
Sempre fui chamada para ajudar em casa, para responder pelas minhas atitudes e assumir as consequências, boas ou ruins. Assim aprendi com naturalidade a fazer café, arrumar a cama, arrumar uma mesa, lavar uma louça, receber quem chegava para uma visita e cumprimentar, apesar da minha timidez na época, e por aí afora. Nunca fui submissa, aquela que se cala e ponto final. Sempre dei minhas opiniões e argumentei.
Da pré-adolescência, adolescência e juventude, vivi o que era possível no interior, de Jaquirana a São Francisco de Paula, passando pela fazenda perto de Cambará do Sul. Sempre rodeada pela família — pais, irmãos, avós, tias e a legião de primos. Fui morar com meus avós maternos muito cedo, aos três meses, porque Marlene, minha irmã, teve um problema de saúde e nossa mãe precisava ficar atenta ao que acontecia com ela. Acabei ficando com os avós, assim como outras primas que viraram irmãs. Meus pais e irmãos sempre iam me visitar. Quando fomos morar em São Chico para estudar, a convivência se ampliou. Passou a ser cotidiana. E foi bom para todos.
O leque foi se abrindo, fizemos muitos amigos e aprontamos, é claro. “Um bando e muitos outros”, como cantou Bebeto Alves. Invenções e desafios! Até criamos um grupo de teatro e fizemos pequenas apresentações para a família, que apoiava. Tudo encarado com responsabilidade, porque o compromisso era dar conta das nossas escolhas em sintonia, ou não, com as possibilidades da família.
Assim passei por Novo Hamburgo, onde fiz o Curso Clássico, morando na casa dos tios Plínio e Dilma. Depois, Porto Alegre e a faculdade. A escolha pelo Jornalismo, que fiz na Unisinos, teve a ajuda do meu amigo José Walter de Castro Alves, o Zé Walter. No primeiro semestre da faculdade, a possibilidade de um estágio na Zero Hora, indicada pelo professor de redação. Aí veio o primeiro emprego no Departamento de Pesquisa do jornal. Momento de alegria, emoção e medo. A responsabilidade aumentava, mas não pesava. Eu gostava de fazer os textos solicitados pelo pessoal da redação para complementar as matérias dos repórteres. No meio disso tudo, idas e vindas para a Bahia — Salvador, Pelourinho, Arembepe, a Aldeia Hippie e muito mais. O encontro com a diversidade!
Passei ainda pelo Correio do Povo, pela Rádio Pampa até chegar à TVE e assumir a chefia do Departamento de Divulgação e Chamadas. Eu não queria ser chefe de nada, mas esta foi a minha chance de trabalhar em um lugar que era meu sonho. Um compromisso daqueles! Foram quatro anos de muita aprendizagem. Formamos uma equipe incrível e tudo fluiu de um jeito criativo e solidário. Ao sair da TVE, comecei a trabalhar com assessoria de imprensa e as responsabilidades aumentaram.
Hoje me dedico à revisão de textos e livros e escrevo semanalmente na Sler, que abriu uma janela incrível na minha vida. Escrever é libertador! E, de repente, uma lembrança emocionante do meu avô materno, Juvenal, me pega. Ele sempre me desafiou e, quando soube que eu estava trabalhando, traduziu a felicidade que sentiu com uma leitura instigante do meu nome.
“MarLei – Duas forças. Mar, a força da natureza. Lei, a força dos homens”. E assim a minha responsabilidade só aumentou!
Para completar esta sequência, neste mês de maio recebi uma foto enviada pela jornalista Jeanice Ramos — as primas Otília e Kixi e Marlene e eu na porta de entrada da casa dos nossos avós, na Páscoa de 1970, em São Chico, que só pode ter sido feita no dia do aniversário da Kixi, 24 de março. No verso da foto, um texto da Marlene que me comoveu: “Nóis. A Kixi com seus quinze anos. A Oti de roupa emprestada. A Lelei, sempre o equilíbrio na hora certa. Eu, cheia de silêncio e de perguntas. Nóis. Que seria mesmo de nóis sem nóis?”.
“O equilíbrio na hora certa” só ratifica a responsabilidade e o compromisso. E o valor da família, das amizades e da confiança.
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