Acordo tarde mais uma vez. É desafiador aceitar o fato de que você pode viajar para um lugar distante apenas para acordar tarde, simplesmente porque isso, no tempo agitado em que vivemos, é também um privilégio. O bairro de São Vicente em que estou é muito silencioso; o movimento de suas ruas inicia muito tarde da manhã. Vejo, pelas 9h ou 10h, da minha janela da mansarda do terceiro andar, os primeiros turistas saindo de seus apartamentos de plataforma para conhecer Lisboa. Vejo a senhora idosa do outro prédio olhar a mesma rua que olho com curiosidade. Mas ela é moradora aqui e deve fazer isso há anos; eu não, estou deslumbrado, pois estou fazendo isso há poucos dias. Eu saio muito depois desse movimento, lá pelas 11-12 horas da manhã. Ainda que, lá pelas sete horas, eu tenha despertado por ouvir algum barulho do movimento dos caminhões de lixo, mesmo estes ainda estão ao menos uma quadra distante de meu apartamento e eu volto a dormir depois.
São nove horas, um horário razoável para o despertar de um casal de aposentados em viagem a Lisboa. Eu sei que muitos acordam mais cedo para “aproveitar mais”, mas o que é isso? Correr pelas paisagens e monumentos? Pegar cedo o bondinho para ter o melhor lugar e vista para fotografar? Tudo isso lembra o produtivismo capitalista, agora no modo “férias”. Não, não quero fazer minha viagem a Lisboa assim, pois tudo nesse ritmo lembra a obrigação de rendimento, ir de um monumento a outro numa corrida. Não é o que quero aqui: o que quero é abrir minhas janelas, olhar o sol radiante da rua formosa onde estou e preparar o café da manhã para mim e minha esposa. Na verdade, café da manhã é preparado de véspera, já que passamos no supermercado Econômico, onde compramos croissants e demais doces para o café do dia seguinte. Como a farinha portuguesa é sem transgênicos, minha esposa não é celíaca, mas tem sensibilidade ao glúten, por isso sofre com os pães brasileiros. Só há um lugar em Porto Alegre com farinha igual, a confeitaria PortuGaia, na rua Lima e Silva. A razão é que eles a importam. Aqui em Lisboa o trigo é muito bom porque é importado de países como França, Alemanha e Espanha. O trigo europeu resulta nesses fascinantes pães cacetinhos, que aqui são chamados de ‘d’água’, pois sequer são chamados de pão. “Me dá duas águas”, dizem. Gosto do seu aspecto rústico. Cada “água” aqui é única, diferente de nossos cacetinhos de supermercado que, mais uma vez, nos termos de Han, reproduzem o “inferno do igual”.
Continuam as mobilizações estudantis
Após o café, novamente ligamos a televisão. Ainda estou com o jornal Público e os exemplares do Le Monde Diplomatique que leio vagarosamente. Já me disseram para ver no celular. Jamais! Eu sou das antigas, gosto de folhear uma folha após a outra, sentir o cheiro do papel. Na televisão, as notícias agora são dos protestos dos estudantes. Apesar de o movimento estar atuante durante todo o mês de março, eles concentraram, no dia 24, Dia Nacional do Estudante, forte mobilização nacional, reunindo milhares de alunos de todo o país contra o aumento dos custos do ensino superior e por melhores condições de vida. Os estudantes foram às ruas para exigir gratuidade do ensino superior, criticando as tentativas de descongelamento ou aumento do valor das propinas, nome dado à taxa anual que são obrigados a pagar. É que, diferente do Brasil, o ensino público aqui tem uma taxa anual de 697 euros. É claro que o ensino privado é bem mais caro, chegando a até 20 mil euros anuais, mas os estudantes defendem que o ensino público deve ser gratuito, o que concordo. Se não fosse pelo ensino público brasileiro, eu não teria me formado e feito pós-graduação, não seria quem eu sou, e eu sou grato por isso. Também pediam alojamento acessível, já que os estudantes chegam a pagar até 500 euros por mês. Lembro das Casas do Estudante da UFRGS do meu tempo, na av. João Pessoa e na Rua Riachuelo. Sua reivindicação era mais alojamentos estudantis, já que os valores dos aluguéis dos apartamentos, devido ao turismo, impossibilitam o aluguel por alunos.
