
Triste. Nesta antevéspera de eleição, quando deveria cantar um samba de exaltação à apoteose da democracia, que é o dia da escolha dos governantes e dos representantes do povo nos parlamentos, o Brasil canta uma balada triste.
Um lamento pela violência que mata o cara passeando de bicicleta, que vitima a criança agredida pelo pai na rua e no elevador e a mulher espancada e até morta pelo companheiro.
Um choro por todo racismo, a misoginia, a homofobia e outras fobias que ainda se veem por aí… Fora a mentira, a desinformação que escorrem das redes sociais…
Um desalento diante de candidatos que desafinam o coral da liberdade e da paz, cantando a morte como antídoto da violência. “Bandido vai ser retirado de circulação em pé ou deitado”, prometeu Flávio Bolsonaro em comício no Rio. “Prendeu, matou”… ameaçou Renan Santos recentemente.
Quer dizer: nada de prevenção, nenhum projeto de melhoria dos serviços de segurança. Nem digo de aperfeiçoamento, porque só se aperfeiçoa o que já tem, pelo menos, alguma qualidade.
Prender e matar, retirar de circulação em pé ou deitado, artes de garantir prevenção à violência, incentivam atitudes como as que vimos em Copacabana, forte reduto eleitoral do bolsonarismo, onde dois “seguranças” se acharam no direito de espancar um homem até a morte – com a ajuda de dois entregadores de comida – simplesmente porque suspeitaram que ele tinha roubado a bicicleta usada para passear pelo bairro.
Uma vida encerrada. Uma família despedaçada. Mais quatro brasileiros internados no falido sistema penitenciário e candidatos a integrar facções criminosas e quadrilhas organizadas…
E, assim, a caminhada até as urnas no 4 de outubro, em vez de um alegre desfile em busca de – no mínimo – um momento de fantasia de uma vida melhor, vira um desanimado cortejo de desconfiança generalizada e de falta de qualquer ilusão quanto ao futuro.
Pesquisa Ipsos sobre as instituições sociais e políticas, divulgada no final de julho deste ano, mostra que, numa escala de 0 a 100, a nota de confiança nos partidos não passa de 30.
Nota triste e perigosa. A política é o esteio da democracia. Então, é fundamental impedir que os maus políticos contaminem e enfraqueçam a política e, por consequência, a democracia.
Afinal, sem política, não tem hospital, não tem escola, não tem segurança pública… A sociedade precisa da política para decidir prioridades, distribuir recursos, aprovar leis e resolver conflitos. A crise de confiança e o desalento são reais, resultados de vários fatores acumulados ao longo do tempo:
Escândalos de corrupção envolvendo diferentes partidos e lideranças. Polarização política intensa, que transformou adversários em inimigos. Sensação de distância entre as prioridades da população e a atuação dos representantes. Disseminação de informações falsas e ataques constantes às instituições. Frustração com promessas de campanha não cumpridas. Baixa percepção de melhora concreta na vida das pessoas, independentemente de quem esteja no poder.
Na pesquisa sobre intenção de voto realizada pela Quaest por encomenda de O Globo e da Folha de São Paulo e divulgada em 21 deste agosto, 32% dos eleitores se apresentam como independentes – não são lulistas nem bolsonaristas – e responderam à pesquisa espontânea dizendo que ainda não decidiram em quem vão votar. É esse pessoal que decide a parada. Estamos a pouco mais de um mês do primeiro turno e 80% dos eleitores ditos independentes estão pouco ou nada interessados na eleição.
Para lá de uma disputa entre direita e esquerda, entre um candidato levado a três mandatos de Presidente da República e outro cujo currículo se resume quase exclusivamente em ser filho de um ex-presidente – o único que não conseguiu se reeleger – a eleição deste ano confronta confiança e desconfiança. Nesse ambiente, vencerá quem conseguir demonstrar que a política não é um espetáculo de promessas, mas um instrumento para melhorar a vida das pessoas. Está mais do que na hora de os partidos, por suas lideranças e candidatos, oferecerem motivos para que o eleitor creia que a política vale a pena e que o voto de cada um é mais um passo em direção à utopia que, como disseram o cineasta argentino Fernando Birri e o uruguaio Eduardo Galeano no conto, está bem ali no horizonte. A gente nunca alcança a Utopia, mas a crença numa sociedade menos desigual, mais livre e mais segura nos faz caminhar sempre. Mostrem, senhores candidatos, que a Utopia está ali e que vocês estão dispostos a andar na direção dela, ainda que puxados pela vontade do povo.