
O texto que eu planejava para esta semana deveria ser mais um sobre minha viagem a Lisboa, que, como sabem meus 2 ou 3 leitores — cada vez tenho menos —, publico aqui antecipadamente como parte de meu próximo livro de memórias. Ele já estava pronto para ser enviado para meu editor, mas a morte de Edgar Morin (1921-2026), na última sexta-feira, foi demais para que eu deixasse o fato passar em branco. Peço, portanto, desculpas ao leitor por este texto inesperado e um tanto emocionado, mas, principalmente, feito às pressas e talvez não suficientemente revisado. O objetivo é afirmar que, frente à morte de um dos maiores pensadores de nossa época, a luta contra a extrema-direita, o fascismo, a opressão e a desigualdade precisa continuar, mesmo que vejamos, a cada dia, sucumbirem aqueles que nos inspiraram nessa caminhada.
Meus ídolos morrem…
É que eu vi muitos intelectuais morrerem ao longo de minha trajetória. É da vida. Roland Barthes havia falecido em 1980, três anos antes de eu entrar na universidade. Sou da turma de 1983, e uma das primeiras obras que li foi seu Fragmentos de um Discurso Amoroso (Francisco Alves, 1980), identificando-me com a extrema solidão que ele narrava. No ano seguinte ao meu ingresso, faleceu Michel Foucault (1984). Isso significava, para quem estava fascinado ao ler as primeiras páginas de seu Microfísica do Poder (Graal, 1979), perder alguém que adentrara como ninguém não apenas nas relações saber-poder, mas numa crítica radical das instituições. Depois, ocorreram as mortes de Félix Guattari (1992) e Gilles Deleuze (1995), e posso afirmar com certeza que seu O Anti-Édipo (Imago, 1976) foi, para o estudante iniciante que eu era, uma verdadeira revolução do pensamento.
Depois vieram outras mortes de autores cujas obras fui descobrir anos depois, como Jean François Lyotard (1998), autor de Economia Libidinal (Fundo de Cultura Econômica, 1990), e Jacques Derrida (2004), autor de Espectros de Marx (Relume Dumará, 1994). Mas foram especialmente as mortes de Jean Baudrillard (2007) e Paul Virilio (2018) que me abalaram profundamente. Até agora. Não há como ser o mesmo depois da leitura de A Sedução (Papirus, 1991), do primeiro, ou de Guerra Pura (Brasiliense, 1984), do segundo. Se houve um dia uma Escola de Atenas em que os alunos acompanhavam vivamente as ideias de mestres como Aristóteles, a minha escola era a Escola de Paris. Eu acompanhava as obras de pensadores que simplesmente, na falta de uma expressão melhor, abriram minha cabeça para ser o intelectual que sou hoje. E, se sou mais um intelectual de minha geração, foi porque também me inspirei em Morin.
… mas eles marcaram minha geração.
Quem integra a minha geração? Meus colegas de graduação em História, e os que conheci dos demais cursos de Ciências Humanas. A maioria destes autores franceses e suas obras notáveis foram apresentados não apenas a mim nos anos 80, mas a notáveis colegas como Anderson Vargas, Claudia Mauch, Pedro Lairihoy, Francisco Marshall, Pedro Vargas, Cybele Crosseti, Silvio Capaverde, Miriam Finkler Dias, Flavio Krawczyk e muitos outros, cada um seguindo diferentes caminhos profissionais com essa inspiração, tanto na universidade quanto fora dela, em Porto Alegre ou em carreiras que se estendem além do nosso estado. Nós estávamos juntos nas aulas de diversos professores ao longo de nossa graduação; nós éramos apresentados a textos desses autores e, cada um à sua maneira, os perseguiu com vigor. Corri atrás de Virilio e Baudrillard, mas Morin ligou muitos de nós por uma razão: minha geração discutiu em sala de aula um tema fundamental em ciências humanas à época: a crise do saber. Sim, há 40 anos, o saber já estava em crise. Hoje está muito pior. Não sabíamos que uma das consequências dessa crise era a abertura para o que hoje vemos espalhado por todo o lado: a emoção pública como matéria-prima dos processos políticos, o que, como se sabe, resultou na ascensão da extrema direita no espaço político ao longo dos últimos vinte anos.
