
Foi um amigo chileno quem me prometeu o restaurante mais barato de Barcelona.
Era um pequeno restaurante paquistanês, desses que passam despercebidos para quem caminha pela cidade. Ficava em frente à recém-inaugurada Rambla do Raval, uma ampla praça onde a enorme escultura do gato de Fernando Botero parecia observar silenciosamente a transformação do bairro. Ao lado, começava a surgir um grande hotel que prometia atrair turistas para aquela parte da cidade.
Era difícil imaginar que aquele espaço aberto, cheio de gente caminhando, tivesse sido, poucos anos antes, um emaranhado de ruas estreitas e edificações insalubres.
O Raval sempre foi um bairro peculiar.
Durante décadas abrigou trabalhadores, famílias de baixa renda, pensões, cortiços e, mais tarde, sucessivas ondas de imigrantes. Era um dos lugares mais pobres e também mais diversos de Barcelona. Foi justamente por isso que sua transformação se tornou um dos casos urbanos mais estudados da Europa. Na época em que me mudei para Barcelona, esse debate estava em toda parte.
A palavra da moda era gentrificação.
Na teoria, o conceito parece simples: um bairro degradado é recuperado, valoriza-se e, aos poucos, seus moradores originais são substituídos por outros de maior renda. Na prática, porém, a cidade quase nunca segue os livros.
O Raval me ensinou isso.
Antes mesmo das grandes obras, muitos moradores espanhóis já haviam deixado o bairro. A degradação física, a falta de investimentos e a crescente insegurança haviam tornado a região pouco atrativa para quem podia escolher onde morar.
O bairro não se esvaziou, pois, ao mesmo tempo, Barcelona vivia um período de intensa imigração.
Foi sendo ocupado por novos moradores, principalmente vindos do sul da Ásia, do norte da África e de diferentes países da América Latina. A cidade mudava de idioma, de aromas e de sabores. Foi nesse contexto que nasceu o projeto de transformação da Ciutat Vella.
No caso do Raval, os desafios eram tão específicos que exigiram um plano próprio. Durante quase cinco anos foram realizados levantamentos, negociações, desapropriações e discussões com a população antes que as primeiras demolições começassem.
Conheci esse processo por meio do extraordinário documentário En construcción, de José Luis Guerín (2001). O filme mostra algo que os projetos urbanos costumam esconder nos desenhos: transformar uma cidade significa transformar vidas. E isso nunca acontece sem conflitos.
A Rambla do Raval nasceu justamente dessa transformação.
Para que ela existisse, aproximadamente três quadras inteiras precisaram ser demolidas. Durante as negociações, muitos moradores receberam a garantia de que poderiam permanecer no bairro em novas habitações sociais construídas nas proximidades.
Naquele momento, tudo parecia exemplar.
Talvez por isso aquele restaurante paquistanês continuasse ali. Na verdade, ele havia chegado antes da praça. Enquanto almoçava, olhando para o novo espaço público, uma pergunta não saía da minha cabeça: por quanto tempo aquele restaurante continuaria sendo o mais barato de Barcelona?
Minha permanência na cidade coincidiu com a primeira década da transformação do Raval. Era como assistir diariamente a um laboratório urbano a céu aberto.
Pouco a pouco formou-se um percurso quase natural para quem visitava Barcelona. Do mercado da Boqueria seguia-se pela Carrer del Carme até o Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona. Depois bastava caminhar sem rumo pelas ruas estreitas para, inevitavelmente, desembocar na Rambla do Raval.
A cada ano surgiam novos edifícios reabilitados. Novas moradias. Novos escritórios. Tudo respeitando a escala tradicional do bairro, predominantemente de seis pavimentos. A exceção era o grande hotel junto à rambla, autorizado a doze andares, em uma quadra específica.
Fisicamente, o projeto parecia um sucesso.
Mas as transformações mais profundas não aconteciam nas fachadas. Aconteciam dentro dos imóveis.
E também nos cardápios.
O restaurante paquistanês continuava servindo praticamente os mesmos pratos. Mas já não era o mais barato. Nem precisava ser. Novos moradores começaram a chegar. Profissionais estrangeiros, estudantes internacionais, trabalhadores altamente qualificados.
Vieram também os apartamentos turísticos e os moradores temporários. Pouco a pouco, os antigos moradores passaram a encontrar dificuldades para permanecer ali.
Pesquisas da Universitat Autònoma de Barcelona mostram justamente esse movimento a partir da década de 2010: aumento dos preços, maior instabilidade residencial e substituição gradual da população tradicional por grupos de renda mais elevada. É esse processo que muitos autores chamam de gentrificação transnacional.
O caso do Raval mostra que construir habitação social é importante.