
Existe um grande e frondoso Baobá às margens de uma das curvas do Capibaribe, em Recife. Está por trás dos arvoredos de mangue; seu tronco é imenso, para abraçá-lo são necessárias muitas pessoas de braços bem esticados. A árvore nos conecta: quanto mais dela nos aproximamos, mais cresce a impressão de que alguém ou alguma coisa nos chama. Algo voa em nossa mente. O Baobá já está ali há mais de século. Estou certo de que deve ter sido plantado por um grupo de homens e mulheres traficados da África até Pernambuco, mas que conseguiram fugir, com a ajuda de indígenas que pescavam, de canoa, naquelas imediações. Então, para auxiliar na fuga de mais pessoas escravizadas, junto com os indígenas, o plantaram, que era para localizar o ponto onde outros libertos pudessem se esconder e esperar a chegada de outras canoas e sair dali. Pois, sendo por eles sagrado, os outros o reconheceriam.
Finda a escravização, o Baobá serviu por quase um tanto de século como ponto de refúgio de outro tipo de opressão: a perseguição religiosa contra o Candomblé e a Umbanda. Assim, ali, na irmandade com as águas, as folhas e os bichos, podiam cultuar seus deuses em plena paz de espírito.
O ancestral Baobá gera uma energia não poluente que vai além da fotossintética e nos linca com sinais mais pujantes do que qualquer futura internet de computador quântico. Quando os engenheiros do Vale do Silício, Shenzhen e Campina Grande descobrirem que o cérebro, quando medita, emite ondas de uma frequência muito peculiar e que a própria caixa craniana é um receptor extremamente possante para esse tipo de onda; no tempo no qual souberem que, quando uma pessoa faz uma oração movida por muita fé ou fala com profunda convicção (que são a mesma coisa), não é apenas o som vocal que se irradia, mas também se propaga outro tipo de vaga tão consistente para estabelecer comunicação quanto a mais potente rede do tipo Starlink; descobrirão e saberão que também Mangueiras, Oliveiras, Tamareiras, Carvalhos, Sequoias, e tantos outros desses entes espalhados pelo planeta são processadores que, desde o início dos tempos, atrelam, como um molde transespacial-temporal, vidas de gente, de fauna e de flora numa mesma vinculação. Compõem muito mais do que nuvens de dados: sustentam uma estrelada e infinita galáxia de sensações e sentimentos, sem precisar privatizar as águas para resfriar lucrativos data centers.
Conhecerão que estes seres, por instaurarem o ambiente que é meio da vivência de afetos comuns, possibilitam a interação entre humanos do passado e do futuro, o diálogo para além de palavras ditas.
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