O que digo a seguir falo de uma forma muito, muito geral: aprendemos com Morin a limitação do que significava interpretar o mundo com base em argumentos racionais, o que dominava nossa formação. Sabíamos que o homem atuava politicamente de forma racional, mas isso deixou de existir no mundo que vimos nascer após esse debate; era como se o paradigma que moldava a esquerda tivesse sido abalado. Eu era então parte daquela esquerda em formação na universidade e me orgulhava disso, mas eu também sentia que faltava alguma coisa, que era preciso abrir mão desta notável perspectiva de interpretação, o materialismo histórico e dialético, se quisesse ampliar minha visão de mundo. A crise da razão, nos termos de Morin, era aceitar a parte da desrazão que a integra. Mas tudo isso é simples demais, e aqui é resumido demais para o autor, que justamente defendeu que, na vida, não podemos ser simplistas, mas adotar o conceito de complexidade. Digo que a morte de Morin tira de nós o último dos pensadores da crise do saber. Morin já era autor de uma obra notável, intitulada O Método (Europa-América, 1977 / Sulina, 1997), mas não era esta obra que nós, simples estudantes de ciências humanas, líamos em nossos cursos de graduação nos anos 80; líamos, isto sim, a sua obra Para Sair do Século XX (Nova Fronteira, 1986). Essa era uma leitura limitada de sua obra, é verdade, mas não menos importante.
Morin, educador
De fato, nos anos posteriores, pelo menos até 2013, quando conclui meu mestrado e após meu doutorado em educação, Morin continuava a ser uma referência porque o próprio, em suas obras, também se voltou para este campo, como em A Cabeça Bem-Feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento (Sulina, 2000), em que critica o ensino enciclopédico (a cabeça “cheia”) ao defender o desenvolvimento da aptidão geral para colocar e tratar os problemas com o pensamento complexo que definiu, interligando as disciplinas, das artes, ciências às humanidades. No ano seguinte, com Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (Cortez/Unesco, 2000), formulou princípios educacionais para combater o erro e a ilusão: ensinar que o conhecimento não é um espelho da realidade, mas uma tradução suscetível a erros; promover um saber capaz de aprender com os problemas globais; ensinar a dimensão humana (indivíduo, sociedade e espécie), que leva diretamente ao seu quarto princípio, o de conscientizar os estudantes sobre o destino comum da humanidade e, para isso, que é necessário abandonar as certezas absolutas, ensinando a empatia e o diálogo. Para Morin, o pensamento deveria formar cidadãos conscientes. Mas todas estas perspectivas vieram depois; todos estes aprendizados levaram mais tempo. Mas, para o graduando que fui, sua abordagem do tema da crise do saber foi essencial à minha formação.
