
Está aberta a temporada de caça ao eleitor. Você vê os banners pelas ruas, é invadido por propagandas nas redes sociais e na televisão, e a política passa a ocupar até os seus sonhos ou pesadelos. Na semana passada, acompanhando as sabatinas do Jornal Nacional, me peguei sonhando que entrava em uma sala de aula pedindo votos, sem saber para quem ou onde. Slavoj Žižek nos lembra que o nosso maior problema contemporâneo é não saber o que desejar, e é exatamente nesse vazio que a extrema direita tenta colocar seus objetos de consumo político para capturar nosso desejo de voto e emplacar o seu projeto.
Como até as pedras da rua dos Andradas sabem, eu sou de esquerda e vejo assim o que está em jogo: não apenas uma luta de narrativas, mas também uma disputa de projetos de nação e uma construção signica para ocultar tudo isso. Vi durante toda a semana o espetáculo deprimente dos confrontos na bancada mais famosa do país; vi o jornalismo corporativo, essa máquina gigantesca da comunicação, promovendo um debate público que esconde uma engrenagem ideológica bem afiada. Para me contrapor a isso, acompanhei a análise de jornalistas e críticos, em especial a de Ângela Carrato, mas também as de Eliara Santana, Luis Nassif, entre outros, porque entendo que suas conclusões merecem repercussão. Contraponho, ao final, a minha própria leitura. Ainda que haja defensores das posições adotadas pela bancada do JN, não estou sozinho na minha interpretação: a condução do programa oscilou entre a complacência com o autoritarismo de direita e a agressividade cega contra o campo da esquerda. Como chegamos aqui?
Quando ainda havia debates
Um pouco de história: desde que há eleições mediadas pela televisão, há debates eleitorais presidenciais. Mas o que me chama a atenção é como eles evoluíram de espaços de apresentação de propostas programáticas para espetáculos midiáticos dominados pela lógica do escândalo e da performance. O que está por trás disso? Os debates presidenciais televisionados começaram em 1960, com o confronto entre John F. Kennedy e Richard Nixon, que marcou a transição do rádio para a televisão como meio dominante de debate e demonstrou a força da imagem frente ao conteúdo: enquanto ouvintes de rádio favoreceram Nixon, os telespectadores elegeram Kennedy visualmente. A partir dos anos 1980, passou-se dos debates meramente transmitidos para debates profissionalizados e engessados por regras rígidas. É nesse período que as discussões que enfatizavam posições políticas e propostas cedem gradualmente espaço àquelas que privilegiam performances e momentos apelativos para gerar audiência.
Ainda que a disputa eleitoral brasileira, assim como a americana, tenha nascido no rádio, até os anos 1950 ela se resumia a pronunciamentos individuais, sem confronto direto. A ditadura militar reforçou esse engessamento com a Lei Falcão, que proibiu debates e restringiu a propaganda entre 1976 e 1985. Em 1989, com a redemocratização, os debates retornaram e foram se consolidando no formato de blocos de perguntas e respostas. A TV Globo assumiu a liderança nesse campo e ficou famosa pela manipulação na edição do debate entre Collor e Lula no Jornal Nacional, posteriormente reconhecida por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Segundo ele, foi produzida uma edição que privilegiou a posição favorável a Collor, gerando críticas sistemáticas à postura da emissora nas eleições brasileiras. Essa estratégia nunca foi esquecida; ao contrário, entendo que foi aperfeiçoada.
Para mim, a partir de 2002, a TV Globo tornou mais explícita a sua ideologia pró-mercado, enfatizando políticas em defesa do modelo macroeconômico liberal – o que significou impor uma pauta à cobertura eleitoral para favorecer a direita. A ênfase nos escândalos de corrupção e nas crises políticas, somada a uma cobertura baseada na semântica da linguagem da guerra e da competição (como analisa Byung-Chul Han), assumiu, nos termos de Žižek, uma espiral de cinismo que simplificou assuntos complexos para o telespectador. Essa mudança de enfoque deixou de lado, pouco a pouco, a análise técnica das propostas para focar no desgaste pessoal de cada candidato. O efeito disso não é apenas a busca por audiência via conflito, mas o próprio cultivo da emoção como categoria política.
