
Meu amigo Paulo Alcaraz publicou há uns poucos anos uma novela que talvez dê origem a uma série, A charqueada dos aflitos, e cuja premissa achei divertida e interessante. Trata-se de um cruzamento de comédia, história policial e narrativa de horror protagonizado por um “detetive” chamado Padre Guerrero, um religioso parapsicológico que, viajando com o objetivo de desmascarar casos de supostos “fenômenos paranormais”, acaba esbarrando no que é um crime misterioso com laivos sobrenaturais que desafiam o ceticismo teimoso do protagonista.
O protagonista, Padre Enrique Guerrero, homenagem declarada ao folclórico Padre Quevedo, é um religioso inaciano que, após breve momento de fama televisiva nos anos 1990, desmistificando crendices e superstições, cai gradativamente em um ostracismo brando com a onda mística pós-virada do milênio e se recolhe a uma vida de reclusão e ensino. Aos 70 anos, é convencido por seu sobrinho, Álvaro, a retomar suas investigações, desta vez como “conteúdo” para plataformas de internet, com maior controle sobre o material final. Na primeira e, por enquanto, única novela da série potencial, o rabugento padre e seu sobrinho, algo ingênuo e atrapalhado, são chamados até a charqueada do título, no Sul do Estado, um casarão impressionante onde estão sendo registrados possíveis fenômenos sobrenaturais: “ruídos estranhos e inexplicáveis durante a noite, louças caindo e arrebentando espontaneamente no chão da cozinha, objetos se movendo sozinhos, episódios de aporte”.
O interessante no retrato do padre, não como um investigador cético, mas como um “parapsicólogo”, é que o personagem, ao mesmo tempo em que rejeita ferozmente explicações que apelam para o sobrenatural, ainda assim acredita em manifestações de “psiquismo” elas próprias próximas da pseudociência, produzindo uma tensão interessante entre racionalidade e delírio. Enquanto tentam investigar as origens dos “fenômenos”, tio e sobrinho desvendam uma história de assombrações não do além-vida, mas dos profundos subterrâneos da História, e mais não conto (mas quem tiver curiosidade, pode dar uma olhada no livro (AQUI neste link da Amazon).
Sendo um livro autopublicado e sendo o autor meu amigo, acompanhei sua produção de perto, inclusive a capa, feita pelo próprio Paulo, e que mostra uma mansão em uma paisagem desértica com uma árvore em primeiro plano – uma imagem que o autor garimpou muito, custando a encontrar alguma que o satisfizesse e casasse a atmosfera pretendida pelo livro com uma real evocação da suntuosidade da charqueada do livro (algo que é reconhecido como incomum mesmo na novela, uma vez que as charqueadas de verdade do Interior do Estado costumam ser espaçosas mas relativamente modestas).
A casa
Certo dia de abril deste ano, enquanto eu passava pela rua Antenor Lemos, no Menino Deus, quase na esquina da José de Alencar, defronte ao hospital, topei com uma casa grande e antiga, cor de rosa, dois andares e jeito de fazenda ancestral, mas que agora tinha mais cara de abrigar alguma clínica médica ou repartição pública. Achei que, de certo modo, parecia evocar aquilo que o Paulo descrevia quando estava à procura da imagem. Fiz uma foto, mandei por WhatsApp e ele brincou com ela numa versão alternativa da capa. Esqueci do assunto até passar de novo pelo mesmo local, em junho, e ver que haviam derrubado o telhado e tirado as madeiras das caixas das janelas. Fiquei na dúvida se estava em curso algum tipo de reforma ou se iam derrubar o prédio.
No fim, infelizmente, era a segunda alternativa, como tem se tornado comum em Porto Alegre. Duas semanas depois, já não havia mais a casa, cuja beleza antiga chegou a me fazer pensar numa charqueada mítica do passado. Mais um tempo e eu finalmente descobri o motivo da derrubada: ampliar um estacionamento que tem na José de Alencar. Está lá, o pátio estéril pavimentado de concreto, fazendo um L com a entrada principal e sitiando uma outra edificação que está, essa sim, bem na esquina, que parece se apequenar diante da ameaça velada de ser a próxima.
