
Nunca fui de ter ídolos. Acho que isso tem relação com algo que meu pai dizia para aliviar minha timidez: “Não tenha medo, vá tranquila, lembre que todo mundo tem seus problemas quando chega em casa.” De algum modo, aquilo colocava todas as pessoas no mesmo patamar.
Foi no Fronteiras do Pensamento de 2016 que percebi que, para muita gente, eu tinha um ídolo. Naquele ano, o tema era A Grande Virada e, entre os convidados internacionais, viria Jan Gehl, autor de um livro que se tornou praticamente obrigatório entre planejadores urbanos: Cidade para Pessoas.
É um livro que utilizo em aula porque consegue algo raro: ser profundamente esclarecedor sem deixar de ser agradável de ler. Funciona tanto para estudantes e profissionais de arquitetura e urbanismo quanto para quem simplesmente se interessa por cidades. Talvez porque seja muito bem ilustrado, talvez porque Gehl escreva de maneira quase afetiva sobre o espaço urbano.
Dias antes do evento principal, ocorreu o Fronteiras da Educação, carinhosamente apelidado de “Fronteirinhas”, iniciativa voltada a estudantes de escolas públicas. Por alguma indicação, fui convidada para conversar sobre as ideias de Gehl e lá encontrei um grupo de jovens extremamente atentos às provocações sobre cidade, espaço público e convivência.
Na abertura da venda dos ingressos para a palestra oficial, veio a surpresa. Recebi entradas de pelo menos três associações com as quais colaborava na época. Meu grupo de pesquisa vibrou, ninguém iria perder a oportunidade. Durante o evento, várias pessoas diziam: “lembrei de ti quando comprei o ingresso”. Naquele dia me senti completamente Gehlzete.
Mas, curiosamente, houve algo mais marcante que a palestra em si: foi perceber o entusiasmo coletivo de centenas de pessoas reunidas para ouvir alguém falar sobre algo aparentemente simples: a importância das pessoas nas cidades.
Já se passaram dez anos desde aquela noite. E, nesse tempo, o nome de Gehl se tornou presença constante em discursos de políticos, urbanistas e gestores. Isso é ótimo. Mas seria ainda melhor se os gestores das cidades tivessem conseguido incorporar mais profundamente aquilo que tanto citam. Afinal, não deveríamos utilizar nomes de ídolos em vão.
Uma das ideias centrais defendidas por Gehl é que cidades mais seguras são aquelas em que diferentes grupos sociais ocupam o espaço público de forma cotidiana. E sabe quem são esses grupos?
São os que caminham, pedalam, andam de skate, usam patinetes, passeiam sem necessariamente consumir nada. Mas principalmente os que permanecem: pessoas que sentam na praça, conversam, fazem esporte, organizam encontros, tocam instrumentos, participam de feiras, eventos, saraus ou simplesmente ficam.
Porque permanência produz segurança.
Em Porto Alegre, há muitos exemplos dessa ocupação afetiva da cidade. A Noite dos Museus, por exemplo, lota ruas e espaços culturais, revelando um enorme público disposto a viver a cidade. Todos ocupamos o centro à noite e o resultado é uma experiência mágica.
Eventos como a Bienal do Mercosul, o Porto Alegre em Cena, o Fronteiras do Pensamento, o Summit ou o Acampamento Farroupilha são fundamentais em promover proximidade com espaços da cidade. Mas poderiam ser ainda mais ricos se dialogassem com os movimentos espontâneos que dão autenticidade à vivência urbana.
Na cidade existem iniciativas menores, organizadas pela própria sociedade civil, que são fundamentais, pois sustentam a vitalidade urbana de forma contínua.
O Salve Corre percorre semanalmente o Centro Histórico. A Massa Crítica organiza pedais noturnos. Há caminhadas históricas e arquitetônicas, batalhas de rima na escadaria do Viaduto Otávio Rocha, blocos de carnaval ocupando ruas e parques de bairros, aulões de yoga em praças, feiras criativas, academias de samba, rodas de música nas calçadas e coletivos culturais espalhados pela cidade.
Seguramente esqueço várias ações que, ao mesmo tempo em que cuidam da nossa saúde mental, ajudam também a cuidar da cidade. Porto Alegre possui uma forte cultura de ocupação urbana, de encontros coletivos e de eventos híbridos entre esporte, cultura e convivência. Mesmo com pouco incentivo, há muita gente batalhando para que nosso porto não deixe de ser alegre.
E isso importa mais do que parece. Porque construir vínculo urbano também é construir pertencimento.
Talvez um dos eventos de que mais sinto falta seja a Serenata Iluminada, que ocupou o Parque Farroupilha entre 2012 e 2019. Misturava piquenique noturno, música, lanternas, intervenções artísticas e encontros coletivos. Jovens, famílias, curiosos — milhares de pessoas compartilhando a cidade de forma simples e democrática. Guardo lembranças dos meus filhos pequenos desfrutando daquela aventura.
E esses eventos “orgânicos” normalmente não precisam de megaestruturas. Precisam, sobretudo, de uma cidade que não dificulte sua existência.
Talvez esteja aí uma mudança importante de visão sobre política pública. Em vez de apenas se preocupar em criar grandes eventos, o poder público poderia encontrar formas de apoiar os pequenos ecossistemas urbanos que já existem.
Porque muitos encontros desaparecem não por falta de interesse, mas por abandono: iluminação precária, falta de manutenção, insegurança, transporte insuficiente, excesso de burocracia. O descaso faz as pessoas deixarem de permanecer na rua — e a rua vazia se torna insegura.
É preciso investir em que as pessoas permaneçam na cidade.
Pequenos editais, licenças simplificadas, apoio logístico, banheiros públicos, limpeza urbana, transporte urbano noturno e espaços públicos de qualidade podem sustentar redes culturais inteiras.
Calçadas caminháveis, praças ativas, sombra, mobiliário urbano e ciclovias aumentam enormemente as chances de encontros espontâneos acontecerem.
Talvez por isso o projeto da orla, do urbanista Jaime Lerner, tenha provocado tamanho impacto em Porto Alegre. Esta área cuidadosamente projetada presenteou a cidade com um espaço público qualificado e aberto para diferentes tribos urbanas permanecerem. Abriu uma espécie de portal, onde passou a parecer natural ocupar a cidade tanto de dia quanto à noite, misturando esporte, lazer, cultura, comércio e simples contemplação.
Às vezes caminho por ali e tenho a sensação curiosa de estar turistando na minha própria cidade.
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