
Venho lendo na última semana Civilizações, terceiro romance do escritor francês Laurent Binet, cujos dois livros anteriores mais ou menos tangenciam as fronteiras do romance histórico. Em HHhH (2010), seu livro de estreia, Binet reconstitui o bem-sucedido atentado perpetrado em 1942 contra o oficial nazista Reinhard Heydrich, então entronizado como governador do Protetorado da Boêmia e Morávia, região sob domínio nazista situada no centro do território que mais tarde seria a Tchecoslováquia e hoje, em sua maior parte, é a República Tcheca. Dois combatentes da resistência local, Jan Kubiš e Jozef Gabčík, refugiados na Grã-Bretanha, voltaram à Boêmia ocupada no final de 1941 e lançaram o ataque contra Heydrich, um dos homens mais perversos do alto escalão nazista (o que quer dizer muita coisa), em maio de 1942.
O atentado foi bem-sucedido porque, bem, Heydrich morreu, mas aí também interferiu o acaso. Os dois conspiradores não conseguiram disparar suas armas (a metralhadora de um deles engasgou) e Heydrich foi ferido apenas superficialmente – por uma granada lançada embaixo do carro que o transportava. Os dois perpetradores em fuga foram cercados e mortos, e talvez seu atentado não tivesse sucesso se não fossem dois fatores combinados: a vaidade consumista de Heydrich e a deficiência tecnológica da Alemanha nazista em pontos fundamentais.
Heydrich estava, no momento do atentado, em uma das posses que considerava mais preciosas, seu automóvel Mercedes-Benz W142 de seis cilindros, carro de luxo que, na época, era considerado um dos veículos mais confortáveis para longas distâncias. Heydrich, claro, se pavoneava em um carro daqueles para dar o exemplo da “tecnologia superior” nazista. O veículo foi exaustivamente “customizado”, para usar uma palavra de nosso tempo, por suas próprias orientações. O que incluiu estofar os bancos do automóvel não com algodão ou lã, mas com crina de cavalo, considerada mais macia e confortável.
A explosão da granada fez com que não apenas fragmentos de aço, mas das crinas do estofamento se alojassem na perna de Heydrich, e a infecção generalizada que se seguiu em consequência deu cabo do nazista fiadaputa em menos de um mês – porque, e aqui vai o detalhe delicioso da história, embora a ciência médica alemã do período fosse lendária em fazer experimentos grotescos em nome de teorias científicas insustentáveis, a Alemanha não havia desenvolvido a penicilina – produto da inimiga Inglaterra. Talvez se os médicos alemães estivessem mais inclinados a pesquisar antibióticos do que a injetar tinta nos olhos de prisioneiros, Heydrich tivesse sobrevivido, mas a história foi como foi, e assim, um nazista morreu, o que foi muito bom – qualquer um que não concorde está lendo o autor errado e pode ir ler outra coisa em outro lugar. Claro, em represália, o regime nazista exterminou uma cidade inteira e aumentou o torniquete repressor em que mantinha os cidadãos de “língua não alemã” do território, e isso sim foi uma tragédia.
Renovação
Em HHhH, Binet conta essa história com riqueza de detalhes, mas também faz algo que foi considerado, à época do lançamento do livro, uma renovação radical do gênero romance histórico. Porque o romance não só conta o episódio, ele se conta enquanto composição ficcional. Binet intercala tentativas de narrar a trajetória de Kubiš, Gabčík e Heydrich com longos trechos de uma honestidade desconcertante, nos quais o próprio romancista admite as dificuldades de reconstituir todos os detalhes de uma história já tão distante no tempo e envolta em segredo e confidencialidade durante uma guerra. Ele também se estende sobre as próprias questões éticas envolvidas em romantizar a vida de pessoas reais, principalmente quando uma dessas vidas é a de um carrasco carniceiro responsável por repressão e morte em escalas assombrosas, mesmo em se falando de nazistas. É um livro que corria o risco do desequilíbrio e do desconcerto, mas resulta uma peça sólida e surpreendente.
Seu segundo romance, Quem Matou Roland Barthes? (2015) não tem a mesma inventividade formal, é mais um pastiche de romance de espionagem mesclando “alta” e “baixa” cultura, digamos assim. O semiólogo Roland Barthes é atropelado e morre em Paris em 1980 (o que ocorreu de verdade). Morre e logo há uma corrida absurda de agentes secretos e serviços de inteligência internacionais para tentar encontrar a prova, obtida por Barthes, de que a “sétima função da linguagem” postulada pelo linguista Roman Jakobson, a da capacidade de dar ordens, não só existe como é uma espécie de comando capaz de fazer qualquer um obedecer. Quem também acompanha o caso é um policial conservador e anti-intelectual que alista como seu colaborador um professor universitário que usa seus conhecimentos de semiologia, a ciência dos signos, como base para deduções dignas de um Sherlock Holmes.