Desde os anos 1990, o marketing político incorporou esses mesmos princípios, adaptando-se à lógica do veículo: jingles chiclete, construções emotivas, tudo para seduzir o eleitor. Embora essa seja uma prática adotada tanto pela esquerda quanto pela direita, a polarização reduziu o espaço do debate programático, especialmente no campo da direita. Das ideias, passamos aos ataques aos adversários; dos programas de governo, passamos à caça de escândalos. Sim, às vezes me sinto como o Cândido de Voltaire… Fazer o quê?
O problema é que a lógica do escândalo simplifica assuntos complexos, promove o cinismo frente às instituições e favorece o viés seletivo dos órgãos de comunicação. Esse viés fica claro na adoção do tom acusatório e inquisitorial assumido pelos apresentadores do JN. Sei que há comentadores que acreditam ser esse o atual papel do jornalismo: colocar os candidatos contra a parede. Renato Janine Ribeiro e outros defenderam que os jornalistas estavam certos em cobrar dos candidatos suas contradições recentes. Contudo, o problema, no meu entendimento, é o peso desproporcional dado a isso em um espaço onde o centro deveriam ser as propostas de governo. É o que outros analistas, assim como eu, pensamos.
As características do JN inquisidor
Ainda que a condução das entrevistas se paute formalmente pelas mesmas regras, fica evidente uma assimetria gritante no tratamento dado aos candidatos. Embora tenham sido feitas críticas a todos, a forma como os apresentadores reagem, interrompem, replicam e contestam o que é dito varia drasticamente. Enquanto com alguns candidatos a mediação do tempo e do tom flui como um diálogo de perguntas e respostas, com outros ela se transforma em um embate que foge ao controle e visa destruir a imagem pública do entrevistado. Há uma clara opção editorial pelo abandono do jornalismo informativo em prol de um interrogatório que simula uma acareação policial.
Não foi o que vimos na entrevista do presidente Lula? Quanto do tempo precioso da transmissão foi gasto em tentativas ostensivas de desestabilizá-lo, cobrando respostas sobre familiares e assessores, uma tática que contrasta diretamente com a postura mansa adotada diante de outros entrevistados, como Augusto Cury. A jornalista Eliara Santana sintetizou em suas redes: “Que conduta horrorosa essa do JN com Lula, indecente, tentando acuar o presidente. Não dá para esperar nada diferente. Nenhuma pergunta para saber o que ele vai fazer, o que ele resolveu. Só paulada.” Em vez de canalizar questões de interesse público, os jornalistas se transformaram em uma espécie de Ministério Público da direita – fato que o próprio Lula ironizou —, forçando o candidato a reverter ataques no improviso. O que é isso senão o interesse notável da emissora em desgastar uma candidatura de esquerda? Para isso, a bancada usou diversas estratégias.
A obsessão por controvérsias
A primeira desse modelo é a obsessão por controvérsias. Não quero dizer que candidatos de extrema direita foram poupados do escrutínio sobre suas trajetórias – Flávio Bolsonaro, de fato, não foi. O problema é o peso dado a cada tema e a capacidade de reação dos apresentadores às fake news ditas ao vivo. Se eu tivesse que resumir, diria que pegaram leve com Zema, Caiado e Renan Santos; e pesado com Lula e Flávio Bolsonaro – embora, com este último, a pressão tenha sido afrouxada ao longo da entrevista.
Apenas com Lula o foco dominante foi, nos termos de Angela Carrato, em escândalos requentados e temas morais descontextualizados. Na entrevista com Ronaldo Caiado, fundador da União Democrática Ruralista (UDR), a jornalista ressaltou que os apresentadores se abstiveram de questionar o histórico do candidato ligado à extrema direita agrária, antagônica aos direitos dos povos originários e dos trabalhadores do campo. O mesmo padrão de omissão ocorreu com Romeu Zema. Faltou à bancada revelar ao público que a Zema Financeira foi beneficiada pela Medida Provisória 1.106/2022 do governo Bolsonaro, tornando-se uma das poucas credenciadas para operar o crédito consignado do Auxílio Brasil. A empresa acumulou investigações e denúncias de alto risco social para a população vulnerável, além de usufruir de bilionárias renúncias fiscais de ICMS em Minas Gerais que não foram mencionadas. A obsessão por polêmicas é seletiva: atinge uns para desgastar; silencia sobre outros para proteger, revelando o alinhamento ideológico da emissora com um projeto de nação alinhado à direita.