Uma reivindicação importante era pelo aumento das bolsas de estudo. Eu lembro que, no meu tempo de pós-graduação, isso era uma necessidade. Eu mesmo tive uma bolsa no mestrado e só pude me manter com a bolsa porque era solteiro, mas havia muitos estudantes casados para quem as bolsas eram insuficientes. Imagino aqui. Vejo na televisão que a marcha principal saiu do Rossio em direção à Assembleia da República com mais de 50 organizações estudantis. No mesmo dia do protesto, o ministro da Educação defendeu que a diminuição das propinas seria “regressiva” e sugeriu a sua atualização de acordo com a taxa de inflação, o que intensificou o descontentamento estudantil. Vestidos de preto, simbolizando o seu luto pela educação, os estudantes entoavam bandeiras de ordem. Tanto no Brasil quanto em Portugal, a luta pelo direito à educação acontece no contexto da expansão neoliberal, mas eles, mais do que nós, têm saído mais às ruas para a luta. Que inveja!
A luta estudantil é uma… festa!
Mas as imagens da TV me dizem algo mais. Eu vejo os protestos de estudantes secundários e me identifico também com as cenas de festa que são registradas, sem querer, pela reportagem, ao fundo de cada entrevistado. Há um líder dando seu depoimento racional, organizado, mas logo atrás, afinal, são estudantes, há uma enorme algazarra no deslocamento daquelas dezenas de alunos que passam atrás do entrevistado. É que a luta social é também um momento de festa. Eu queria que a esquerda brasileira resgatasse isso, talvez fosse uma saída à ofensiva da extrema direita. Eles também se divertem na passeata, caçoam uns dos outros, aproveitam para flertar, coisas que fazíamos na idade deles. Na outra matéria que vi, os estudantes reclamaram das condições das escolas, com ratos e baratas na sala de aula, o que me surpreendeu. Em outro depoimento, observei que o aluno estava um pouco perdido nas respostas, talvez tentando também prestar atenção à festa dos estudantes que corria atrás dele enquanto dava o depoimento. A matéria encerra com a descrição da reunião dos representantes com autoridades, como o ministro da Educação.
Estar em um país estrangeiro e ver a sua luta social. Torcer por ela, aplaudi-la, “comunistas do mundo, uni-vos”. A esquerda em Portugal continua sua história de lutas, e aqui são os jovens que a estão protagonizando. Há uma geração nova a entrar na luta política de esquerda em Portugal, mas e no Brasil? As pesquisas dizem que os jovens deixaram de lutar pela esquerda. Pior, quem está despolitizando os jovens no Brasil, entendo, salvo melhor juízo, é o movimento evangélico, ou os movimentos políticos de direita e extrema direita conectados com ele. Vejo nas redes sociais de Porto Alegre uma reunião convocada por uma entidade, que se chama “A Origem”, reunir mais de cinco mil pessoas na volta do Gasômetro, para “louvar o Senhor Jesus”. Vejo o site do movimento no Instagram: criado em abril, já tinha mais de 15 mil seguidores e uma das postagens diz: “o movimento nasceu de uma direção simples e clara: seja obediente, dê o seu máximo e entregue tudo”. É um movimento religioso ou um movimento de cooptação de lideranças neoliberais? Há festa em ambos os lugares, mas em um ainda há uma finalidade política de transformação; no outro, não. Procuro quem organiza “A Origem” e não encontro. Procuro seus patrocinadores e nada. Já os organizadores do movimento estudantil lisboeta se apresentam, assumem seu lugar e citam as mais de 40 entidades que representam. Isso não é estranho para você? Para mim é. É assim que nossa juventude vai sendo cooptada por movimentos de direita, e a de Lisboa não.
