
Senador Ciro Nogueira – Foto: Pedro França / Agência Senado
Dez de maio de 2026, domingo de céu limpo e sol lindo em Brasília, como serão todos os dias até, pelo menos, lá pelo começo de outubro. É tempo de seca no cerrado.
A beleza do céu – que é o mar de Brasília, na definição de Lucio Costa – proporciona lindos crepúsculos – talvez, modéstia à parte, só superados pelo pôr do sol no Guaíba —, mas disfarça os riscos da secura para a saúde de quem vive por aqui.
Nada que um bom protetor solar e bastante água não neutralizem. E dá para ter certeza da previsão do tempo: umidade do ar em queda, temperatura média bem boa e nenhuma chance de chuva. Isso vale para a gente comum, o chamado povo, que vive na capital federal…
Porque há – de uns tempos para cá – um lugar em Brasília sujeito a instabilidades várias todos os dias, durante o ano inteiro: a Praça dos Três Poderes. Ali, mais especificamente no prédio do Congresso Nacional e, mais diretamente ainda, nos gabinetes de alguns parlamentares, no mesmo dia, o clima pode esquentar, provocar tremores de frio e até fazer voar segredos guardados a sete chaves.
E não são instabilidades geradas por fenômenos climáticos distantes, que descem dos Andes ou vêm do mar e alcançam nosso litoral. Os temporais, raios e trovoadas que sacodem alguns gabinetes e os plenários da Câmara e do Senado, protegidos pelas cúpulas projetadas por Oscar Niemeyer, se formam num conjunto de três edifícios com mais de 30 andares a pouco mais de um quilômetro de distância da Praça dos Três Poderes: a sede do Departamento de Polícia Federal.
E, quase sempre, os temporais respingam além dos limites da praça e encharcam casas e escritórios em áreas nobres da Capital. Relâmpagos da PF iluminam até endereços chiques em outras capitais, e não há capas ou guarda-chuvas que protejam seus ocupantes…
O mais recente flagelado por essas intempéries policiais é o senador Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressistas. Ciro chegou a Brasília em 1995, na sombra do pai, deputado Ciro Nogueira Lima, que encerrava a série de mandatos iniciada em 1982.
O senador pepista, aliás, sempre soube aproveitar abrigos políticos. Andou sob o guarda-chuva tucano nos governos FHC. Buscou a sombra dos governos lulistas (chegou a chamar Lula de melhor presidente para os nordestinos), até apoiou a presidente Dilma Rousseff, mas, atento às mudanças do clima político, votou pelo impeachment. Na campanha de 2018, gravou vídeo afirmando “sou Lula” e votou em Fernando Haddad no segundo turno. Naquele ano, o vendaval direitista destelhou o lulismo.
Aí, veio 2019 e, com a sensibilidade que sempre pautou sua atuação, o senador presidente do PP sentiu a mudança e buscou a sombra do bolsonarismo. Virou Jair desde criancinha. Assumiu a chefia da Casa Civil. Flávio Bolsonaro, indicado pelo papai para disputar a Presidência da República com Lula, chegou a dizer que Ciro era o vice dos sonhos, mais pela lealdade ao Jair do que por qualquer projeto em favor do Brasil, diga-se.
Sentindo-se bem agasalhado, o senador resolveu dar abrigo ao amigo Daniel Vorcaro, imaginando que o banqueiro faria chover água boa na sua horta… Ele até acertou. Todo mês pingavam, segundo o pluviômetro da Polícia Federal, R$ 300 mil, R$ 500 mil, na conta bancária de Ciro.
O veleta do Ciro só não avisou que os ventos mudariam. De brisa a favor, para vendaval na direção contrária.
O Banco Central fechou o banco de Vorcaro, envolvido em golpes bilionários. A PF, agora, manda raios na direção de todos os que ajudaram nas trambicagens do Master. Ciro é o mais atingido. A ventania da PF na direção do ex-banqueiro preso dispersou as nuvens que encobriam os negócios dele. Os investigadores dizem que o senador é o líder da bancada Vorcaro no Congresso. E a função, parece, rendeu bem.
Os jornais do fim de semana dizem que o presidente do PP, alguns dias antes de apresentar, no Congresso, emenda para beneficiar o Banco Master, redigida pelos assessores do banqueiro, comprou um triplex de R$ 22 milhões em São Paulo.
Mas os ventos mudaram mesmo. Flávio, confirmando o estilo bolsonarista de não carregar peso, já deixou Ciro ao relento e debaixo de chuva e trovoadas. Disse que a citação do senador como vice dos sonhos não passou de uma cortesia.
Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas e também presidenciável, escreveu numa rede social que “Vorcaro bancou jatinho, hotel de luxo, lagosta e whisky pra político vendido encobrir fraude no Banco Master. Foi isso que a PF revelou.”
Ronaldo Caiado, candidato do PSD, não se manifestou sobre o temporal que flagela Ciro Nogueira. Mas os dois não dividem guarda-chuva desde 2025. Ciro disse que Caiado não reúne condições para ser candidato da direita ao Palácio do Planalto.
E de sonho de vice de Flávio Bolsonaro, o pepista, expoente do Centrão, virou pesadelo para toda a direita. Lula agradece…
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