A invisibilização das propostas
Desde que surgiram os debates eleitorais no mundo, seu objetivo primordial era expor programas de governo. Ainda que a sabatina do JN seja um formato de entrevista, o objetivo deveria ser o mesmo: esclarecer as ideias do candidato para o eleitor. Contudo, as sabatinas negligenciam o essencial: o projeto de cada postulante para o país. O cidadão comum que assistiu ao Jornal Nacional em busca de saídas para as crises estruturais do Brasil encontrou um vazio de ideias. Como apontou George Marques, a cobertura ignorou completamente a geopolítica global e os riscos à soberania brasileira: “A Globo conduziu a sabatina como se estivéssemos diante de uma eleição absolutamente normal, isolada do cenário internacional e das pressões que o Brasil enfrenta.”
Essa falsa sensação de normalidade não se limita ao contexto internacional, mas atinge a própria natureza das propostas em conflito. No cenário democrático, não é possível tratar com equivalência candidaturas que trazem, em seus discursos e em seu passado recente, afrontas explícitas à ordem constitucional. Uma coisa é disputar aceitando as regras do jogo; outra é ameaçar as instituições. Não se podem considerar tais projetos como “normais”. No debate com Flávio Bolsonaro, por exemplo, não se discutiu a transição ecológica, a reindustrialização ou as ameaças externas, como o tarifaço americano e as políticas protecionistas internacionais. A bancada foi incapaz de contestar promessas vazias e discursos demagógicos – como a proposta de anistia aos golpistas do 8 de Janeiro, defendida por Caiado sob o pretexto de “fim da polarização” – , que passaram sem qualquer checagem técnica. As propostas não se tornam invisíveis apenas pelo que se deixa de dizer, mas pelo ato de “deixar passar”.
A falsa equivalência de opostos
O JN busca transparecer isenção quando, na prática, alinha-se aos projetos de direita voltados à defesa irrestrita do mercado. Essa busca por uma “isenção” artificial produz um efeito perverso: mede a civilidade democrática e o extremismo pela mesma régua, nivelando candidaturas republicanas e naturalizando discursos autoritários. Basta olhar a sabatina de Renan Santos (MBL) que, como afirma Angela Carrato, valeu-se de seu “estilo metralhadora” para pregar o descumprimento de decisões do STF, a implantação de “regimes de exceção” em favelas e a construção de presídios em massa inspirados no modelo de Nayib Bukele em El Salvador – além de defender absurdos como a produção de uma bomba atômica brasileira.
Sobre esse debate, Eliara Santana diz: “Como é que o JN dá um espaço nobre, 40 minutos, para um projeto de ditador do MBL falar que o Brasil deve ter bomba atômica e defender praticamente um banho de sangue para combater a criminalidade? A imprensa tem de abolir essa palhaçada de dois lados e espaço igual para aquilo que fere a democracia.” Quer dizer, como diz Angela Carrato, ao tratar propostas golpistas como opções legítimas do “debate democrático”, o JN cumpre uma função tática: infla o extremismo caricato para fazer com que outras figuras da extrema direita pareçam “moderadas” e palatáveis ao eleitorado. Não é o caso de Flávio Bolsonaro, candidato que tenta vender em sua propaganda no horário eleitoral uma imagem “familiar e moderada”, enquanto seu radicalismo político é fartamente documentado?
