
Estive no sítio arqueológico onde se encontra o que emergiu de Conímbriga, a originária Coimbra romana. Foi uma daquelas situações que não podem ser contadas sem se fustigar a modéstia: fui convidado pelo coordenador de um dos doutorados da notória universidade e por sua esposa, que conheci como diretora de um dos principais museus do país; lá, quem nos guiou foi o próprio arqueólogo, diretor do espaço. Coincidiu-se com a temporada de Jazz que ocorria no local, fazendo com que fôssemos acompanhados por um trompete e um pistom que, aqui e acolá, sopravam um “Beginning the begin”, “Caravan” e “Summertime”.
Sob a vanguarda da direção, descobrimos coisas que os arqueólogos haviam praticamente acabado de desenterrar; soubemos dos locais dos novos tesouros a serem resgatados. Na entrada principal da Urbis, nos deparamos com a base do arco, tipo de pórtico que é o modelo arquétipo para o parisiense Arco do Triunfo; por ele, seguindo direto, se chega ao Fórum (toda cidade romana tinha um desses), passando por ruínas de muralhas, prédios comerciais e grandes casas, das quais se destaca a Casa de Repuxo: colunas, bases dos cômodos, canteiros e fonte da sua mais imponente Villa, em cujo hall principal ainda se encontram preservados coloridos mosaicos retratando cenas do cotidiano.
O Fórum era o principal logradouro de um município latino. E não tinha nada a ver com o que se entende hoje no Brasil: aquele edifício do poder judiciário onde habitam juízes blasés, promotores desconfiados, advogados atentos, réus apreensivos e parentela emocionada. Na vida romana, ele convergia, num só lugar, bazar, escritórios administrativos e largo de convivência. Ocupavam, em média, uma área do tamanho e formato equivalente a um campo de futebol, e, no centro, uma praça retangular ladeada nas quatro faces por um conjunto de edifícios. O sol de verão incidia nas pedras dos muros, das paredes e das fundações, fazendo Conímbriga reluzir. Andamos sobre milenares calçamentos, entrando e saindo pelas ruas, nos permitindo imaginar como a vida circulava por aquelas vielas. Totens informativos indicavam o que restou de fornos domésticos, salas de refeições, cisternas e tantos outros ecos do cotidiano daquele povo.
Gosto muito de museus e sítios arqueológicos. Tive a oportunidade de visitar a casa de Sigmund Freud, que, pelo visto, também gostava de arqueologia. Vi algumas relíquias antigas que ele colecionava. Inclusive, estão expostos os livros de ata das reuniões que o médico psiquiatra Freud fazia com outros colegas, nas quais foi se gestando a psicanálise. Há a sala onde ele recebia seus pacientes, na qual estes, pela palavra, escavavam o que lhes estava soterrado.
Anos atrás, na praia de Itamaracá, aquela cantada por Tim Maia, estive no chamado Forte Orange. Há também ali uma disposição de acessos e pôsteres que nos imergem no passado. As escavações foram patrocinadas por mecenas holandeses, ciosos em estreitar os laços de identidade com a terra para onde, na época, vinham fazendo grandes investimentos. Contudo, o que a Arqueologia revelou é que, de holandês, a fortificação tinha muito pouco: apenas um trecho de uma das muralhas. A grande maioria da fortaleza foi construída pelos lusos, a quem, antes dessas descobertas, só se atribuía terem gravado um nome português, quiçá sobre o que poderia ter sido o original em saxão. Além disso, se descobriu que a primeira construção, a holandesa, tinha a entrada para o mar, e não para a terra, como está ainda hoje, revelando que os conquistadores vindos de Flandres não tinham para os povos da terra a abertura de seus interesses. Em suma, o forte que por séculos se atribuiu ao engenho holandês é, na verdade, herança de Portugal.
Voltando a Conímbriga… Os arqueólogos lusos identificaram, praticamente ao lado do fórum, a área onde está soterrado o anfiteatro da cidade: toda boa vila romana tinha um deles. Os indícios de sua existência se manifestam: as casas e a rua dos tempos imperiais que existem obedecem ao traço de uma estranha e aparentemente desnecessária curva elíptica: diferente dos becos vizinhos que traçam retas que se cruzam, essa viela e suas casas se entortam em uma volta que não está dando a volta em nada: não há uma rocha, um lago, nada que impedisse aquele caminho de seguir retilíneo como outros ao lado.
O fato é que o formato do estádio, encoberto por metros de terra e barro, determinou o traçado do que se construiu sobre ele: aquela viela é torta porque as bases centenárias, por sobre as quais, ao longo do tempo, casas foram erguidas e reerguidas, são o cume das arquibancadas da arena.
Meu amadorismo nesta área científica me autoriza a acreditar que a Arqueologia é uma psicanálise da história que está aparente. Ou, se quiserem, a psicanálise é uma arqueologia das fantasias envoltas em nossa identidade, a escavação dos porquês de nossos caminhos tortos…
Todos os textos de André Fersil estão AQUI.

