
Em 16 de abril, durante a Conferência Livre do Movimento ODS RS, foram debatidas perspectivas para o estado gaúcho, incluindo formas de organização, áreas de atuação, mobilização e o papel das iniciativas locais na resiliência comunitária e na adaptação climática.
Como pesquisadora, desenvolvo estudos sobre coletivos femininos, com foco nas interseções entre gênero, território e mudanças climáticas. Nessa perspectiva, chamou-me atenção a presença de tantas lideranças femininas e de coletivos de mulheres na Região Metropolitana, especialmente de Porto Alegre. Ao mesmo tempo, observei a ausência de mulheres indígenas nesse espaço de diálogo — algo que se tornou ainda mais evidente às vésperas do Dia dos Povos Indígenas (19/04).
Esse contraste revela não apenas lacunas de participação, mas também a invisibilização de saberes fundamentais para pensar a sustentabilidade e o enfrentamento das mudanças climáticas.
Do cuidado cotidiano com o espaço vital à preservação da memória dos ciclos da natureza, mulheres indígenas lideram práticas de adaptação climática, proteção da vida coletiva e fortalecimento comunitário. A precipitação extrema registrada em 2024 expôs desafios significativos, mas também evidenciou estratégias fundamentais para reduzir danos, preservar saberes e reconstruir vínculos comunitários.
Não está em jogo apenas um evento climático extremo, mas a continuidade de modos de vida profundamente ligados ao ambiente. Nessas situações, mulheres indígenas organizam respostas imediatas, articulam redes de apoio, distribuem cuidados e sustentam a estrutura comunitária, com base em iniciativas consolidadas de solidariedade e gestão coletiva.
Um protagonismo construído ao longo do tempo
A centralidade das mulheres na relação com o ambiente atravessa a história de muitos povos indígenas. Pesquisas em arqueologia, antropologia e história indicam seu papel na produção de alimentos, no manejo de recursos naturais e na leitura dos ciclos ambientais, orientando decisões de subsistência e proteção. Antes de se tornar um conceito técnico, a adaptação climática já era uma prática cotidiana.
No Brasil, a organização política de mulheres indígenas ganha visibilidade a partir da década de 1970, ampliando suas pautas para incluir afirmação cultural, defesa da vida, direitos, saúde, educação e sustentabilidade. A crise climática insere-se como desdobramento dessa luta, em que o território constitui base do presente e do futuro.
No RS, muitos coletivos de mulheres indígenas são recentes (a partir de 2007) e conectados às realidades locais. Esses grupos respondem a necessidades imediatas — como cuidado, segurança, acesso a bens essenciais e fortalecimento cultural — ao mesmo tempo em que constroem bases para ações de longo prazo. Em contextos urbanos, periurbanos ou em áreas ainda em reconhecimento, destacam-se pela mobilização, criatividade e resistência cotidiana.
Dados do Atlas Socioeconômico do RS (2024) indicam 50 terras indígenas no estado: 20 em estudo, 5 declaradas, 3 delimitadas, 19 regularizadas e 3 reservas indígenas. O Censo Demográfico (2022) registra 36.102 indígenas, sendo 50,4% mulheres.
Em terras com maior estabilidade, as organizações comunitárias tendem a sustentar ações mais contínuas e integradas à proteção ambiental. A Terra Indígena da Guarita, no noroeste do Estado, que abrange os municípios de Redentora, Tenente Portela e Erval Seco, reúne iniciativas estruturadas de organização social, cuidado ambiental e transmissão de saberes, mostrando como o fortalecimento local favorece práticas sustentáveis e planejamento comunitário.
O evento de precipitação extrema afetou duramente as comunidades indígenas do RS, atingindo diretamente mais de 80 comunidades, algumas com alta gravidade. Nesse cenário, mulheres indígenas assumiram a liderança na organização comunitária, na gestão de doações, no apoio às famílias e redes solidárias com outros povos e parceiros. O fortalecimento de coletivos como o Fág Jãre Fag, da Terra Indígena Fag Nhin (Porto Alegre), exemplifica como crises também impulsionam articulações intercomunitárias e novas formas de ação coletiva.
Em outras aldeias, como Aldeia Por Fi Ga (São Leopoldo), as mulheres mantêm a mobilização apesar de desafios e instabilidades. Esse trabalho cotidiano sustenta a defesa da memória e da vida comunitária, com ações de educação intercultural, cuidado ambiental e construção de futuro.
Embora existam alguns dados sobre a localização desses coletivos no RS, ainda persiste uma lacuna significativa de informações sobre as ações concretas desenvolvidas em seus territórios. O conhecimento disponível, baseado sobretudo em entrevistas pontuais, ainda é insuficiente para apreender a diversidade, a continuidade e o impacto dessas iniciativas.
Nesse sentido, torna-se fundamental avançar na sistematização e no detalhamento dessas informações, a fim de compreender de forma mais precisa o alcance dessas ações. Mais do que apenas mapear a existência desses grupos, devemos conhecer e valorizar suas práticas, reconhecendo seu protagonismo na construção de soluções territoriais e promovendo políticas que dialoguem com essas realidades e práticas já em curso.
A atuação desses coletivos não se limita ao período posterior aos desastres, mas sustenta estratégias permanentes de adaptação: agricultura e horticultura para garantir alimentação, proteção de fontes de água, redes de cuidado, preservação de plantas medicinais e práticas de cura, transmissão cultural e defesa dos seus valores como base para a autonomia coletiva. Para essas lideranças, o clima é dimensão concreta da vida cotidiana.
Assim, aprender com os conhecimentos indígenas representa não apenas um reconhecimento cultural, mas uma necessidade estratégica para enfrentar os desafios contemporâneos, configurando-se como patrimônio essencial para o futuro coletivo.
No RS, a atuação das mulheres indígenas mostra que justiça climática se constrói no próprio ambiente. O clima não é uma abstração, mas uma condição para a continuidade de um modo de vida. Por isso, seu protagonismo deve estar no centro das decisões e das ações.
Reconhecer a potência dos coletivos de mulheres indígenas — sobretudo em regiões periféricas, rurais e não metropolitanas — exige visibilizar suas trajetórias e práticas.
Dar voz e vez a essas iniciativas é reconhecer que saberes e formas de organização das mulheres indígenas são fundamentais para pensar a adaptação climática no RS. Valorizar suas lideranças, apoiar suas ações e dialogar com seus conhecimentos é um passo essencial para fortalecer comunidades mais resilientes e solidárias.
Veridiana Ribeiro é doutora em Geografia e pesquisadora no Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do RS. Signatária do Movimento Nacional ODS RS. Atua em projetos socioclimáticos, articulando gênero, clima, território e comunidades, com foco em políticas públicas.
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