Pauta econômica pautada pelo mercado financeiro
Se a pauta social não é prioridade para a TV Globo, qual é a pauta fundamental da emissora? A resposta é simples: no campo econômico, a bancada do JN atua como porta-voz dos interesses dos do “andar de cima”. O mantra da “dívida pública altíssima e fora de controle” foi repetido exaustivamente para constranger candidatos e induzir a audiência ao pânico fiscal. Até na sabatina mais didática da semana, com Augusto Cury – a única em que os entrevistadores focaram no programa de governo – , esse tema esteve presente. Angela Carrato desmistifica essa narrativa ao lembrar que a dívida pública brasileira (em torno de 81,9% do PIB) ocupa a 33ª posição mundial – muito atrás de economias como Japão (206%), Canadá (133,5%) ou Estados Unidos (125%) -, com a vantagem decisiva de ser emitida em moeda nacional. Esse argumento foi utilizado com precisão por Lula ao ser questionado. Algum eleitor de Flávio Bolsonaro sabe da importância desse dado? Pois é…
Esse é o projeto de nação endossado pela emissora: impor o arrocho fiscal, a privatização de estatais e a estagnação do salário-mínimo como únicos caminhos possíveis. Em todas essas medidas, o capital lucra e o trabalhador perde. Ao denunciar esse alinhamento da grande mídia com a agenda privatista e neoliberal, Luis Nassif alerta para o risco existencial que o país corre ao normalizar o projeto da extrema direita: “Há dois projetos de país em curso: um democrático e outro capaz de destruir qualquer veleidade de construção de uma Nação minimamente civilizada… Significaria abrir mão de qualquer propósito de industrialização, de avanço tecnológico e de políticas de inclusão. É a encruzilhada definitiva: a democracia ou a barbárie.”
Polarizar é preciso, analisar não é preciso
Toda a semana de entrevistas serviu como pretexto para concentrar fogo no embate central: Lula versus Flávio Bolsonaro. As sabatinas de ambos tiveram um peso desproporcional em relação às demais. Não desconsidero a última, com Cury, onde os apresentadores ao menos leram o programa de governo. Mas Lula e Flávio Bolsonaro são as candidaturas com densidade eleitoral real. Entendo que a Rede Globo não admite abertamente, mas defende um projeto de direita para o país e atuará para preservá-lo.
Por isso, é preciso comparar o tratamento dispensado a cada um. Ambos começaram com apresentações biográficas convencionais. Flávio Bolsonaro iniciou tentando seduzir a bancada ao pedir desculpas a Renata Vasconcellos por um suposto ataque de Lula que jamais aconteceu. Tentou separar o político do pessoal, mas vacilou ao não conseguir explicar a relação com Gabriel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, no financiamento do filme sobre seu pai – o qual chamou de “obra de arte”, fazendo revirar no túmulo cineastas históricos. Flávio foi questionado, mas respondeu de forma frágil e não foi pressionado por isso. Sem o tom metralhadora de Renan Santos, esquivou-se com sofismas, sem apresentar argumentos sólidos como fez Lula.
O que o debate de Flávio Bolsonaro foi
Na entrevista de Flávio, ficou claro que ele foi treinado para olhar diretamente para a câmera – a regra número um da televisão -, ao contrário de Lula, que encarava seus inquisidores olho no olho. Mesmo confrontado sobre a tentativa de golpe promovida por seu pai, Flávio manteve uma postura de negação de culpa e ignorou acusações sobre planos de assassinato de autoridades, afirmando com uma cola na mão: “Sou o único que trará segurança jurídica”. Que candidato a presidente usa cola na mão? O uso da anotação serviu como um signo de conexão visual com o pai. Angela Carrato afirmou sobre seu debate: “Uma sucessão de mentiras, ausência de qualquer explicação para sua corrupção explícita, golpismo e mensagens cifradas (…) era previsível que contivesse algumas perguntas indigestas para o filho de Jair Bolsonaro. O JN precisava tentar desfazer a impressão de que quis prejudicar Lula.”
Carrato vai além ao analisar a esquiva do candidato sobre a prestação de contas do caso dos R$ 61 milhões: “Não fez durante a entrevista e disse que tal prestação já havia sido realizada (…). Não se trata de dinheiro de Vorcaro, como afirmou Flávio, mas de dinheiro retirado pelo Banco Master de aposentados e pensionistas. Possivelmente, a razão para a dupla de jornalistas afrouxar o questionamento tenha a ver com o ataque do candidato ao Grupo Globo, ao afirmar que as empresas da família Marinho também receberam dinheiro do Banco Master para financiar eventos em Nova York.”