Escrevi sobre a crise do saber no pensamento de Morin em meu livro “Teoria, Historiografia e Pós-modernismo” (Clube dos Autores, 2012), que retomo aqui. Neste livro, resgato em detalhes o contexto de minha formação, especialmente o desencanto que pairava no cotidiano dos anos 80 e que era analisado por três autores e obras principais: Jean François Lyotard, autor de O Pós-moderno (José Olympio, 1986), Edgar Morin, de Para Sair do Século XX (Nova Fronteira, 1986) e Cornelius Castoriadis, de A Instituição Imaginária da Sociedade (Paz e Terra, 1982). Morin era um dos três autores que me apresentaram o tema do desencanto frente à desestruturação de visões de mundo que davam unidade e sentido ao real: o marxismo. Para Morin, o marxismo, como outros projetos ou relatos sociais, era insuficiente para dar uma explicação do real. Isso ocorre porque a sua visão do que é a realidade é definida por um horizonte caracterizado pelo império da ordem e da necessidade: para ele, a realidade era maior e, não somente isso, era também composta de caos e acaso. Essa foi a novidade introduzida por Morin que jamais esqueci, produto da discussão que fazíamos em sala de aula, de trabalhos e leituras que meu amigo Anderson Vargas e demais compartilhávamos entre nós. Isso fascinou a minha geração dos anos 80, da qual participava; foi um elemento do imaginário desta década. Eu via a discussão do pensamento “pós-moderno” como o contraposto ao economicismo e ao materialismo histórico dominante em meu curso na universidade, cheguei a definir-me pós-moderno por muitos anos, graças à leitura posterior de Jean Baudrillard, mas não teve jeito: anos após, com a leitura de Slavoj Zizek e todo o contexto de ascensão da direita do materialismo, em relação à luta social, hoje me sinto o mesmo marxista que iniciou a trajetória intelectual nos anos 80. É preciso voltar à luta. E ela é de classes e não está para brincadeiras. É preciso ser um combatente.
Para sair do século XX
Identifiquei-me com Morin porque ele era um combatente. Sua própria trajetória o atesta, quando o próprio criticou o PC francês. Ele sempre esteve ao lado dos oprimidos e na luta por uma sociedade melhor. Ele foi fundamental na definição de crise do saber dos anos 80 para minha geração. Segundo Edgar Morin, a crise do pensamento moderno era, na verdade, uma crise de uma visão de mundo e dos saberes que aspiravam a conhecer a realidade, e por isso, um dado existencial, conforme expôs em Para Sair do Século XX. Para Morin, a crise provém do fato de que o amplo crédito dado a uma visão de mundo específica foi em vão, pensamento que norteava então os militantes comunistas franceses, que, nos anos 80, se questionavam o porquê de suas teorias não terem dado certo ao verem a emergência de um totalitarismo socialista.
Isto era uma novidade para os estudantes brasileiros e gaúchos como nós, que nos formávamos nos corredores da universidade com uma visão de esquerda em um país que havia recentemente saído do Regime Militar. Eu percebia que a crise se refletia no pensamento intelectual brasileiro: com a consolidação da pesquisa em pós-graduação na América Latina e no Brasil, que observei nos anos 80, os novos autores que liamos também se davam conta de que sua formação no campo do materialismo e a valorização da economia e das classes sociais eram insuficientes para compreender a complexidade da história brasileira. Eles também se faziam a pergunta sobre os limites de suas teorias, daí constituírem-se em um receptáculo para o debate sobre a crise do saber. É que eles também estavam em crise.
Edgar Morin, ao refletir sobre o conceito de crise, propõe que, em primeiro lugar, se parta da ideia da necessidade de criar um novo pensamento. Sua proposta é a da produção de um pensamento complexo adequado a uma realidade multidimensional, em que acaso e indeterminação sejam elementos presentes. Somente com esta nova fundamentação da realidade, nossos projetos terão alcance na orientação e correção das ações humanas. Hoje, eu penso que a esquerda precisa também de um novo pensamento para enfrentar a extrema-direita, pois a emoção pública deve ser recuperada para a construção de uma nova sociedade, e não para sua destruição.
A recepção do debate pela geração dos anos 80
Não foi fácil para a minha geração dos anos 80 reconhecer que seu campo científico estava em crise. Para os historiadores da geração anterior à minha, que se formaram entre os anos 60 e 70, como minha orientadora de graduação, Sandra Pesavento, a base de sua formação foi no que consideravam a melhor concepção de mundo então disponível à sua época: a história econômica, fundamentada no marxismo e no materialismo histórico. Essa geração fez sua formação naquilo que estes autores denominam de “pensamento moderno”, o pensamento oriundo das Luzes, das Humanidades em geral. Minha geração de historiadores encontra a anterior em processo de transição: ela não reage imediatamente a esta crítica, incorpora com parcimônia, diferente de minha geração, que a assume em maior grau. Sandra Pesavento encarnou isso: suas aulas mesclavam o melhor da historiografia inglesa (marxista) com a da chamada Nova História (a francesa, não marxista). Estávamos todos às voltas com nossos paradigmas.