A Torre de Belém
O objetivo de hoje é visitar a Torre de Belém. Minha viagem silenciosa até ela é agora com um outro motorista árabe. Eu olho pela janela do Uber e vejo uma empregada negra lavando louça numa casa. Eu sei que ela é imigrante. No mesmo instante, ela me olha; ela sabe que meu olhar de curiosidade é de turista. Estamos num país em que as diferenças se cruzam pelo olhar. O motorista está irritado com o trânsito. Procura rotas melhores e mais rápidas. Ele quer se livrar de mim para pegar mais uma corrida e assim aumentar seu salário. Ele está nervoso com a demora do trânsito e rói as unhas. Estou em Penha de França, a caminho de Belém; é uma viagem longa. Ele ouve o noticiário sobre o Irã. Chego à Torre de Belém e apenas posso dizer um “obrigado”, que o taxista já arranca para outro carreto. É da lida.
Caminho os primeiros passos e, de novo, multidões de turistas; a novilíngua domina o ar. A Torre de Belém está fechada, em reformas. Não tenho sorte, a previsão de reabertura é para o segundo semestre. Deixo de ver o interior gótico sob o terraço que serviu como depósito de armas e como prisão. Eu queria tê-lo visitado, pois os aposentos são famosos por causa da vista e da sua famosa galeria. Ela é de estilo renascentista, com arcadas inspiradas na arquitetura italiana. A Torre de Belém foi encomendada por Manuel I e construída como uma fortaleza no meio do Tejo entre 1515 e 1521, servindo como ponto de partida para os navegadores que viajavam em busca de novas rotas de comércio. É o símbolo da era dos descobrimentos e expansão de Portugal, e o prédio é belo porque está ornamentado com cordas esculpidas na pedra, possui sacadas trabalhadas e torres de vigia em estilo mourisco, além de ameias em formato de escudo. Olho o mesmo rio que os navegadores contemplaram antes de suas viagens: as deles duravam meses, a minha, pouco mais de dez horas. As deles, iniciativas da burguesia; a minha, a da classe média que acessa o turismo de massa. No século XIX, a região foi aterrada no entorno da Torre, estreitando o rio. De aterros, Porto Alegre entende. Foram muitos na capital gaúcha e a natureza cobrou seu preço. Que preço cobrará pelo aterro da Torre de Belém?
O Padrão dos Descobrimentos
Caminho pela região e chego ao monumento chamado Padrão dos Descobrimentos. Ele está estrategicamente situado na beira do rio Tejo e alinha-se à distância com a Torre de Belém. Construído em 1960 para celebrar o quarto centenário da morte de Henrique, o Navegador, o monumento tem 52 metros de altura e foi encomendado pelo governo de Salazar para homenagear todos os que participaram da Era dos Descobrimentos. Henrique, o Navegador homenageado, na verdade nunca navegou. Parece piada de português, mas não é. Seu papel foi de financiador da expansão marítima e criador da Escola de Navegação de Sagres, pois era mestre da rica Ordem de Cristo e governador do Algarve. Quando morreu, tinha o monopólio do comércio ao sul do Cabo Bojador. O monumento tem a forma estilizada de uma caravela, com o brasão de Portugal nas laterais e a espada da Casa Real de Avis acima da entrada. Na proa, a imagem de Henrique, o Navegador, possui uma caravela nas mãos. Seguem-se os heróis dos descobrimentos, como Afonso V, patrono dos exploradores, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães, do lado esquerdo de quem olha para o Tejo. Também estão nele o poeta Camões, com uma cópia de Os Lusíadas.
Olho o monumento que se chama Padrão dos Descobrimentos. Mas por que chamá-lo de “padrão”? Pesquiso e descubro que o nome “Padrão” se refere aos marcos de pedra que os navegadores portugueses utilizavam para assinalar a presença e a soberania de Portugal nas terras que descobriam. O monumento em Belém é uma homenagem estilizada a esses símbolos históricos da expansão ultramarina. Os padrões originais eram assim marcos de soberania, colunas de pedra coroadas com uma cruz e o escudo real (as quinas), destinadas a afirmar a prioridade do descobrimento por Portugal. Os Padrões substituíram as cruzes de madeira na época de D. João II, pois eram perecíveis. O navegador português Diogo Cão (c. 1452-1486) teria sido o primeiro a utilizar esses marcos, colocando-os em locais como a foz do Rio Zaire e no Cabo da Cruz. Embora receba o nome “padrão”, seu design principal é de uma caravela que se lança para o Tejo. Viajar a Lisboa me reaproxima da minha disciplina, a história, da qual me afastei ao adentrar nas leituras de filosofia.
