
1 – É a temporada dos cupons.
2 – Tainá me explica que é uma tendência das tendas chinesas, manter os consumidores nos aplicativos à espera de descontos suculentos.
3 – É quase como se todas as fridays fossem black fridays.
4 – Escova antiestática para vinis, lampadinhas com sensor de movimento, um ovo gigante de plástico para fazer ovos no microondas, um afiador de faca portátil com alegados diamantes no esmeril, tantas coisas sem as quais a vida seria uma série de bárbaros dias desequipados.
5 – No subúrbio da infância, o dono logrador da padaria da esquina fazia um dia de promoção ao mês em chicles, balas Xaxá e suspeitos biscoitos recheados. O tema é que o cashback de hoje ficava no que ele nos extorquia nos trocos.
6 – Depois havia as promos na Galeria do Rosário. Três jogos para MSX, todos piratas, ponhamos, pelo preço de dois. Era preciso levar uma fita K7 para gravá-los. As melhores para isso eram as de 46 minutos, por serem mais leves. O que importa, no entanto, é que ir da zona sul até lá não compensava, mas íamos. Era o frete alto que pagamos ainda hoje.
7 – Quero crer que tal suscetibilidade às ofertas é um fenômeno fundamentalmente humano e gostaria também de acreditar que a análise comportamental pudesse esgotar nosso assunto. Talvez nunca esgotemos nada porque sempre saberemos pouco, ou porque, como bem sabiam os romanos ao perguntar quem nos guarda dos guardas, nenhum de nós vê o mundo desde fora do mundo e de seus efeitos.
8 – O porteiro toca. As dúvidas metafísicas colapsam diante das dúvidas práticas. Será o papa-bolinhas, a infalível luva removedora de pelos de gato, a pochete multifunção com carregador USB-C, ou o creme coreano para as olheiras que tantas crônicas matutinas me deram?
9 – O eterno retorno dos comerciais das facas Ginsu, dos óculos Ambervison e das meias-calças Vivarina.
9 – Às vezes nos vejo nos livros de história dos anos 2500, escritos por IA para ninguém, como os dados de um calendário digital que caduca sem papel.
10 – Ao fim de sua civilização, os antigos homo sapiens gastaram seus últimos recursos em misturadores dinamarqueses para pães artesanais, mini-impressoras digitais de etiqueta e em garrafas térmicas ditas indestrutíveis que, de fato, sobreviveram-lhes.