A jornalista aponta que o problema principal foi que Flávio “passou a recitar aquela manjada lista de acusações, sem quaisquer provas, contra Lula e os petistas, sem nenhuma reação da parte dos entrevistadores”. A bancada não alertou o candidato sobre os excessos nem sobre as agressões a adversários. Tampouco retomou os pontos centrais das próprias perguntas, deixando-se levar pelos desvios de assunto promovidos por Flávio — como quando, questionado sobre a tentativa de golpe, respondeu atacando o ministro Alexandre de Moraes. Quando disse fake news, como a acusação de que militares denunciantes estavam pedindo votos para Lula, não lhe foram cobradas provas. É o “ficou por isso mesmo” denunciado por Carrato: na estratégia discursiva da emissora, deixar passar significa validar uma convicção. Mudar de assunto sem cobrança permitiu à militância bolsonarista comemorar: “Viu como ele se impôs?”.
Não fazer e não dizer importa
O que caracteriza momentos assim, na concepção de Carrato, são justamente as perguntas que o jornalista não faz. Não se perguntou se o candidato respeitaria o resultado das urnas nem sobre a política externa americana. Carrato sintetiza: a questão da tarifa imposta por Donald Trump foi tratada sem mencionar que se trata de uma ofensiva geopolítica contra o Brasil, e o governo Lula parte de um plano anunciado por Trump e Marco Rubio para reconquistar o controle da América Latina. Para a emissora, a soberania nacional não é pauta.
A jornalista também afirma que Flávio também não respondeu se o ajuste fiscal que pretende fazer incluiria o congelamento do salário-mínimo ou como baixaria os juros, limitando-se ao bordão de combater a corrupção e reduzir ministérios. “Bastaria ao JN lembrar que a redução de ministérios no governo anterior resultou no desmonte de serviços públicos essenciais. Além disso, salta aos olhos que o tema dos mais de 700 mil mortos pela pandemia de COVID-19 não tenha sido sequer tocado na entrevista.” A “passada de pano” serviu para o candidato produzir cortes para as redes sociais, vendendo a narrativa de que enfrentou e venceu a “Globo comunista” – tudo, obviamente, em um acordo tácito de conveniência.
A saúde em risco com Flávio
É também por meio de Carrato que identificamos o peso da indicação de Cláudio Lottenberg para o Ministério da Saúde por Flávio Bolsonaro. Ela afirma que Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), traz no pacote o apoio da entidade e acena ao governo de Israel, buscando o voto da comunidade judaica e a cooperação em tecnologia de vigilância e inteligência. Pesquisando mais a fundo, encontra-se o cerne de sua plataforma: a defesa da privatização do SUS por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs) – uma privatização “por etapas” que terceiriza a saúde pública e submete o cuidado comunitário à lógica das metas de mercado.
Por fim, a sabatina de Augusto Cury trouxe elementos que beiram o pitoresco. Os apresentadores não confrontaram o candidato sobre a exequibilidade de suas propostas. Viraram piada nas redes sociais as ideias de substituir serviços públicos por inteligência artificial, utilizar drones contra a violência doméstica ou enviar influencers digitais em missões diplomáticas. A bancada permitiu que a entrevista se transformasse em uma palestra motivacional – o único terreno em que o candidato se sente à vontade. A consequência de trocar planos de governo por bordões morais e autoajuda foi a despolitização de problemas estruturais do Estado, sob o olhar condescendente dos apresentadores. Cury não se elegerá, mas garantirá a venda de mais livros, talvez o real objetivo de sua candidatura.
É culpa do Lula?
Para os entrevistados, tudo é culpa de Lula. Ele sofreu ao máximo o tom inquisitorial das sabatinas, mesmo quando tentava direcionar o debate para seu legado e propostas futuras. O ataque era brutal, com a entrevista concentrando grande parte do tempo em temas de desgaste e investigações. Das suspeitas e denúncias envolvendo familiares e aliados políticos de Lula, passando pelo envolvimento de seu ex-chefe de gabinete, o “Marcola”, Lula afirmou que ninguém, inclusive membros de sua família, terá proteção de seu governo, garantindo total autonomia à Polícia Federal e à Justiça. Defendeu também a gestão macroeconômica do governo, explicou as razões do crescimento da dívida e o papel do pagamento de passivos deixados pela gestão passada via PEC da Transição.