Caminho pela escultura e seu entorno. É uma grande escultura em um espaço vasto. Já estou exausto, e ainda temos muito a caminhar. Ela está profundamente entrelaçada à Idade do Ouro de Portugal, porque foi o lugar escolhido por D. Manuel I para investir os lucros da expansão, construindo grandiosos monumentos e igrejas, parte do espírito da época. Ali estão não apenas a Torre de Belém, mas também o Mosteiro dos Jerônimos, ambos exemplos do estilo manuelino. Voltamos mais duas vezes para ver suas atrações, como o Palácio Nacional da Ajuda, o Museu do Terremoto e, claro, as pastelarias. Almoçamos e caminhamos pelo centrinho de Belém. Demos azar, pegamos um bar fuleiro para almoçar; se tivéssemos caminhado um pouco mais, teríamos escolhido outro. Desistimos de comer o pastel de nata da principal pastelaria local devido ao tamanho das filas. Em seguida, vamos ao Mosteiro dos Jerônimos, que já tem filas. Mas vale a pena. O mosteiro é o ápice da arquitetura manuelina e foi encomendado por Manuel I por volta de 1501, após o retorno de Vasco da Gama das Índias. Os recursos para sua construção vieram dos lucros do comércio de especialidades e de impostos sobre o ouro, sendo administrados pela Ordem dos Jerônimos até 1834, quando as ordens religiosas foram dissolvidas.
Mosteiro dos Jerônimos
Adentro ao mosteiro pela entrada da igreja, que é também do claustro. Quando eu estava na fila enorme para comprar os ingressos, um guarda sugeriu que não era necessário pagar para ver o interior do mosteiro, pois a visita à igreja ao lado era de graça e tinha a mesma arquitetura. Mas tantas pessoas na fila não podiam estar erradas, não? Não é uma visita completa, pois está de fora a ala mais moderna, construída em 1850, também em estilo manuelino. Tudo bem. Adentro e, em seguida, começamos seu roteiro e passamos pelo refeitório, cujas paredes são revestidas de azulejos do século XVIII. Caminho pelo claustro com seus rendilhados delicados e imagens nos arcos e balaustradas, onde paro, com qualquer outro turista, para… tirar fotos! O dia bem iluminado ajuda, mas é preciso entrar na disputa com outros turistas pelos detalhes arquitetônicos que queremos que apareçam nas fotos e, embora não chegue a se formar filas, acho no mínimo ridículo, ainda que ocorra por todo o lugar. Paro para ver o túmulo de Vasco da Gama (c. 1460–1524), o personagem que estudei no ensino médio e na universidade. No ensino médio, estudei como um conteúdo para vestibular, enquanto na universidade, no curso de História, aprendi sobre seu papel na formação ibérica nas aulas de Idade Moderna do professor Deodoro, um professor já com nome de personagem histórico. Ele nos ensinou que Vasco da Gama comandou a primeira expedição marítima em direção às Índias, contornando a África, o que permitiu aos portugueses quebrar o monopólio comercial de árabes e venezianos. Mas ler nunca é a mesma coisa que estar diante do seu túmulo entalhado e com os símbolos de suas viagens marítimas. Eu estava.
Há outra personalidade famosa enterrada no Mosteiro dos Jerônimos. É Alexandre Herculano (1810-1877), historiador e primeiro prefeito de Belém, que está ali também diante de mim em um túmulo, agora na casa paroquial, por onde passo. Estou já adentrando a nave da igreja de Santa Maria, suspensa por pilares octogonais até o teto, que o guarda sugeriu ver. É a mesma sensação de espaço que tinha na infância na Igreja do Rosário, em Porto Alegre, combinada com a sensação da arquitetura que a Igreja Santa Teresinha, também na capital, promove. Essa obra é retratada na história da arte pela pintura de Felipe Lobo, que destaca mulheres em uma fonte em frente ao mosteiro que não existe mais. Hoje existem apenas o estacionamento que dá acesso aos visitantes, as paradas de autocarro e trilhos. A modernidade nos mostra que precisamos da arte antiga para relembrar com detalhes o passado. Inspirado pelo escritor Walter Scott, Alexandre Herculano introduziu o romance histórico em Portugal, reconstituindo minuciosamente a arquitetura e os costumes de época. Não é pouca coisa. Os historiadores do presente agradecem.
