida pelo setor privado.
Até 2025, havia na esquina mencionada um edifício residencial com comércio no térreo. Com área de 1.200 m² e quatro pavimentos, tinha oito apartamentos. Ou, como prefiro dizer: abrigava oito famílias.
A loja, no térreo, tinha vitrines voltadas para as duas vias. A partir do segundo andar, as janelas dos apartamentos abriam para a rua. Havia uma relação direta entre o edifício e o espaço público, trazendo movimento, olhos para a rua e, consequentemente, mais segurança.
Na fachada, destacavam-se painéis verticais de cobogó cerâmico, integrados ao embasamento do edifício em tijolo aparente. As calçadas eram amplas, com pavimentação regular em basalto, e havia uma árvore de porte médio na esquina.
Era um edifício que contribuía para a qualificação da rua e para a circulação de pedestres.
Em 2026, depois da demolição, o prédio foi substituído por uma edificação de uso unicamente comercial, com áreas destinadas ao estacionamento de veículos junto à fachada. O novo edifício, mais recuado que o anterior, afastou a fachada pelo menos quatro metros.
A nova construção tem apenas 250 m².
Reduziu-se a área construída e, com ela, a integração com a rua existente. A relação com a esquina, agora, é pouco qualificada, enquanto a calçada de pedestres passou a disputar espaço com os veículos que entram e saem do estacionamento.
A nova construção é sem graça, praticamente sem arquitetura, é repetitiva, corporativa e funcional, marcada por grandes superfícies opacas e pela predominância da comunicação visual da marca.
A vegetação existente foi retirada. Inclusive a árvore da esquina.
O piso de basalto foi substituído por pavimentação cimentícia, como o calçadão do centro; o espaço público perdeu qualidade.
Mais uma esquina, entre outras tantas, que perdeu moradores, perdeu relação visual que dava segurança à rua, perdeu árvore, perdeu basalto, perdeu área construída e perdeu relação com o espaço público.
Ganhou estacionamento.
E talvez seja essa a pergunta que mais me incomoda.
O que estamos chamando de progresso?
Uma esquina doente e mal medicada, entre tantas outras.
É impossível não se perguntar:
Como remediar o descaso que vem tanto da gestão pública quanto do investimento privado?
Talvez o primeiro passo seja admitir que existe uma doença que precisa de atenção.
Porque, quando a gente gosta, é claro que a gente cuida.
E, olhando para a nossa cidade, fico pensando: será que ainda sabemos cuidar?