
“Carnaval não é esse colosso, minha escola é raiz, é madeira.”
Leci Brandão
Era 28 de outubro de 2025. Cheguei à noite a um Rio de Janeiro vazio, de pessoas e de carros. Antes de embarcar, ainda em Porto Alegre, assisti a imagens na televisão de casa e dos cafés do aeroporto. Após a aterrissagem, embarquei no carro do aplicativo e fui até o hotel, trocando mensagens com quem já estava por lá. Lembrando, sinto angústia e arrepios. Naquele dia, uma operação conjunta das forças de segurança do governo fluminense, realizada nos complexos da Penha e do Alemão, resultou na morte de 122 pessoas e ficou marcada como a mais letal da história do estado. Ali, estava confirmada mais uma vez que a violência estrutural é radicalizada, e a necropolítica – conceito criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe – decide quem vive e quem morre.
“O Estado existe, mas não é para todos. A cidade é para uns, a favela para outros. Apesar de tudo, a luta racial está presente e o movimento negro segue vivo, se renovando por necessidade. As favelas resistem e afirmam seu lugar como território de organização, cultura, inovação, produção, solidariedade e esperança”, traz a apresentação do quarto item do projeto Cenários Futuros para a População Negra em 2050, que leva o título Nkyinkyim¹: Sobrevivência e Resistência.
Quando nós, participantes do projeto, pensamos nos cenários de incerteza estrutural que moldam a realidade social, política e econômica das pessoas negras, a frase que melhor descreveu o sentimento despertado foi: “o Brasil é um território de dor”. Essa análise levou em conta o(s) projeto(s) de país, a representatividade nos espaços de poder, o papel social da comunidade negra, a segurança pública e as ações de reparação histórica, entre outros.
Na representação física do Cenário Nkyinkyim: Sobrevivência e Resistência, montado a partir de peças de Lego, uma cidade próspera e colorida ocupava grande parte da mesa, enquanto à população negra era reservado um espaço bloqueado por muros na margem da existência urbana. Esse exercício se concretizou nos dias 29 e 30 de outubro, logo após assistirmos à aterrorizante cena de corpos humanos postos lado a lado na praça do Complexo da Penha, uma cena dolorosa que insiste em não sair da lembrança. A sobrevivência e a resistência foram postas à prova, com ampla divulgação pela Voz das Comunidades, ONG que desenvolve trabalhos por meio das áreas de Impacto Social e Jornalismo comunitário.
Apesar desse episódio, e motivados por não vê-lo no futuro, nossos encontros foram abençoados pela presença de lideranças e iniciativas transformadoras de norte a sul do Brasil.
Nesta vasta extensão de Território Nacional, que ocupa quase a metade do continente sul-americano (47,3%), com uma superfície de 8.515.767,049 quilômetros quadrados, estão projetos como Instituto Mãe Crioula, sediado em Belém do Pará, que presta serviços à comunidade nas áreas de cultura, educação e ciência sobre as questões de justiça racial e de gênero, sustentabilidade econômica e ambiental, direitos humanos e paz social, e a Odabá Associação de Afroempreendedorismo, de Porto Alegre/RS, que promove a ascensão econômica do povo negro através do empreendedorismo.
Também estiveram trabalhando e sonhando juntos o Coletivo de Mulheres Negras N’zinga, que trata de fortalecer a luta e o protagonismo das mulheres negras de Minas Gerais, e as Black Sisters in Law, com o propósito de promover a mobilidade social e econômica de mulheres negras no mercado jurídico por meio de oportunidades profissionais.
Muitas outras organizações contribuíram para o projeto e promovem sobrevivência e resistência, com vidas constituídas coletivamente numa caminhada histórica.
O Movimento Negro Unificado (MNU), organização pioneira na luta do Povo Negro no Brasil, foi fundado no dia 18 de junho de 1978 e lançado publicamente no dia 7 de julho em evento nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, em pleno regime militar. Este ato representou um marco referencial histórico na luta contra a discriminação racial no país.