Saímos do museu e caminhamos mais um pouco até uma praça. Em frente ao Mosteiro dos Jerônimos está a Praça do Império. Esse é um grande espaço com um jardim de 3,3 hectares. Construído em 1940 para a “Exposição do Mundo Português”, possui uma fonte luminosa e jardins que têm brasões que simbolizam os distritos portugueses. Os monumentos e praças de Lisboa têm sua história registrada em placas por todo o lado que mostram seu motivo para existir; no entanto, eu pouco lembro da história de nossos próprios espaços, exceto, é claro, os centrais de Porto Alegre, como as Praças XV de Novembro, a Matriz ou a Alfândega. Não me lembro de placas explicativas lá. Aqui, a memória acompanha a fundação, mesmo que nem todos os turistas se deem ao trabalho de pesquisar como eu ou olhar as placas explicativas. A praça liga o Mosteiro dos Jerônimos à zona litorânea, mas é difícil achar um banco para sentar, tantos são os turistas. Noutro dia voltaremos e ficaremos um pouco no Largo dos Jerônimos.
Sem comer pastel de Belém
Viajar também é desistir daquilo que todos querem fazer. Desistimos, por exemplo, pela primeira vez – ainda faríamos outras vezes – de ir à Antiga Confeitaria de Belém. Ela é mundialmente conhecida por seus Pastéis de Belém e foi fundada em 1837. O que chama a atenção aqui é o copyright: a Antiga Confeitaria de Belém é o único lugar no mundo autorizado a utilizar o nome “Pastéis de Belém” para os famosos doces. Imagino os monges do mosteiro dando uma “escapada” e indo buscar doces nela. Entretanto, não entendo como a Ordem, extinta três anos antes, em 1834, teria sido responsável pela receita da confeitaria. Será que os monges desempregados teriam então começado a vender pastéis para sobreviver, aproveitando a pequena refinaria de cana-de-açúcar próxima ao mosteiro? É o que diz a história, já que a Crise de 1834, após a Revolução Liberal, os teria obrigado a isso. Mas desconfio que, com tanto espaço no convento e com um enorme refeitório, eles já fizessem os doces muitos anos antes. Os pastéis da Confeitaria Belém seriam então os pastéis do refeitório do mosteiro para consumo interno, disfarçados. Eles deveriam temer fazer doces, afinal, a gula é um pecado.
Estou apenas conjecturando comigo mesmo. Penso que não é a origem artesanal da receita, mas sim o pecado da gula dos monges. Acho graça dessa ficção histórica que imagino, que, no entanto, me parece bem provável. Eu e D. também acabamos de fazer o nosso pecado mortal, que é, em Belém, não comer pastel de Belém, ainda que tenhamos comido pastel de nata, que é a mesma coisa, em outros lugares de Lisboa, que o de PortuGaia não deve nada. Confesso que não foram somente as grandes filas que me impediram; foi uma visão de relance, que ficou registrada na minha retina. Era a visão de uma jovem coreana, com seu pastel de Belém, na rua, em frente à pastelaria famosa, apontando o doce freneticamente para o celular que uma amiga usava para gravar, gesto que é entendido em qualquer língua e que significava “eu consegui”, “eu estou aqui”. Sua imagem, com as filas formadas ao fundo, era a de mais uma youtuber, e isso era demais para mim. Ela não estava ali para experimentar o sabor marcante de uma região, um segredo bem guardado ao longo da história, o símbolo de uma tradição, mas para gerar mais uma imagem para likes e curtidas de seu público. “Que m@rda, são sempre elas, as redes sociais”, penso. Concluo que estamos na era em que o doce de Belém perde seu significado histórico frente à destruição da memória produzida pelas redes. Imagino o olhar do padre desconhecido que inventou o doce dizendo: “Como vocês chegaram a essa m@rda?” “Não sei” – eu responderia e continuaria meu passeio, vendo árabes, indianos, imigrantes em todos os lugares, nas demais lojas ao redor e outros youtubers. Esses árabes só sabem da língua portuguesa o “é barato”. Pergunto um preço: “É barato!” Pergunto se tem tamanho G: “É barato”. Sei pela antropologia que é importante, no contato com tais grupos, negociar. Faço isso, negocio um produto que quero comprar e, de fato, o preço baixa de 15 para 10 euros. Eu estou aqui em Belém, no meio de doces portugueses originais e tradicionais que perdem o seu sentido, e vejo se afirmar os sentidos da cultura árabe do negócio, da pechincha. Bem-vindo a Lisboa multicultural.