Este sim é um romance desconjuntado, dado que seu pastiche selvagem não organiza a narrativa do modo mais coerente possível. É uma narrativa que funciona como sátira, mas não como um romance de gênero, sequer como pastiche de um. Mas tem cenas muito engraçadas, como aquelas nas quais o autor sacaneia o então jovem “bad boy intelectual” francês Bernard-Henri Lévy. Ah, sim, o romance postula que a linguista búlgara Julia Kristeva é uma agente infiltrada dos serviços secretos comunistas, algo que mais ou menos foi comprovado por documentos divulgados em 2018 – depois, portanto, do lançamento do livro – pelo governo búlgaro.
História alternativa
Mas este texto não é sobre os livros anteriores, é sobre Civilizações, romance que venho lendo agora e cuja leitura venho apreciando muito. Trata-se de um relato que reconta a história da modernidade, imaginando a história em seu sentido contrário: e se as tribos nativas das Américas fossem as que invadiram e colonizaram a Europa?
O romance é dividido em quatro partes, falta ainda eu ler a quarta. Talvez o final me decepcione, então não faço aqui um juízo crítico, e sim algumas reflexões sobre a construção da narrativa. Durante boa parte da leitura, não saem da minha cabeça duas outras citações que não têm relação direta com a obra, mas que parecem, para mim, encapsular de um modo muito rico seus propósitos e sua estrutura.
A primeira citação é um poema/provérbio atribuído a George Herbert, poeta galês do século XVI, que diz: “Por falta de um prego, perdeu-se uma ferradura. / Por falta de uma ferradura, perdeu-se um cavalo. / Por falta de um cavalo, perdeu-se um cavaleiro. Por falta de um cavaleiro, perdeu-se uma batalha. / E assim, um reino foi perdido. / Tudo por falta de um prego.” Na origem, é um poema sobre como a negligência com um detalhe menor pode ter consequências desastrosas no quadro mais amplo, mas também serve como uma versão ancestral do postulado “efeito borboleta”, que especula que alterações mínimas em um determinado cenário podem levar a resultados exponencialmente diversos quando suas consequências são mapeadas por inteiro. Logo, é uma ótima advertência para quem pensa em escrever “histórias alternativas”, esse gênero da ficção fantástica que imagina como a mudança de um elemento em um cenário histórico mudaria as consequências futuras.
Como eu já escrevi aqui mesmo na Sler, eu gosto muito da ideia de histórias alternativas, mas tendo a me decepcionar com os resultados quando elas são postas em prática. Isso porque falta a muitos autores e roteiristas desse tipo de narrativa a inteligência analítica e detalhista para imaginar todas as reais consequências que uma mudança provoca numa narrativa desse tipo, e o mais comum é a resolução preguiçosa de reduzir os elementos ao máximo ou simplesmente abraçar a incongruência, e era isso.
Mapeamento
Civilizações, de Binet, é um dos poucos exemplares desse tipo de narrativa com que tomei contato que realmente parece ter sido o resultado de um real mapeamento e prospecção das consequências. Na trama imaginada no livro, ali pelo ano mil da Era Comum, a exploradora viking Freydís Eiríksdóttir, filha de Erik, o Vermelho, e meia-irmã de Leif Erikson, um dos primeiros europeus a de fato chegar ao continente americano (algo que não se ensinava na escola quando eu estudei no Segundo Grau, veja só), em vez de ficar restrita aos arredores da Groenlândia, desce com um grupo de seus guerreiros para o Sul após uma desavença com o irmão.
Freydis e seus exploradores vikings, assim, têm contato com várias populações nativas no México, no Caribe e no Peru. Trocam experiências. Os nativos compartilham provisões e conhecimento com os exploradores sobre a terra, sua fauna e sua natureza, e os vikings ensinam aos nativos a catar turfa e a fabricar armas de ferro. O grupo de Freydis, contudo, se vê obrigado a várias retiradas e a novas viagens depois que sua presença faz com que os nativos que os acolhem caiam doentes de uma enfermidade misteriosa que os vikings consideram uma maldição lançada por Hella e que os acompanha por onde vão. Um dia, contudo, alguns dos indígenas ficam doentes e se curam, e logo outros mais, e é no coração do que virá a ser o Império Inca que Freydis e sua tripulação se estabelecem.
Esse é o engenhoso “prego” da narrativa: tendo Freydis feito contato precoce com os índios, o continente americano desenvolve mais cedo “imunidade de rebanho” aos desconhecidos germes trazidos pelos europeus. Ensinados a trabalhar armas de ferro, os talentosos metalúrgicos nativos da América (que já faziam sofisticados objetos de ouro) estarão melhor preparados quando Colombo desembarcar no Caribe quatrocentos anos depois (o que é relatado na segunda parte do livro), e assim a expedição de Colombo é dizimada e o navegador genovês é mantido prisioneiro até o fim de seus dias. Por meio dele, Higuenamota, a então pequena filha da cacica taino Anacaona, aprende o espanhol.