Números
A visão crua e violenta daquele estacionamento, marcando como uma cicatriz a paisagem da pacata rua residencial a poucos metros de algumas das mais movimentadas avenidas da Capital, foi a origem de uma impressão que ficou comigo tanto tempo que veio desaguar neste texto. Seguem por boa parte de Porto Alegre as derrubadas de imóveis para instalação de estacionamentos. Alguns deles, coisas grotescas, como exemplos no centro de empreendimentos semelhantes, que deixaram a fachada da casa antiga e arrasaram todo o resto, transformando as ruínas num pátio de brita para o conforto dos automóveis. Em outros casos, derrubam-se pequenos casarios para erguer-se torres inteiras de estacionamento. Discussões públicas sobre a retomada do projeto de tornar o Quarto Distrito num centro de vida noturna da cidade esbarram na reclamação de muitos de que o lugar é “ruim para estacionar”. Os exemplos são vários, você já viu por aí.
E eu me pergunto: não estamos discutindo essa questão com um olhar ultrapassado? Por que ainda há tantos estacionamentos abrindo na cidade quando o transporte por aplicativos parece ter se tornado tão disseminado?
Em 1997, segundo dados oficiais do Senatran, Porto Alegre tinha uma frota estimada de 350 mil a 380 mil veículos – mais ou menos 14% dos 2,6 milhões de veículos da frota do Estado. Em dezembro de 2008, pouco mais de 10 anos depois, a frota na Capital era de 627 mil veículos. Em dezembro de 2016, o mesmo Senatran mostra 822 mil automóveis em Porto Alegre – para um RS que fechou aquele ano com 6,4 milhões de veículos. No ano passado, os dados do Senatran apontaram 949.301 veículos em Porto Alegre, sendo a 11ª maior frota do Brasil. Ao mesmo tempo em que o crescimento parece vertiginoso e insustentável, analisada de perto, a estatística mostra que o aumento da frota foi diminuindo proporcionalmente nos últimos 20 anos. A taxa média de crescimento da frota entre 2004 e 2010 foi de 6,4% ao ano. Pós-2015, essa percentagem ficou entre 2,7% e 3,5%.
Nesse mesmo período, a frota de veículos de aplicativos em Porto Alegre saiu de algo entre 2 mil e 5 mil veículos ativos em 2016 até atingir algo próximo de 30 mil veículos/motoristas ativos em 2023, e atualmente deve estar na faixa de 35 mil veículos/motoristas ativos na capital, com cerca de 50 mil na Região Metropolitana (as empresas da economia digital são notórias pela falta de transparência com suas estatísticas, o que transforma esta parte aqui em uma especulação com maior ou menor margem de erro).
Logo, numa cidade em que o crescimento de veículos novos vem gradativamente diminuindo e o número de veículos de aplicativos parece estar se ampliando em progressão geométrica, em algum momento seria de se imaginar que a pressão da nova frota diminuiria a necessidade de tantos novos espaços de estacionamento, mas na prática não é assim que vem funcionando. Talvez pelo próprio fato de que as duas estatísticas, no fim, se misturam, o que é a grande armadilha da economia de aplicativos em qualquer área, mas que fica mais visível no transporte motorizado porque é um dos serviços mais amplamente utilizados. Evoluiremos para o momento em que todo mundo comprará carro para ser Uber? E nesse momento, quem serão os passageiros? Onde moraremos todos, com o capital concentrando imóveis ociosos para serem colocados como AirBnB, enquanto o que sobrar será derrubado para fazer estacionamento?
Sei lá. Penso ser uma conta que não fecha, e não sei o motivo (o que não é de se admirar, já que eu não sou muito brilhante mesmo).