Morin considera os paradigmas como problemas, definindo-os como “distinções, ligações, oposições fundamentais entre algumas noções mestras que controlam o pensamento” necessário para compreender o que ele denomina de Complexidade. Para o autor, os recursos intelectuais que até agora dispomos para explicar a realidade terminam por mutilar nosso pensamento. Eles são herdeiros diretos da tradição intelectual do século XVII, que separa o sujeito do objeto quando não deveria ser assim, porque o sujeito tem papel na construção do conhecimento. Morin alerta para as instâncias de proteção subjetiva que possuímos contra as informações que contrariam a nossa ideologia política. Não vejo melhor expressão dessa proteção subjetiva hoje do que os bolsões bolsonaristas dos grupos de WhatsApp e das redes sociais. Morin dizia que nossas racionalizações tendem a fazer encerrar o real em conceitos, perdendo a sua capacidade explicativa, mas, para a teoria ser viva, o confronto com a realidade é fundamental. Estamos nesse exato momento em que isto é necessário para avançar a luta social.
Quando li autores críticos do marxismo, entre eles Morin, em minha graduação, vi que eram os únicos a darem conta de um problema central: como incorporar a subjetividade na política. Mas esses autores, entre eles Zizek, recém-traduzido no Brasil, entre outros, eram rejeitados pela maioria dos professores, “um modismo”, como diziam. Morin era um dos raros a ultrapassar o crivo de alguns professores, que usavam seus textos em sala de aula. Morin teve um papel fundamental em nos ressignificar o papel do relato histórico, que deixou de ser apenas o produto de um consenso e passou a ser uma das várias explicações, aproximando o historiador de outras disciplinas. E, vinculado a esta nova visão de interpretação da realidade, Morin nos apontava que “não podemos isolar totalmente um fenômeno para compreendê-lo, pelo contrário, [temos] a necessidade de ligá-lo às suas articulações naturais”. E isto é o que o autor define como a própria complexidade.
A complexidade de Morin
Morin propõe a introdução do conceito de complexidade, ideia ligada necessariamente a uma nova noção de sujeito, o que nos interessou como estudantes preocupados com a recuperação da História Total, como víamos fazer Fernand Braudel. Uma parte dos historiadores da minha geração participa das discussões realizadas em sala de aula na universidade, em diversas disciplinas em que a literatura crítica ao saber científico é abordada, desde a graduação até a pós-graduação, conforme é conduzido por Morin, especialmente na sua crítica ao marxismo. Na luta da historiografia marxista com uma parcela da Nova História que testemunhei, o discurso marxista, ao se reconhecer enquanto legítimo portador da verdade, não podia admitir algumas conclusões da historiografia francesa, como propunham as obras de Michel Foucault, entre outros autores não marxistas. A ideia de novos temas, objetos e problemas, como o cotidiano e a sexualidade, apontava para a relação entre disciplinas defendida por Morin. Eu defendi em meu livro “Teoria, Historiografia e Pós-modernismo” que foi a luta de posições do campo das humanidades nos anos 80 e sua recusa de dar um passo a mais em direção à subjetividade, a desrazão de que fala Morin, que foi o que freou, vinte anos depois, a capacidade dos intelectuais de esquerda diagnosticarem e proporem estratégias para os movimentos tecidos pela extrema direita. O tempo mostrou, como previu Morin, que há coisas que não são passíveis de serem apreendidas pela racionalização, que vão escapar à racionalidade da história na própria história. Esta não é uma definição adequada para o bolsonarismo? O conhecimento histórico, quando pensado com as categorias do presente e da razão, despreza a capacidade criativa da loucura, assinala Morin. Nessa nova concepção de realidade, emerge uma nova imagem de homem: o “homo sapiens demens”, que busca contrapor-se a uma visão de homem notadamente tecnoeconômico.