Lula também rechaçou planos de privatizações de estatais, como os Correios, defendendo que os investimentos públicos são o motor do desenvolvimento social. E apresentou, principalmente, quando conseguiu, proposta de seu governo, como a aprovação da PEC da Segurança Pública para a criação do Ministério da Segurança Pública e coordenação federativa do combate ao crime organizado, a “revolução tecnológica”, não como a proposta por Cury, mas com foco no domínio nacional de minerais críticos e terras raras, além do desenvolvimento de inteligência artificial soberana em língua portuguesa. Defendeu também a criação de bolsas de estudo voltadas para jovens de destaque no Enem que optarem por cursos de licenciatura, visando valorizar a carreira docente. Mas foi pouco. Pouco por causa das condições da entrevista. Por quê?
A pós-política pornô
Olho para essa semana de sabatinas no JN e pergunto: assistimos a um debate político ou a outra coisa? Darei aqui minha visão, sujeita a críticas. Entendo que estamos imersos no que posso chamar de pós-política pornô: as entrevistas eleitorais no Jornal Nacional deixaram de ser debates políticos no sentido clássico para se tornarem performances político-pornográficas, nas quais candidatos simulam confrontos enquanto dissimulam o esvaziamento da política real. Minha visão é inspirada em autores como Jean Baudrillard, Paul B. Preciado e Slavoj Žižek, para quem tais eventos funcionam como simulacros de democracia que produzem uma hiper-realidade eleitoral por meio do escândalo, dos gestos corporais e dos afetos intensos, e não por propostas programáticas.
Preciado é fundamental aqui com a sua obra Pornotopia. A exemplo da Mansão Playboy de Hugh Heffner, o estúdio do JN opera como um dispositivo biopolítico. Assim como a mansão de Heffner não vendia apenas mulheres nuas, o programa da Globo não vende consciência política: o cenário do debate é uma máquina de produção de sedução e consumo que opera pelo escândalo. Sai a cama redonda de Hefner e entra a bancada de jornalismo. O suposto debate transforma o candidato em uma “coelhinha” da emissora – uma forma de estetização política vazia. Se a estética das Playmates retirava a revista da ilegalidade, o formato engessado e agressivo da sabatina retira da cobertura a análise crítica da política. A Globo reproduz a lógica de Heffner: quer que a mercadoria política espetacularizada seja consumida como uma prática jornalística responsável e respeitável.
Se Preciado fala, em “Testo Junkie”, em um regime farmacopornográfico, posso falar em um regime político-pornográfico para definir a propaganda que nos engole. Na pornografia, o sexo é reduzido a performance, enquadramentos, closes e hipervisibilidade do corpo; na política-pornô, a gestão pública é substituída pela repetição técnica do espetáculo. Não temos atores políticos com propostas, mas agentes que aplicam à política a lógica pornô: fazem da cena pública o seu excesso. É que, assim como no pornô, o que importa na política-pornô é a forma como a informação é exposta ou ocultada para gerar excitação estética. A produção da emoção vale mais do que a produção de sentido. Como Preciado observa, o regime farmacopornográfico não é metáfora nem ideologia, mas uma tecnoecologia política. O mesmo ocorre com a estrutura do JN: não se trata apenas de ideologia, mas de como uma ecologia política é produzida por tecnologias audiovisuais que transformam a disputa de projetos em um dispositivo pornográfico de escândalos. O objetivo: conquistar as condições psicossociais para a eleição do candidato de extrema direita. Mas isso é uma outra modesta opinião.
Minha conclusão é que Lula recusou essa performance político-pornográfica. Mesmo quando o formato impõe armadilhas, é preciso ignorar as rédeas do apresentador e não se deixar domesticar pela tecnologia dominante. Contra a simulação da política, a recusa. O debate político não pode ser previsível como o roteiro de um filme pornô: sob as regras do espetáculo, do excesso, o que esse debate político produz é apenas um gozo político estéril, performances sem conteúdo e escândalos sem política. É preciso, nos termos de Zizek, que não deixemos que os debates da Rede Globo nos digam o que desejar, porque seu modo de funcionamento normaliza a extrema direita. Mas, para isso, é preciso luta. Que candidato ousará quebrar essa engrenagem?