
No dia 7 de abril, participei de uma conversa sobre Comunicação Antidiscriminatória e Diversidade na Feevale, ao lado de Anna Ortega, do Nonada Jornalismo, a convite da professora Saraí Schmidt, uma amiga que admiro muito. O encontro foi estimulante e reacendeu minha esperança. A sintonia das falas de duas gerações – Anna e eu – foi incrível. Na plateia, turmas dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas, professores e diretores. A organização foi dos alunos e o entusiasmo estava no olhar de cada um. E ainda fizeram um banquinho de livros para não deixar minhas pernas penduradas! A emoção foi geral e saímos abastecidas.
Como se faz uma comunicação profissional contra o preconceito de qualquer natureza? Uma comunicação que se posiciona, é crítica, livre e encara a discriminação que reverbera cotidianamente? Que linguagem usar? Não é uma questão fácil, especialmente depois do advento das redes sociais, que não têm limites. A vulnerabilidade das pessoas que são alvo de ataques pela sua condição aumentou muito. Piadas com quem tem deficiência são cotidianas e cruéis. A realidade não é amena porque o preconceito implacável não poupa raça, cor, gênero, opção sexual, deficiência física/mental/intelectual, idade, religião, origem, classe ou condição social. A pessoa consciente da sua condição e dos seus direitos aprende a lidar com as intempéries imprevisíveis que a diferença provoca e se fortalece, sem negar a realidade. Muitas sofrem vários tipos de discriminação a vida inteira, mas não desistem. Outras se tornam definitivamente invisíveis. Por isso, é preciso falar, alertar e combater o capacitismo.
A comunicação inclusiva pede atenção à maneira como as pessoas são representadas ou silenciadas nos conteúdos.
Como escreveu a jornalista Luana Alves, uma “Comunicação Antidiscriminatória e diversa precisa ser plural. Uma equipe formada por pessoas de diferentes classes, raças, idades, orientações sexuais e necessidades especiais vai estar mais preparada para produzir conteúdo livre de preconceito, com olhar mais aberto para a diversidade humana”.
Como disse a deputada Érika Hilton, mulher trans e travesti, “a sociedade precisa limpar seu olhar sobre nós”.
Somos vulneráveis e, por mais estável que a vida pareça, não sabemos o dia de amanhã. Daí a importância de viver o cotidiano sem negar nossas incertezas e medos. Dividir alegrias e angústias, sem julgamentos, é fundamental. Até porque o bem e o mal podem se manifestar por diversos motivos, em qualquer situação, e opiniões em excesso mais tumultuam do que ajudam. Uma comunicação antidiscriminatória precisa estar atenta às sutilezas do que acontece ao redor e combater o preconceito sem exposições desnecessárias. Precisa entender e respeitar a integridade e os limites de quem sofre a discriminação. Ficar dando opiniões sobre questões pessoais e sentimentos que explodem, por mais que tenhamos boas intenções, não é útil. É difícil? É! Mas uma atitude autoritária, de quem acha que está com a razão e pode resolver uma situação com manchetes escandalosas, não é o mais indicado. É preciso olhar, acompanhar com atenção o que acontece e escutar antes de expor. E, para ratificar a importância da escuta, trago uma reflexão do psicanalista mineiro Altair Sousa.
“Escutar sem a ânsia de responder. Escutar como quem acolhe, não como quem resolve. Escutar como se escuta o canto de um passarinho: sem interromper, sem julgar, sem querer possuir o som. Porque a escuta verdadeira é uma forma de doação. E, como nos lembra Khalil Gibran: ‘Vocês doam muito pouco quando doam de suas posses. É quando doam de si mesmos que são realmente caridosos’. Escutar é doar presença. É oferecer tempo, atenção e silêncio. É dar de si, sem esperar nada em troca”.
Uma comunicação antidiscriminatória pede escuta e tem que fazer parte do cotidiano dos profissionais da imprensa, de todos nós, em qualquer situação, porque é o caminho que vai nos conectar com o outro. Pede especialmente que o combate ao preconceito seja efetivo. Em 2025, tivemos recordes de casos de racismo. Tivemos também recordes de feminicídio e de mortes provocadas pela polícia, que chega atirando, sem saber exatamente o que está acontecendo, e dilacera famílias. A comunicação precisa estar atenta aos direitos humanos, dar voz às pessoas discriminadas e buscar informações concretas para agir com conhecimento, sensibilidade e segurança, sem dar palco a quem é preconceituoso e sem expor quem é discriminado com detalhes cruéis que só servem para encher páginas de jornais e aumentar a audiência de rádios, TVs etc. Ouvir, respeitar privacidades, acolher as diferenças e defender a dignidade de cada existência é o caminho. Jamais esconder ou abusar dos fatos por conveniência e cuidar com o uso de palavras contaminadas.
Volto ao psicanalista mineiro Altair Sousa, que sintetiza o que penso.
“Ninguém desaprende o preconceito falando sozinho. É no encontro que a gente se desloca, é na escuta que a gente se refaz. Ninguém deixará de ser capacitista sem ouvir, de verdade, as pessoas com deficiência. Ninguém deixará de ser racista sem se abrir à escuta das pessoas negras. Ninguém deixará de ser machista sem considerar, com respeito, a voz das mulheres. Ninguém deixará de ser LGBTQIAPN+fóbico sem se dispor ao diálogo com quem vive essa realidade. Escutar não é um gesto passivo. É um compromisso ético. Porque toda transformação começa quando o outro deixa de ser ideia e passa a ser presença.”
Uma comunicação antidiscriminatória precisa ser ponte, jamais muro!
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