Consequências
Sem o retorno de Colombo com notícias do Novo Mundo e de suas riquezas, os espanhóis não insistem em novas e custosas expedições, então Pizarro não chega à América décadas depois – o que será fundamental na narrativa de Civilizações. Em um livro que Binet já declarou haver inspirado seu romance, Armas, Germes e Aço, o biólogo americano Jared Diamond analisa a trajetória de diferentes civilizações e as compara para chegar a conclusões amplas sobre o que levou determinados aglomerados humanos à ascensão, à queda, às disparidades, à dominação ou à submissão. Ao mencionar a chegada de Pizarro à América, ele comenta como Pizarro e duzentos homens conseguiram destruir o poderoso Império Incaico. Os nativos vinham de uma custosa e debilitante guerra civil sucessória entre os irmãos Huáscar e Atahualpa, que dividiu e enfraqueceu o império. Os germes trazidos pelos europeus devastaram as populações locais, e, quando Pizarro capturou Atahualpa, nativos numerosos usando vestes acolchoadas e armas contundentes como machados e tacapes não foram o suficiente para vencer as espadas e as armaduras dos poucos espanhóis.
No romance de Binet, a guerra civil entre Huáscar e Atahualpa ainda ocorre, mas não é seguida pela invasão de Pizarro. Acossado pelo irmão, Atahualpa se vê forçado a fugir em direção ao norte, onde acaba por ter contato com os tainos na ilha Quisqueya (não mais chamada Hispaniola), que aprisionaram Colombo e sua expedição. A corte do Inca fugitivo é acolhida entre os tainos, mas não demoram notícias de que Huáscar segue procurando pelas tropas do irmão no arquipélago caribenho. Incentivado por uma agora adulta Higuenamota, Atahualpa decide consertar os grandes navios europeus abandonados na praia e partir em direção às “terras do Leste” mencionadas por Colombo durante seu tempo de aprisionamento. Os hábeis carpinteiros incas restauram os navios e, confiando nas estrelas, os nativos chegam a Lisboa logo após o terremoto de 1531, que devastou a cidade e deixou sua população traumatizada e apática demais para opor resistência.
Inversão
Aí a história segue empilhando os mesmos fatos, mas no sentido contrário. Aproveitando-se da divisão entre os reinos cristãos, tanto em termos militares quanto religiosos, dado que a cisão promovida por Lutero está a pleno, são os 200 indígenas que acompanham Atahualpa que submetem o poderoso império espanhol e estabelecem domínio na Europa. Até ocorrerem episódios inesperados que eu não vou me estender porque já contei demais.
A parte dedicada às façanhas de Atahualpa é a mais longa do livro (220 páginas de um livro de 328) e é ela que me fez pensar na segunda citação que mencionei de passagem no início, retirada de um livro do escritor britânico Mark Fisher: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o do Capitalismo” – uma ideia que Fisher sistematiza, mas que está já presente na obra de pensadores marxistas como Fredric Jameson e Slavoj Žižek. A frase de Fisher, presente em Realismo Capitalista, é o ponto de partida para uma reflexão sobre como o capitalismo se impôs como único sistema viável na imaginação literária e coletiva, ao ponto de ser mais fácil encontrar narrativas distópicas sobre o fim da civilização com a sua queda do que pensar que tipo de organização social poderia substituí-lo. E é aqui que aumenta mais meu encanto com Civilizações, porque Binet faz exatamente o contrário dessa tendência, e constrói com sua história alternativa a narrativa de um “outro mundo possível”, para usar uma expressão da época em que Porto Alegre abrigava o Fórum Social Mundial e não a South Summit.
Consolidado seu poder, Atahualpa faz uma grande reforma agrária, incorpora à propriedade comum terras usurpadas pela nobreza, libera a exploração da floresta pelo povo comum, abole impostos em dinheiro, trocando-os por prestações de serviços à coletividade duas vezes por ano. Decreta a liberdade religiosa, estabelece um novo culto, ao deus Sol, e extingue qualquer forma de servidão. À medida que decisões como essas são colocadas em vigor nos territórios que Atahualpa ocupa e sua notícia se espalha pelas outras nações europeias, crescem as revoltas populares exigindo que as mesmas regras sejam adotadas em seus territórios, o que facilita a expansão da colonização inca do “novo mundo” europeu (da perspectiva dos indígenas).
Imaginação
Como eu disse, faltam ainda umas trinta páginas da quarta parte – pelo que vi, ela é centrada na figura de Cervantes, anos depois da colonização indígena. Não sei se o final não vai me decepcionar, mas até agora a leitura tem sido uma aventura prazerosa pela engenhosa construção de seu enredo e dos aspectos “alternativos” levantados por ele. E por esse simples, mas revolucionário dispositivo, o de imaginar, de especular, de criar, nem que seja na ficção, uma alternativa menos cruel e exaustiva da modernidade, não pautada pela ânsia de acúmulo capitalista que ainda vai matar 90% da população enquanto os outros 10% se refugiam em torres fortificadas ou em bases marcianas.
Mais do que uma grande leitura, Civilizações é um lembrete do quanto pode a imaginação em tempos difíceis.
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