A esquerda não conseguiu antecipar-se à loucura, à criação dos mitos e ao imaginário “demens” de nossa história recente. Por isso Judith Butler defende que a esquerda não tem o direito de julgar a classe trabalhadora que vota na direita; antes, precisa escutá-los sem medo. Essa posição revela exatamente o lado “demens”, de que fala Morin; ele está justamente aí, no medo que têm essas populações em sua vida cotidiana. Alguém consegue entender como um trabalhador é capaz de votar em representantes dispostos a retirar seus direitos, se não pelo fato de que é a direita que está oferecendo respostas práticas a seus medos? Alimentada por uma visão objetiva e racional do mundo, a esquerda foi incapaz de perceber a radicalidade das novas transformações sociais em direção ao irracional no Brasil. O populismo e o fascismo estavam nesse meio. Por ignorarmos o imaginário, mutilamos a interpretação da realidade, diz Morin. Vi o debate sobre o pós-moderno, nos anos 80, como essa tentativa de introduzir a estética como um novo paradigma de conhecimento em substituição à economia. A cruz que minha geração carrega é reconhecer o fracasso e o desastre provocados por suas crenças do passado, que permitiram a emergência da extrema direita. Nós não fomos capazes de nos antecipar a ela nem a seus movimentos. Quando ela surgiu, não tínhamos ferramentas teóricas para denunciá-la. Para Morin, é necessário lidar com as lições das desilusões, pois ainda estamos carentes de uma visão de mundo que una ação e reflexão. Essa visão de mundo ainda está para ser construída: para Butler, ela passa por construir pontes de respeito e dignidade; para Han, ela implica sair das redes sociais e conversar diretamente com as pessoas, exatamente como propus em minha obra O futuro da esquerda está no passado (Clube dos Autores, 2025).
Ver o que o mundo é
Essa abertura de “ver o mundo como ele realmente é”, que propõe Morin, significa renunciar a juízos de valor decorrentes da não adequação da realidade aos modelos que costumamos utilizar para descrevê-la. Foi o que fez Judith Butler, pois, em sua visão, a esquerda isolou-se em bolhas sociais, e sua linguagem analítica terminou por distanciá-la das classes populares. A crise do saber apontada por Morin, portanto, aponta uma falta cultivada ao longo de séculos, mas também uma solução. Ela não apenas persiste, mas foi radicalizada e modificada pelas transformações tecnológicas e políticas do século XXI. Morin previu que a crise do saber não vinha de sua escassez, mas de seu excesso e sua má organização. Ele dizia que, enquanto fosse um conhecimento em “caixas”, hiperespecializado, perder-se-ia a capacidade de enxergar o que une as partes ao todo; previu o surgimento da tecnoburocracia, desassociada da ética, transformada em ferramenta burocrática. Essas circunstâncias resultam em limitações na produção científica, que Byung-Chul Han denuncia atualmente: a universidade produz conhecimento seguindo as mesmas regras do mercado. Isso não é a produção engajada que deve ter uma universidade, e esta não ajudará na transformação social assim.