Jovens turistas por todo o lugar
Descansamos de novo na praça e pedimos um Uber para voltar, e desta vez o trajeto foi ao longo do litoral, o que foi diferente da ida. O táxi de volta foi outro silencioso. Passamos pelo litoral e vimos mais monumentos. Vejo esses jovens turistas que caminham mais do que eu, e isso me faz sentir em desvantagem, pois vejo menos. Olha aí eu de novo imerso no produtivismo que condeno, o da corrida aos monumentos turísticos! Que olimpíada triste. Turistar cansa. Chego em casa. A primeira tarefa doméstica é estender as roupas no varal. Nessas mansardas, em que a arquitetura é adaptada para aumentar o lucro do proprietário, estender roupa para secar é uma aventura. Você estende seu corpo sobre o telhado, que agora serve como andar, próximo a cordas que estão além da sua linha de segurança, e você teme que vá cair caso a cerca enferrujada se rompa. E olha para o outro prédio e vê alguém que faz igual e descobre que o lisboeta está acostumado, como o brasileiro, a uma vida de riscos. No primeiro dia, só consigo estender as roupas das mais próximas para as mais distantes, mas isso é ruim. Quando você vai colocar as roupas no cordão mais distante, você tenta não olhar para baixo, mas seu olhar e medo o traem e você vê e, de súbito, o chão distante e tem o mal-estar da vertigem. Aprendo que é melhor estender roupas do fio mais distante para o mais próximo. Minha dica: sempre olhe para a frente e nunca para baixo, tateie vagarosamente peça a peça, prendedor após prendedor, de preferência, com a respiração pausada ou lenta. Felizmente, os dias são de tempo ótimo e toda a roupa seca até a manhã seguinte.
Depois de estender a roupa, você vai ao mercado. São cerca de 1 km até o Econômico, essa versão portuguesa do Bistek. A vantagem é ter comida pronta de verdade, já que os armazéns de esquina pouco escapam da combinação pizza-e-alguma-comida-de-caixinha-com-bacalhau. E ainda, como na maioria dos hipermercados, tem uma padaria melhor que a dos armazéns e uma carta de vinhos muito econômica. Fico tentado com os vinhos do Porto, cujas garrafas ficariam elegantes em qualquer estante de sala, mas imaginar voltar para o Brasil com meia dúzia delas é assustador. E se quebrarem? Tomamos os mais variados vinhos diariamente, algo que não faríamos no Brasil, mas fazemos em Lisboa, pois são vinhos muito baratos e muito bons.
Meu supermercado, meu mundo
Em Lisboa, o Econômico está em vários bairros e tem preços competitivos. O meu, o da Graça, está na zona alta, uma área histórica de Lisboa e, por isso, tem seu público de turistas. Entro no mercado e só ouço outros sotaques: alemão, indiano, francês e inglês. Uns, com moeda forte, nem olham o preço; outros, como os indianos, olham e pensam muito antes de pegarem um produto. Há outros mercados próximos que lhe fazem concorrência, como o Pingo Doce ou o Auchan, ambos da Graça. Você aproveita e compara os preços e vê onde há o que você quer mais barato. Diferente do Carrefour, o Econômico não faz parte de uma grande multinacional, mas é a evolução de um comércio de bairro para autosserviço. Como na foto do antigo supermercado Zaffari, pregada na parede da unidade localizada na Protásio Alves, imagino um tempo em que Lisboa era dominada por mercearias familiares, das quais o Econômico era uma delas.