Mais jovem, fundada em 1993, no Rio de Janeiro, a Educafro expandiu-se para São Paulo em 1997 e tem como objetivo geral reunir pessoas voluntárias, solidárias e beneficiárias que lutam pela inclusão de negros, em especial, e pobres em geral, nas universidades públicas, prioritariamente, ou em uma universidade particular com bolsa de estudos, com a finalidade de possibilitar empoderamento e mobilidade social para população pobre e afro-brasileira.
A trajetória da Todos Pela Educação anda lado a lado com o desenvolvimento da Educação Básica no nosso país desde a sua fundação, em 2006, e mantém o compromisso com a escola pública e luta por avanços reais na qualidade da educação brasileira.
O programa Jovem de Expressão foi fundado em 2007 no Distrito Federal, com o objetivo de promover a saúde de jovens entre 18 e 29 anos, realizando ações de terapia comunitária, prevenção à violência, ao crime e ao uso de drogas, tendo como objetivo o incentivo de práticas saudáveis e empreendedoras entre a juventude.
O Instituto Fogo Cruzado, por fim, emergiu como uma força transformadora. Desde 2016, mapeia e difunde mais de 50 indicadores de violência armada, com a produção de informação inédita e colaborativa nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém, construindo o maior banco de dados sobre violência armada da América Latina.
A Frente Nacional Antirracista, fundada em 2020, com o objetivo de combater o racismo estrutural e institucional e promover a participação ampla no debate econômico brasileiro, também esteve nessa construção.
A partir da união dessas pessoas, dessas representações e de suas histórias, a população negra e, em especial, as favelas, resistem e afirmam seu lugar como território de organização, cultura, inovação, produção, solidariedade e esperança.
Leci Brandão, em 1978, compôs “Zé do Caroço“, samba que segue atual:
No serviço de auto-falante
Do morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Que amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira
Como eu queria que fosse em Mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra dizer de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é madeira
Mas é o Morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
É que o Zé do Caroço trabalha
O Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira
E na hora em que a televisão brasileira
Distrai toda gente com a sua novela
É que o Zé põe a boca no mundo
Que faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
Este artigo conclui a apresentação do projeto Cenários Futuros para População Negra no Brasil, do qual a Odabá é parceira institucional, mas convida a todas as pessoas, de todas as etnias e culturas, a fortalecerem esse debate e a construir novas realidades para o desenvolvimento sustentável do nosso país.
Os artigos anteriores sobre essa iniciativa estão publicados na Coluna Odabá, na plataforma Sler, com os títulos:
Seja bem-vindo, 2050 – ODABÁ,
Cenário Aya e o futuro da população negra
Cenário Sankofa e a Ascensão econômica negra feminina.
A Educação Antirracista é transformadora
Saiba mais
A temática dos Cenários Futuros para População Negra no Brasil foi idealizada por Vitor Del Rey, presidente do Instituto Guetto, instituição sem fins lucrativos que desenvolve pesquisa e indicadores, consultorias e treinamento nas áreas de inclusão e diversidade, direitos humanos e capacitação profissional, com vistas a combater as iniquidades raciais e de gênero no ambiente institucional.
A construção do projeto adotou a metodologia da Reos Partners, organização internacional focada em grandes questões sociais, atuando na construção de cenários futuros e transformação. Além dos citados, são parceiros dos Cenários: Frente Nacional Antirracista, Ashoka Brasil, Fundação Itaú, Fundação Lemann, Instituto Unibanco, Instituto GOL, Banco do Brasil Sede I, Malala Filmes e Samara Cruz.
(1) Nkyinkyim é um adinkra (ideogramas com origem nos povos Akan, na África Ocidental) que significa “torcer, virar”. Trata da natureza incontrolável da vida e da necessidade de resistência, de versatilidade e de dinamismo para prosperar nela. Pronuncia-se “N-quin-quin”.
Denise Ribeiro Denicol é entusiasta da saúde mental no ambiente de trabalho e tem se ocupado de provocar esse cuidado também com o recorte racial. Sempre disposta a conversar sobre temáticas relacionadas ao fortalecimento de mulheres, maternidade, trabalho e dinheiro, é Advogada Trabalhista, Diretora Jurídica da ODABÁ - Associação de Afroempreendedorismo e parceira do escritório Baladão e Fagundes.
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