
Passados dois anos da grande inundação que assolou Porto Alegre, as marcas da tragédia continuam presentes, se não nas ruas e construções, no imaginário traumatizado de sua população. É difícil, para quem vem de fora como eu, conversar com alguém sem que o tema não seja mencionado. Impossível passear pela orla do Guaíba, como fiz alguns dias atrás, sem pensar na vulnerabilidade de uma metrópole rodeada de águas lentas e praticamente ao nível do mar quando as mudanças climáticas entram porta adentro de nossas vidas sem pedir licença.
Senti um certo aperto no peito enquanto ia em direção ao Centro Histórico ao lembrar que um El Niño foi o causador das chuvas de 2024 e agora o mesmo fenômeno (e, como dizem, super) volta a se formar com possibilidade de enchentes e inundações no Sul do país. É muito pouco tempo para que as pessoas suportem um novo desastre climático.
Me veio à cabeça uma expressão que aprendi logo que comecei a frequentar a cidade, há aproximadamente 40 anos: “abobado da enchente”, usada para descrever pessoas aparvalhadas ou confusas. Minha sogra sempre brinca que nasceu no ano da Grande Enchente (1941) e cresceu com sua mãe a chamando assim. Ouvi que a origem do termo foram as pessoas andando desnorteadas pelas ruas após as águas baixarem, sem saber o que fazer.
Meu destino naquele dia era a abertura da exposição 2016-2026 da artista plástica Ana Norogrando, no Museu de Arte do Paço (antigo prédio da Prefeitura). A mostra é formada por um conjunto de esculturas e audiovisuais de extremo impacto ao remeter a ruínas, de corpos e coisas unidas em objetos metamorfoseados que parecem ter vida própria. São fragmentos corporais, membros isolados, próteses, estruturas mecânicas, objetos encontrados, partes industriais e dispositivos tecnológicos rearranjados como ao final de uma tragédia que os carregou e obrigou a se fundirem em uma nova realidade. Vemos um mundo pós-pandêmico e pós-enchente em seu trabalho. Um mundo feito de cacos que tentamos dar forma e sentido.
Ao conversar com a artista, fico sabendo que seu ateliê, sua residência e seus espaços de armazenamento, situados na Ilha Grande dos Marinheiros (uma ilha fluvial no Lago Guaíba), permaneceram sob as águas por mais de um mês durante a inundação. Tudo precisou ser restaurado. O que veio depois chegou impregnado da catástrofe.
Beleza e horror se misturam quando chegamos ao porão do museu, um espaço que preserva as características gerais de seu primeiro uso, como prisão, e também esteve submerso no desastre. Painéis exibem vídeos onde a água é representada como força, paz e sangue. Para mim, as versões mostram que temos a capacidade de escolher onde vamos querer estar neste mundo em transformação, mesmo com as dificuldades para se chegar lá.
Para quem puder conferir, a exposição vai até 13 de novembro.