
O que é, o que é: todo brasileiro tem de graça, mas todo americano vai à falência se usar? Como já dei spoiler no título, é isso mesmo: um sistema universal de saúde.
Os Estados Unidos lutam há anos para ter um sistema de saúde que atenda a todos, mas é uma luta de toda a população contra poucos gigantes. Os planos de saúde, os custos de uma regulamentação que desperdiça o inútil e dispensa o essencial, a indústria farmacêutica, os lobistas, a inexistência de um serviço gratuito de atendimento e suporte. Tudo isso faz os americanos doentes ficarem mais doentes ainda, e sem perspectiva de alta.
Tive experiências usando diferentes assistências médicas, no Brasil e nos Estados Unidos. Já tive um plano de saúde ultramega top lá, e mesmo esses te fazem pagar uma pequena parte do tratamento ou consulta. Uma vez torci o tornozelo na escada da academia em Seattle — aquela velha história, querendo ser saudável, me machuquei. Fui levada para a emergência de um hospital próximo e a conta saiu 9 mil dólares, dos quais tive que pagar 1.000 e o restante o plano pagou.
E okha que não quebrei nada, não teve cirurgia nem internação.
Alguns anos depois, me queimei durante um acampamento num lugar remoto do Oregon. Fui dirigindo até minha base de atendimento, que era a Califórnia. Nessa época, meu plano de saúde era o Obamacare, pela faixa de renda (pobre) em que eu me encontrava. O Obamacare, na Califórnia, funcionava quase como o SUS. Digo na Califórnia porque algumas leis e benefícios são estaduais e não federais, o que faz, por exemplo, você ter autoatendimento nos postos de gasolina nos estados da Califórnia e Washington, mas ser proibido no vizinho Oregon.
Enfim, o Obamacare funcionou superbem e saí medicada e com a receita para retirar os remédios gratuitamente na farmácia da minha preferência.
Mas daí as coisas mudaram, veio Trump 1 e agora Trump 2, e nem imagino como está funcionando o sistema de saúde pública, pois a atual administração cortou diversos benefícios, e o que eu já entendia, pouco entendo menos ainda agora.
Já no Brasil, minha experiência no SUS foi ótima. Superbem atendida numa emergência na praia em uma UPA 24 horas, só tenho elogios. Da UPA, fui encaminhada para o hospital, onde fui atendida através de um plano de saúde privado. Arrisco dizer que fui melhor atendida no SUS, só que no primeiro hospital. No segundo, já em Caxias do Sul, operei e me recuperei no Hospital da Unimed, o melhor em atendimento e conforto que já fiquei na vida. Tá, uma vez fui acompanhante no Sírio-Libanês em São Paulo, mas daí foi atendimento e conta de hotel 5 estrelas, outro mundo-bolha que separa os mortais dos endinheirados.
Eu não digo que o SUS é perfeito ou que todas as experiências são positivas ou os atendimentos rápidos. Mas ninguém nega atendimento nem te apresenta uma conta gigante depois de um atendimento.
Tem problemas, tem. Poderia ser melhor? Sempre pode. Mas tem atendimento e ninguém sai falido de um procedimento. O tão supervalorizado American Way of Life é, cada vez mais, uma ficção cheia de plot twists pra quem vive lá. Enquanto isso, mesmo com todas as desigualdades que ainda vive, podemos dizer orgulhosamente que a Realidade Brasileira superou o Sonho Americano. E viva o SUS!
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