Morin também previu a crise das ideologias globais e mesmo as de progresso, cuja técnica terminou por gerar novas prisões, como anteciparam também Virilio e Baudrillard e, mais recentemente, Zizek. O que agravou o diagnóstico de Morin? A entrada na era digital e a crise da democracia. Novas frentes surgiram para a crise do saber: sua realização se dá hoje na algoritmização do mundo e na crise da verdade nas redes sociais, por meio das fake news. Esse debate proposto por Morin foi levado adiante por outros autores, como Boaventura Sousa Santos, em relação à democracia, e Byung-Chul Han, em relação à informatização da sociedade. O próprio Ailton Krenak, no campo do pensamento latino-americano, é outro exemplo de autor que reivindica a suspensão do modo de conhecimento ocidental-moderno para reaprender formas pluriuniversais, linha que tem na América Latina tomado impulso com as obras de Alberto Acosta. Este autor vem defendendo a transição de um modelo eurocêntrico universal para uma perspectiva pluriuniversal ou plurivérsica, na qual propõe o conceito de Pluriverso, que define como “um mundo onde caibam muitos mundos”, rejeitando a ideia de que o desenvolvimento capitalista e a modernidade ocidental sejam os únicos caminhos possíveis para a humanidade. Acosta é seguido nesse caminho por Arturo Escobar (Colômbia), Maristella Svampa (Argentina), Aníbal Quijano (Peru), entre outros autores. Quem rejeita esse pensamento? A visão tecno-mercadológica dos ideólogos do Vale do Silício e do grande capital, para quem a governança métrica é superior ao pensamento complexo. Este é o campo das lutas hoje.
É possível preservar a alegria no meio de tantas lutas e conflitos? Espero que sim. Olho uma foto que Michel Maffesoli disponibilizou nas suas redes sociais logo após a morte de Morin. Maffesoli mora na Rue de Vaugirard, uma famosa e histórica via que atravessa bairros tradicionais como o Quartier Latin e o entorno do Boulevard Saint-Germain. É um belo e clássico apartamento parisiense, situado no coração intelectual da cidade, próximo à Sorbonne, onde lecionou por décadas. Há em seu apartamento um quadro, a reprodução de uma fotografia de jornal que ilustra este ensaio. Nela, ele está com Morin e Baudrillard. Ali você vê três grandes pensadores que também são grandes amigos que, numa das visitas ao Brasil, entre palestras e confraternizações com pesquisadores locais, pararam em algum lugar para beber uma caipirinha. Eles estão sorrindo. Eu não invejo sua posição acadêmica, o fato de viajarem mundo afora, de terem uma obra internacionalmente conhecida. O que eu invejo é aquele sorriso no rosto, mesmo diante da luta social.
É esse espírito que precisa estar presente na luta. Eu olho para a minha geração, que se inspirou nesses intelectuais. Nós também somos grandes amigos, ainda que muitos estejam com suas carreiras consolidadas em lugares diversos. Se nos reencontrarmos um dia para tomar uma caipirinha, exatamente como na foto de Maffesoli, eu espero que nós também iremos sorrir e compartilhar nossas experiências de luta social. É isso que nos aproxima, a minha geração da de Morin: a de termos amigos e sermos capazes de compartilhar experiências e de manter o sorriso na luta social. Nenhum dos de minha geração escreveu uma grande obra, nenhum de nós teve o privilégio de se transformar em um conferencista de renome internacional, ainda que alguns tenham tido contato pessoal muito próximo a Morin, como Juremir Machado da Silva, que, de certa forma, também é uma celebridade. A verdade é que a maioria de nós fez nosso trabalho de luta com orgulho, com a certeza de estar do lado certo, os mais pobres. Lutamos por um mundo melhor silenciosamente, à sombra desses grandes pensadores que nos inspiram, mas que também se vão, um a um, dia após dia. Eu os vejo partir: mesmo assim minha luta não enfraquece; ao contrário, ela é uma das poucas formas de que disponho para honrar sua memória. Eu a honro continuando a lê-los e lutando. Outros pensadores se vieram reunir, é verdade, lemos suas obras e, como as de Morin, elas também nos inspiram a empreendermos nossa luta contra o capitalismo. Morin morreu e eu fico muito triste, é verdade, mas ele deixou-nos um legado de grande valor: não é possível aceitar uma sociedade dominada pelo fascismo, pela extrema direita e pelo obscurantismo. É preciso fundar um novo conhecimento para enfrentá-los; é contra eles que é preciso recuperar o pensamento. E, nessa luta, não podemos nos privar da alegria de viver bem cada dia, um após o outro, com um sorriso no rosto. Eu entendo que esta mensagem é muito atual.
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