Esse comércio do Econômico, que renuncia à grande corporação, que fica junto à vida de bairro, me chama a atenção; ele é diferente dos grupos como Pingo Doce, fundado no Chiado, e do próprio Pão de Açúcar, o primeiro grande supermercado de Portugal, fundado em 1970, porque se expandiram, inclusive, para outros países. O Econômico não; ele sobreviveu à gentrificação, se adaptou para combinar as necessidades dos moradores e dos turistas. É uma camada de comércio tradicional não absorvida por grandes grupos que se fez moderna naturalmente. Eu posso estar abrindo uma exceção ao meu hábito de criticar tudo que é parte do capitalismo, como sabem meus quatro ou cinco leitores, mas o faço porque, de fato, o vinho deles é muito bom e barato e é onde compro o que quero comer no café da manhã do dia seguinte. Eu me vendo fácil…
Fim de mais um dia
Voltamos para casa para encerrar o dia vendo as notícias. A notícia do final do Dia do Estudante Português, dia 24.3, não foi a passeata dos alunos de todos os níveis pelas ruas centrais da cidade que vi pela manhã: agora, a notícia é o espancamento de professores por estudantes de oito anos numa escola de Sertã, interior de Portugal. Não tenho antecedentes para essa ação em que crianças comemoram seu dia praticando violência contra seus mestres. As agressões, que incluíram pontapés, murros e mordidas, vitimaram três professoras do 1º Ciclo do ensino básico e foram feitas por dois alunos de oito anos. Diz a matéria que as agressões não foram isoladas, mas são recorrentes na escola, envolvendo também funcionários. As professoras ficaram com lesões visíveis, e pelo menos uma delas teve de entrar de licença médica devido ao impacto psicológico. O que faz crianças de tenra idade apresentarem comportamento violento? Há muitas causas envolvidas, desde comportamento desviante precoce, falta de acompanhamento familiar, mas o fato de que há indicações de necessidade de acompanhamento médico e medicação para saúde mental me indica uma coisa: o mundo português de alguma forma está enlouquecendo suas crianças. Está produzindo nelas transtornos comportamentais.
A última notícia me faz divagar. Pelo jornal também descubro que perdi o simulacro de tsunami. Como se não bastasse a ameaça iraniana, que é real, há a ameaça simulada provocada pela expectativa de tsunami. Eu tinha visto as placas de reunião de grupos espalhadas por Lisboa e descobri que estabelecem as rotas de fuga. As sirenes são dadas com antecedência e os pontos são, na verdade, pontos de partida dessa nova circulação de emergência em caso de tsunami na zona ribeirinha. Se soar o alarme, vá para os lugares com placas e corra morro acima. Simples assim. Como assim? É para sair da zona ribeirinha para o alto… correndo? É. Penso de novo no dia que passou, na correria das pessoas junto aos monumentos. Esse é o tsunami real que é, também, e volto à analogia, desculpe-me por isso, leitor, produto do fato de que a cidade é esse verdadeiro supermercado de coisas históricas para ver. Esses monumentos por todo o lugar, essa oferta infindável de bens simbólicos é o equivalente dos produtos das prateleiras de supermercado, que você passa o olho rapidamente para escolher o que lhe agrada. Feitos para serem consumidos pelo olhar, por nossas câmeras à procura de locais instagramáveis, seu efeito é esse tsunami de turistas do mundo inteiro. Eu vi gente fazendo fotografias o dia inteiro e eu mesmo fiz as minhas. Isso só pode ser estrutural, já está arraigado em nossa subjetividade: nada existe e vale mais além da imagem que eu possa produzir, eis a finalidade do turismo, esse supermercado de bens históricos à disposição. Talvez um dia, no futuro, com tanta imigração e pessoas que se cruzam silenciosamente nessa Babel em que não se entendem, tenhamos então, nas ruas, de volta, outro silêncio, sim, mas o ouvido nas galeras que partiam no tempo dos descobrimentos, que era melhor do que o nosso por ser uma atenção a coisas reais, e não porque há uma multidão de pessoas que buscam sobreviver no mercado cultural do qual participam.
Todos os textos de Jorge Barcellos estão AQUI.

